A lenta
agonia de um
símbolo brasileiro
Chamado
de "rio da integração nacional",
o São Francisco foi devastado durante
décadas. Surge, agora, o plano de salvação

Gisela
Sekeff, de Pirapora
Imago/Ag. Lumiar

Rio
domado: águas lentas no cânion da represa
de Xingó |
O
ministro Fernando Bezerra, da Integração Nacional,
garante que começa em agosto a obra de transposição
das águas do Rio São Francisco, a construção
de gigantescas tubulações e canais num percurso
de 1.440 quilômetros de extensão
para irrigar o sertão dos Estados de Pernambuco, Ceará,
Paraíba e Rio Grande do Norte. Ao final de todas as
obras, em 2026, o chamado "rio da integração
nacional" terá dividido seu líquido com centenas
de regatos, riachos e ribeirões, que se tornarão
perenes e darão fim, segundo se promete, à seca
no sertão do Nordeste. Milagre igual só se viu
até hoje no cinema. O trabalho de irrigação
do deserto em Israel é quase nada quando comparado
ao que se planeja no semi-árido brasileiro.
Eduardo Queiroga/Ag. Lumiar

Barcas
de carga na cidade baiana de Juazeiro |
O mapa do Brasil está cheio de rios que deram a vida
para que o homem sobrevivesse em suas margens. O Tietê,
em São Paulo, e o Rio das Velhas, em Minas Gerais,
ambos transformados em esgoto em grande parte dos seus cursos,
são dois exemplos disso. Com o projeto da transposição,
o São Francisco está na rota certa para justificar
seu nome de santo. Tanto poderá tornar-se o rio abençoado
que acabou com o maior flagelo das secas nordestinas
caso tudo corra bem como pode virar o mártir
de um projeto ambicioso, na hipótese de sua água
não ser suficiente para sustentar ao mesmo tempo o
próprio curso mais toda a rede de irrigação
que se pretende construir.
Se
a transposição der certo, ela será o
mais importante de uma enorme lista de benefícios que
o rio tem proporcionado desde que, há exatos 500 anos,
Américo Vespúcio navegou pela primeira vez em
suas águas. Hoje, sem essa obra, mais da metade de
seu percurso de 2.700 quilômetros
já atravessa o chamado Polígono das Secas, a
área mais castigada por estiagens que chegam a durar
três anos, como a que começou em 1877 e matou
meio milhão de pessoas ou, mais recentemente, a iniciada
em 1992. Nessas ocasiões, só o Rio São
Francisco segue em frente, dando vida e esperança a
15 milhões de moradores das regiões em torno
de seu vale. Tudo o mais, rio ou planta, seca e esturrica.
Moradores de mais de 500 cidades ocupam a bacia, bebem de
sua água e pescam seus peixes. A energia elétrica
gerada nas turbinas de nove hidrelétricas construídas
ao longo de seu curso vai ainda mais longe. Parte dela abastece
Salvador, que está a 500 quilômetros de suas
margens. O rio é usado também para transporte
de carga e para irrigar plantações de café,
soja, manga, aspargo e até uva.
Alain Dhome

