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Edição 1997

28 de fevereiro de 2007
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André Petry
Sexo, não.
Câncer, sim

"É um desvio típico do fundamentalismo
religioso lá e cá: eles não se contentam
em viver segundo seus dogmas. Precisam
que a humanidade inteira também o faça"

Os conservadores religiosos voltaram a atacar – e, como já deixou de ser surpresa, estão defendendo uma moral que mata. O caso agora envolve a descoberta da vacina contra o HPV, vírus que responde por 70% dos casos de câncer do colo uterino. Como a vacina só exerce sua eficácia plena em mulheres que nunca tiveram contato com o HPV, e o meio mais comum de transmissão do vírus é a relação sexual, os especialistas recomendam o óbvio: que a vacina seja aplicada antes que as meninas comecem a ter vida sexual ativa.

É nesse ponto que os fundamentalistas cristãos comparecem. Eles acham que vacinar uma menina de 11, 12 ou 13 anos pode estimular a prática do sexo. E, como sexo só pode ser feito depois do casamento, essa vacina tem de ser coisa do demônio. Isso quer dizer o seguinte: a proteger as meninas contra um câncer dando-lhes uma vacina comprovadamente eficaz, ainda que isso possa estimular a prática sexual, eles preferem ficar atolados na aposta cega da castidade e deixar as meninas sob o risco de contrair uma doença que mata – e que, pior ainda, pode ser contraída por meios que não os sexuais.

A histeria conservadora chegou ao ápice nos Estados Unidos nos últimos dias, quando o governo do Texas baixou uma medida tornando a vacina obrigatória. Além da reação dos conservadores, o governador foi acusado de ceder às pressões subterrâneas do fabricante da vacina, o laboratório Merck, que aliás deu 6.000 dólares para sua campanha à reeleição, mas manteve sua decisão – por enquanto. A medida adotada no Texas, e sob estudo de outros estados americanos, permite que os pais se recusem a aplicar a vacina em suas filhas. Ou seja: a vacina é obrigatória, para o bem da saúde pública, mas abre exceções. Nem isso acalmou a turma. É um desvio típico do fundamentalismo religioso tanto lá como cá: eles não se contentam em viver segundo seus dogmas, suas verdades absolutas e suas revelações divinas. Precisam que a humanidade inteira também o faça.

O câncer de colo de útero mata cerca de 230.000 mulheres em todo o mundo a cada ano. É o segundo tipo de câncer mais comum em mulher. No Brasil, a incidência é desigual. A taxa mais alta fica no Rio Grande do Sul, onde afeta mais de trinta mulheres em cada grupo de 100.000, e a mais baixa ocorre na Paraíba, atingindo menos de dez mulheres em cada 100.000.

Em agosto do ano passado, o governo brasileiro aprovou a vacina, e o Ministério da Saúde estuda a melhor forma de oferecê-la nos postos de saúde da rede pública. Como a vacina é caríssima e é preciso definir a faixa etária em que a imunização será feita, ninguém acredita que se terá uma decisão ainda neste ano. Quanto mais demorar, pior. Mas quando (e se) a vacina aparecer nos postos de saúde é bom que se esteja preparado para a repetição por aqui do mesmo clamor conservador ouvido nos Estados Unidos. Afinal, entre nós já apareceu até autoridade da Igreja Católica demonizando o uso de preservativo, apesar da epidemia da aids. É a mesma moral que mata.

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