"É um desvio típico
do fundamentalismo religioso lá e cá: eles não se contentam
em viver segundo seus dogmas. Precisam que a humanidade inteira também
o faça"
Os conservadores religiosos
voltaram a atacar e, como já deixou de ser surpresa, estão
defendendo uma moral que mata. O caso agora envolve a descoberta da vacina contra
o HPV, vírus que responde por 70% dos casos de câncer do colo uterino.
Como a vacina só exerce sua eficácia plena em mulheres que nunca
tiveram contato com o HPV, e o meio mais comum de transmissão do vírus
é a relação sexual, os especialistas recomendam o óbvio:
que a vacina seja aplicada antes que as meninas comecem a ter vida sexual ativa.
É nesse ponto que os
fundamentalistas cristãos comparecem. Eles acham que vacinar uma menina
de 11, 12 ou 13 anos pode estimular a prática do sexo. E, como sexo só
pode ser feito depois do casamento, essa vacina tem de ser coisa do demônio.
Isso quer dizer o seguinte: a proteger as meninas contra um câncer dando-lhes
uma vacina comprovadamente eficaz, ainda que isso possa estimular a prática
sexual, eles preferem ficar atolados na aposta cega da castidade e deixar as meninas
sob o risco de contrair uma doença que mata e que, pior ainda, pode
ser contraída por meios que não os sexuais.
A histeria conservadora chegou ao ápice nos Estados Unidos nos últimos
dias, quando o governo do Texas baixou uma medida tornando a vacina obrigatória.
Além da reação dos conservadores, o governador foi acusado
de ceder às pressões subterrâneas do fabricante da vacina,
o laboratório Merck, que aliás deu 6.000 dólares para sua
campanha à reeleição, mas manteve sua decisão
por enquanto. A medida adotada no Texas, e sob estudo de outros estados americanos,
permite que os pais se recusem a aplicar a vacina em suas filhas. Ou seja: a vacina
é obrigatória, para o bem da saúde pública, mas abre
exceções. Nem isso acalmou a turma. É um desvio típico
do fundamentalismo religioso tanto lá como cá: eles não se
contentam em viver segundo seus dogmas, suas verdades absolutas e suas revelações
divinas. Precisam que a humanidade inteira também o faça.
O câncer de colo de útero mata cerca de 230.000 mulheres em todo
o mundo a cada ano. É o segundo tipo de câncer mais comum em mulher.
No Brasil, a incidência é desigual. A taxa mais alta fica no Rio
Grande do Sul, onde afeta mais de trinta mulheres em cada grupo de 100.000, e
a mais baixa ocorre na Paraíba, atingindo menos de dez mulheres em cada
100.000.
Em agosto do ano
passado, o governo brasileiro aprovou a vacina, e o Ministério da Saúde
estuda a melhor forma de oferecê-la nos postos de saúde da rede pública.
Como a vacina é caríssima e é preciso definir a faixa etária
em que a imunização será feita, ninguém acredita que
se terá uma decisão ainda neste ano. Quanto mais demorar, pior.
Mas quando (e se) a vacina aparecer nos postos de saúde é bom que
se esteja preparado para a repetição por aqui do mesmo clamor conservador
ouvido nos Estados Unidos. Afinal, entre nós já apareceu até
autoridade da Igreja Católica demonizando o uso de preservativo, apesar
da epidemia da aids. É a mesma moral que mata.