Meu caro
poeta
Correspondência com Drummond
e Bandeira esclarece
a formação
poética de João Cabral
Flávio
Moura
Quando concluiu seu primeiro livro, Pedra do Sono, em
1942, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto
enviou-o a Mário de Andrade, à época
já um medalhão da vida intelectual brasileira.
Não recebeu resposta alguma. Considerando-se a generosidade
do autor de Macunaíma com os mais novos e sua
prolífica produção epistolar, João
Cabral tinha motivos de sobra para ficar magoado e desanimar.
Por sorte, não lhe faltaram mentores de primeiríssimo
time. Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, os nomes-chave
da poesia modernista no Brasil, souberam reconhecer o valor
daqueles poemas e foram referências em sua formação.
Durante as décadas de 40 e 50, Cabral correspondeu-se
com eles. As cartas, reunidas pela pesquisadora Flora Süssekind
no volume Correspondência de Cabral com Bandeira
e Drummond (Nova Fronteira; 320 páginas; 32
reais), que chega às livrarias no dia 5 de março,
são uma oportunidade inédita de acompanhar o
processo formativo de Cabral e de entender o papel desempenhado
por Bandeira e Drummond nesse período.
A afinidade mais imediata se dá com Drummond. Foi por
causa dele que Cabral decidiu tornar-se poeta. A leitura de
Brejo das Almas, um dos primeiros livros do mineiro,
trouxe para ele o elemento que seria o ponto de partida para
sua poesia: a dicção áspera, despida
da oratória eloqüente típica da poesia
clássica e que tanto o irritava. Nas cartas, ele chama
Drummond de mestre, pergunta se um dia aprenderá "aquela
linguagem de seu livro", confessa que ele é o único
a quem tem sentido vontade de escrever. O poeta mineiro, por
sua vez, incentiva a publicação de Pedra
do Sono. "Escrever para si mesmo é narcisismo,
ou medo disfarçado em timidez", aconselha Drummond
com precisão cirúrgica, numa carta de janeiro
de 1942. Desde o início ele elogia "as associações
de coisas e estado de espírito que excedem a lógica
rotineira" da poesia cabralina. A desaceleração
do contato entre os dois no início da década
de 50 revela, igualmente, o grau de ascendência do mestre
sobre o discípulo. Por essa época Drummond fica
mais político, metafísico, o que naturalmente
acaba afastando Cabral. Mas também é fato que
Cabral precisava parar de se medir pelo metro de Drummond
e impor sua dicção. Estava num impasse: ou virava
um imitador, ou rompia o diálogo.
Com Bandeira não havia esse problema. Cabral tenta
o primeiro contato em 1942, enviando-lhe seu livro, mas a
relação entre os dois só se estabelece
em 1947. A essa altura, as cartas mostram que Cabral já
sabe muito bem o caminho poético que pretende seguir.
Numa carta de 1948, ele reconhece a capacidade de Bandeira
de despir seus versos de qualquer efeito "poético",
de escrever como se a realidade que ele apresenta não
fosse mediada pela linguagem. Mas deixa bem claro que sua
lavra é outra: a do apuro formal e do distanciamento
crítico. As cartas também revelam um Bandeira
que não se enquadra no estereótipo de um poeta
consagrado em fim de carreira. Ele se mostra um intelectual
curioso e atualizado, que instiga Cabral a conhecer os poetas
espanhóis e sabe reconhecer a força de um poema
como o O Cão sem Plumas, que Cabral lhe envia
em 1950.
No fundo, esse livro de cartas mostra a organicidade da tradição
moderna no Brasil. Cabral tinha plena consciência dos
principais nomes da geração anterior a ele e
queria partir daquele ponto para avançar e construir
sua obra. A ida à Espanha é de importância
crucial para essa independência. Lá ele encontra
um ambiente intelectual dinâmico, aproxima-se do surrealismo,
fica amigo do pintor Joan Miró, lê poetas como
Jorge Guillén e García Lorca. A partir desse
livro, é possível traçar os primeiros
passos de João Cabral nessa imersão pela cultura
espanhola e acompanhar a construção de um caminho
poético que o colocaria na mesma altura dos antecessores
Bandeira e Drummond. Não foi à toa que Mário
de Andrade não o entendeu. João Cabral era moderno
demais para ele.
Paulo Jares
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| João
Cabral: falando com os mestres |
Mui
caro Manuel,
Numa fase de pré-operação, operação
e pós-operação da cabeça,
com tudo que isso implica de medo, medo, medo, impediu-me
de lhe agradecer antes o Literatura Hispano-Americana.
Estou certo de que v. me desculpará. (...) Ando
com muita preguiça e lentidão trabalhando
num poema sobre o nosso Capibaribe. A coisa é
lenta porque estou tentando cortar com ela muitas amarras
com minha passada literatura gagá e torre-de-marfim.
Um grande abraço de seu
João
Cabral
Barcelona,
3 de dezembro
de 1949
Meu
caro Carlos,
Quando eu estava no Rio, acostumei-me tanto a discutir
com v. certos assuntos que não me seria possível
deixar de abordá-los. Muitas das coisas que eu
lhe diria são coisas que aprendi de você,
naquelas nossas conversas, em que eu me encastelava
num racionalismo esquemático e radical (que hoje
compreendo ser onanista inteiramente). Ora, v. hoje
está preocupado por outras coisas, já
muito mais adiante, por exemplo: a "quadratura" do verso.
E só poderia ficar indiferente às minhas
preocupações atuais. De seu
João
Barcelona,
14 de agosto de 1950
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