Cascata
na Serra da Canastra, perto da nascente do rio: daí
para a frente, só agressões |
Se a transposição falhar, entrará para
uma lista de descasos e violências sofridos pelo rio.
Eis um pequeno resumo:
Mais de 80% da vegetação nativa na parte mineira
do rio, que contribui com 70% de toda a água da bacia,
foi devastada para a produção agrícola,
pecuária e de carvão vegetal.
Na principal hidrovia, entre a cidade mineira de Pirapora
e Juazeiro, na Bahia, o assoreamento já quase impede
a navegação. Nos últimos anos, três
dos maiores afluentes do rio o Verde Grande, o Salitre
e o Ipanema deixaram de ser perenes devido ao assoreamento.
Depois de 1982, com a conclusão da Usina de Sobradinho,
a 540 quilômetros de Salvador, a vazão na foz
do rio encolheu 30%. Por causa da redução no
volume de água, secaram 72 lagoas que existiam nas
margens e serviam de criatório para os peixes.
Muitas espécies de peixes, como o pirá, não
são pescadas nem vistas no rio há mais de vinte
anos.
O mercúrio dos garimpos e o ferro da mineração
vão matando aos poucos alguns afluentes do rio.
Diante de tamanha coleção de problemas, há
quem denuncie a transposição como um crime mortal
contra o rio. "Essa obra é tão absurda quanto
levar uma pessoa anêmica para doar sangue", diz o engenheiro
agrônomo José Theodomiro de Araújo, presidente
do Comitê Executivo de Estudos Integrados da Bacia Hidrográfica
do Rio São Francisco (Ceivasf).
O governo tem, no entanto, um programa para enfrentar cada
item dessa relação. Ele se chama Plano de Revitalização
Hidro-Ambiental do Rio São Francisco. Foi elaborado
pelo Ministério da Integração Nacional
em maio do ano passado e está orçado em 3 bilhões
de reais praticamente o mesmo valor da transposição.
O projeto prevê a recomposição da mata
em torno do leito principal e nos afluentes, o saneamento
básico dos municípios ribeirinhos e o desassoreamento
dos trechos navegáveis do rio e de seus afluentes,
entre outras medidas. "A revitalização será
feita porque tirar água de um rio que está morrendo
seria jogar um monte de dinheiro fora", promete o ministro
Fernando Bezerra. Ele só não garante que o conserto
do rio comece antes da grande obra de transposição.
Ao longo do São Francisco, sobram evidências
de que a transposição antes da revitalização
é uma solução do tipo cobertor curto.
Os problemas do rio começam em seus tributários.
Em Belo Horizonte, o Rio das Velhas recebe o esgoto de uma
população de mais de 2 milhões de pessoas.
Tudo corre para o São Francisco, junto com os resíduos
de minerações que o Rio das Velhas vai recolhendo
ao longo de, no mínimo, 300 quilômetros. Por
causa do assoreamento causado pelo depósito de resíduos,
o São Francisco está com uma correnteza bem
menos veloz hoje em dia. Quanto mais lentas, as águas
deixam mais resíduos no leito. E assim vai a degradação,
uma coisa piora a outra. Sabe-se que existem pelo menos cinco
pontos críticos entre Pirapora e Juazeiro em que os
bancos de areia afloram e se tornam ilhas no meio da calha
do rio, impedindo a navegação.
Quando o rio ainda tinha o ritmo natural das cheias, o avanço
e o recuo alternados das águas sobre as margens representavam
uma bênção comparável ao regime
de cheias do Nilo, no Egito. Na enchente, o São Francisco
doava o barro fértil de seu leito aos terrenos da margem.
Isso se foi acabando com a construção das hidrelétricas.
A última grande cheia ocorreu em 1979, justamente o
ano em que entrou em operação a Usina de Sobradinho.
Como qualquer ecossistema, o São Francisco é
um ambiente em que uma única alteração
provoca repercussão em cadeia. Com o fim do regime
de cheias, reduziu-se a quantidade de espécies de peixes
cuja desova acontecia no meio da vegetação alagada.
Restam umas 140 espécies no rio, segundo avaliação
de especialistas. "Já houve pelo menos o dobro", assegura
Fábio Castelo Branco Costa, professor de ecologia da
Universidade Federal de Alagoas.
O rio continua dando água para os criatórios
mais de 1.000 hectares tomados
por tanques de piscicultura , e há iniciativas
de repovoamento, como a da Companhia Hidrelétrica do
São Francisco (Chesf). "Jogamos 4 milhões de
alevinos por ano no rio", conta Mozart Siqueira Campos, presidente
da empresa. Mas, de novo, a ação do homem, ainda
que bem-intencionada, dá resultados negativos. Num
dos programas de repovoamento, foram jogados alevinos de tucunaré,
peixe natural da Amazônia, carnívoro e sem inimigos
naturais no novo habitat. Resultado: o tucunaré se
reproduziu num ritmo 15% maior que os outros peixes. Mais
um efeito das represas é o empobrecimento da água
ao longo do rio. Os microscópicos vegetais e animais
chamados de plâncton, base da cadeia alimentar na água,
ficam retidos nas barragens. Para quem vê, a água
cristalina depois da represa é um espetáculo.
Linda, mas estéril. Espera-se que a transposição
crie condições para pôr fim a essa lenta
agonia do São Francisco.
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