O
futuro chegou
O historiador inglês
acha
que a hora
do Brasil é esta, mas o país precisa de
negociadores melhores para a guerra
do comércio global
João
Gabriel de Lima
Evelyn Funt
 |
"Diplomatas
tradicionalmente
não
estudam economia e, hoje, para eles, essa matéria
é mais importante que história ou relações
internacionais"
|
Sempre
que as nações ricas querem deslindar algum
mistério a respeito do Brasil chamam o historiador
inglês Kenneth Maxwell, de 60 anos. Autor de várias
obras sobre o país, entre elas clássicos como
A Devassa da Devassa (1973), que revolucionou os
estudos acerca da Inconfidência Mineira, Maxwell entende
como poucos as peculiaridades do Brasil e faz questão
de se manter sempre atualizado. Por suas credenciais, foi
convocado há cerca de um ano para chefiar uma força-tarefa
de intelectuais que tinham como objetivo esmiuçar
as relações entre Brasil e Estados Unidos.
O estudo, financiado pelo prestigiado Council on Foreign
Relations, foi endereçado ao presidente George W.
Bush como contribuição para ele entender e
dialogar com o Brasil. É um documento polêmico.
Foi produzido por uma entidade que não tem ligações
nem recebe verbas do governo americano. Maxwell e seu grupo
expõem aos olhos dos americanos um Brasil que Washington
deveria encarar com mais interesse do que faz, no sentido
de alargar o intercâmbio comercial das duas nações.
Abaixo, entrevista que ele concedeu a VEJA de sua casa,
em Connecticut, Estados Unidos.
Veja Os diplomatas do Itamaraty recebem críticas
freqüentes por não conseguir impor-se nos foros
internacionais. Elas procedem?
Maxwell
Primeiramente, é importante reconhecer que isso é
um problema genérico, comum a todos os ministérios
de Relações Exteriores no mundo pós-Guerra
Fria. Diplomatas tradicionalmente são treinados em
disciplinas como história ou relações
internacionais e não estudam economia. Hoje em dia,
no entanto, comércio exterior, fluxos de capital
e investimentos têm dominado as relações
entre países. Com isso, negociações
críticas têm ido para outras áreas de
governo fora da diplomacia. O presidente George W. Bush,
na área de relações exteriores, tem
nomeado negociadores duros, com anos de experiência
tanto em governo como no setor privado. É verdade
sim que o Brasil tem sido lento em responder a esse novo
desafio. Pessoalmente, eu acho que se trata de um dos grandes
problemas que o Brasil tem hoje para se relacionar com outros
países.
Veja Haverá um encontro entre George
W. Bush e Fernando Henrique Cardoso agora em março.
O evento pode inaugurar uma nova era no relacionamento entre
os dois países?
Maxwell
Eu acho que será um encontro crucial, mas os brasileiros
deverão ter em mente que essas meganegociações
não serão um piquenique. Elas serão
muito duras e complexas, de alto teor político, envolvendo
não só o poder executivo mas também
o Congresso e poderosos grupos de interesses. Os mexicanos,
no episódio da criação do Nafta, mobilizaram
um batalhão de lobistas de alto nível, advogados
e políticos importantes, e firmas renomadas de relações
públicas, gastando com isso cerca de 20 milhões
de dólares. Com certeza muito dinheiro, mas menos
do que o juiz Lalau, pelo que dizem, lucrou com o tribunal
em São Paulo. No caso da Alca, o Brasil precisa utilizar
um time de alto nível, experiente, com grande habilidade
de negociação e que tenha contatos dentro
dos governos, Congressos e setores privados de ambos os
países. Além disso, os brasileiros precisam
ter uma idéia clara do que querem.
Veja Lobbies como os do aço e do suco
de laranja são fortes nos Estados Unidos, impedindo
a entrada de produtos brasileiros nesses mercados. Até
que ponto isso atrapalha a relação entre os
dois países?
Maxwell
O fato é que tanto na política brasileira
como na americana existem interesses paroquiais que às
vezes se sobrepõem ao interesse geral. Há
empresários que têm determinadas vantagens,
e eles, é claro, não querem perdê-las.
É por isso que nós escrevemos, no documento,
que as relações entre Brasil e Estados Unidos
têm de ir para uma esfera mais elevada, para instâncias
de governo, em que se possa ter visão de conjunto.
Sem isso, grupos específicos, como o do suco de laranja
ou do aço, que você citou, acabam colocando
seus interesses mesquinhos em primeiro lugar.
Veja O senhor vê no novo governo americano,
comandado por George W. Bush, disposição para
contrariar esses lobbies?
Maxwell
Eu, particularmente, imagino que George W. Bush será
um presidente preocupado com relações comerciais
saudáveis. Até porque o pai dele era. O primeiro
George Bush, não podemos esquecer, foi quem lançou
a pedra fundamental da Alca. Também sou otimista
porque acho que não há alternativa. É
uma questão de realpolitik. Se Brasil e Estados
Unidos não se sentarem para conversar agora, teremos
cada vez mais conflitos.
