Bicharada
legal
Fazendas criam antas e jacarés para
o abate e tucanos
para vender como
animais de estimação
Leonardo
Coutinho
Clovis Ferreira
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| Fazenda
no interior de São Paulo: criação de capivaras |
O comércio ilegal de animais silvestres dá cadeia.
Mas já é possível degustar um tenro filé
de tartaruga ou manter um tucano engaiolado dentro de casa
sem nenhum risco. Existem no Brasil 350 criadouros dedicados
à reprodução ou engorda de animais silvestres
com fins comerciais. Há estabelecimentos especializados
em jacarés, capivaras, queixadas, perdizes, emas, tucanos,
araras, papagaios, ratões-do-banhado e até borboletas,
usadas na confecção de alguns tipos de artesanato.
Como os bichos não são retirados da natureza,
é perfeitamente legal comercializá-los. Os compradores
vão de churrascarias de cardápio variado a famílias
interessadas em ter um animal de estimação diferente.
É um negócio legal, com autorização
e apoio do Ibama.
A primeira espécie silvestre liberada para o manejo
comercial foi a tartaruga-da-amazônia, há quase
dez anos. Naquela época, o animal estava ameaçado
de extinção. A principal causa era a caça
ilegal. "Apenas a proibição do comércio
não ia resolver o problema", diz o biólogo Francisco
Neo, do Departamento de Vida Silvestre do Ibama. "Era preciso
criar uma saída para as pessoas que sobreviviam das
tartarugas ganharem dinheiro." Deu certo. Cerca de 700 000
tartarugas serão criadas em cativeiro neste ano, e
a espécie agora está longe de qualquer risco.
Em Lagoa da Confusão, no Tocantins, o pecuarista Elói
Amélio Bernadon investiu há três anos
50 000 reais na implantação dos tanques e da
maternidade para milhares de tartarugas. Com 5 000 animais
prontos para o abate, ele vai faturar 400 000 reais neste
ano. A bem-sucedida experiência com as tartarugas abriu
as portas para outras espécies. Surgiram os criadouros
de jacarés no Pantanal, de capivaras no interior de
São Paulo e de outros bichos por todo o país.
A última fase, iniciada há três anos,
começou com a liberação da criação
de espécies para venda como animais de estimação.
O Ibama já autorizou a abertura de cinqüenta criadouros
de aves para esse fim.
Fotos Nelio Rodrigues
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| Paulo
Machado e dois de seus pássaros à venda: autorização do
Ibama |
Há dois anos, o biólogo Paulo Machado cria araras,
papagaios e periquitos numa fazenda na cidade mineira de Betim.
Nesse tempo, ele montou um criatório com aves de setenta
espécies. Agora, está investindo meio milhão
de reais numa fábrica de rações para
animais silvestres. Pretende atender não só
os criadores de pássaros mas também os de tartarugas,
que ainda não têm ração específica
no mercado nacional.
Fazendas como a de Machado movimentam um total de 100 milhões
de reais anuais no país e constituem um negócio
que faz concorrência direta com os criminosos. O tráfico
de animais silvestres mobiliza 10 bilhões de dólares
por ano no mundo e um décimo disso no Brasil. Na área
dos negócios ilegais, a venda de bichos silvestres
só perde para o tráfico de drogas e para o comércio
de armas. Os animais criados em cativeiro custam mais que
os do mercado negro. Um canário legalizado sai por
algo entre 200 e 250 reais. Os traficantes têm exemplares
a 50 reais. Mas cada vez mais compradores se preocupam com
o risco de pagar 500 reais de multa por animal mantido em
casa irregularmente.
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