Veja Há que se considerar, também,
que a União Européia vem ganhando cada vez
mais espaço no Brasil. O comércio entre ambos
os lados cresceu 120% nos últimos dez anos, e ultimamente
é a Espanha, e não os Estados Unidos, que
está trazendo mais dinheiro novo para o país.
Há a possibilidade de o Brasil ficar mais próximo
da Europa que dos Estados Unidos?
Maxwell
Existe certa pretensão do governo brasileiro de explorar
essa competitividade. Mas, pessoalmente, acho que o mundo
globalizado é muito mais complexo que isso. Mesmo
os bancos espanhóis que investem tanto no Brasil
têm capital americano. E os Estados Unidos também
têm comércio com a Europa, havendo até
a possibilidade de um acordo entre os dois blocos, por que
não? A questão da competição
entre Europa e Estados Unidos é secundária.
O crucial é que o Brasil seja competitivo dentro
dos grandes mercados americanos e europeus, para com isso
aumentar suas exportações, ainda o ponto fraco
da estratégia econômica do país.
Veja O relatório detecta um certo sentimento
negativo do Brasil em relação aos Estados
Unidos. Ele se justifica?
Maxwell
Depende
da área. Eu acho que não se justifica, por
exemplo, no caso da Amazônia. É bobagem esse
medo de que os americanos queiram ter algum tipo de soberania
sobre a região. Houve, no entanto, momentos em que
os Estados Unidos prometeram coisas ao Brasil e não
cumpriram. O relatório fala francamente sobre isso.
Em tempos recentes, acho que a maior cicatriz diz respeito
à posição dúbia em relação
ao golpe de 1964. Primeiro, os americanos apoiaram a ditadura.
Depois, em 1977, Jimmy Carter, com sua política de
direitos humanos, condenou a tortura. Essa crítica
de Carter ao regime militar foi uma posição
louvável e necessária, na minha opinião
pessoal. Mas soou hipócrita para muitos brasileiros.
Veja Como o senhor vê a crise entre Brasil
e Canadá em torno da vaca louca?
Maxwell
A meu ver há grande ironia nessa disputa. A doença
da vaca louca não se originou em Mato Grosso ou em
Alberta ou no Texas. Isso é um problema europeu agravado
por uma negligência gritante, um abafamento e agora
uma histeria. É imperdoável que a Inglaterra
tenha exportado alimento contaminado para outros países
europeus depois que o britânicos proibiram seu uso
doméstico. Já havia provas circunstanciais
de que era essa a causa do alastramento da vaca louca. Assim,
o Canadá e o Brasil, parceiros em potencial, estão
brigando ferozmente por causa de uma situação
gerada longe deles, do outro lado do oceano, e no processo
estão danificando seus interesses comerciais. Essa
situação, aliás, me lembra um comentário
do irmão do marquês de Pombal em 1755. Ele,
que era governador das províncias do Grão-Pará
e do Maranhão, disse que ficaria feliz ao ver os
franceses e ingleses "quebrando suas cabeças" se
isso desviasse sua atenção das riquezas do
império luso-brasileiro. Hoje, os europeus devem
estar felizes ao ver o Canadá e o Brasil brigando
sobre um problema que eles próprios criaram!
Veja O senhor morou no Rio de Janeiro nos anos
60 e volta periodicamente ao país por causa de suas
pesquisas históricas. Que mudanças observou
no Brasil no período?
Maxwell
O que me impressionava naquela época era que, devido
ao fechamento da economia, havia vários artigos que
consumo que os brasileiros não podiam comprar. Chamava
também a minha atenção o fato de a
classe média ser tão reduzida. Hoje, pode-se
comprar praticamente de tudo no Brasil, e a classe média
é também muito maior. Isso é ótimo.
O lado ruim é que naquela época era possível
andar tranqüilamente pelas ruas do Rio a qualquer hora
do dia ou da noite, inclusive subir morros e visitar favelas.
Hoje, a violência aumentou muito e isso não
é mais possível. Acho que o Brasil precisa
encarar o problema da criminalidade, melhorando a eficiência
do sistema judiciário e das forças policiais,
por exemplo.
Veja Nos anos 70, o senhor provocou polêmica
no país com o livro A Devassa da Devassa,
que de certa maneira desmistificava a figura de Tiradentes.
O senhor acha que o Brasil é um país que cultua
seus líderes e heróis nacionais?
Maxwell
O
livro, na verdade, apenas tirava de Tiradentes a primazia
de ser o protagonista da história. Ele lá
era mostrado como parte de um movimento, a meu ver importantíssimo,
que congregou uma parte significativa da elite em torno
de um projeto de independência. Eu sou enormemente
agradecido pela recepção que A Devassa
da Devassa teve no país, particularmente porque
eu era um estrangeiro lidando com uma questão altamente
sensível e fortemente enraizada na consciência
nacional. A obra provocou uma certa discussão, mas
não concordo que tenha sido porque o Brasil cultue
seus mitos. O Brasil é, ao contrário, um país
de céticos, de pessoas bem-humoradas que gostam de
fazer piada com tudo.
Veja Isso é bom ou ruim?
Maxwell
Para
mim, esse é um traço positivo do caráter
brasileiro. Veja o caso da Alemanha. Lá, todos levam
a sério demais seus chefes, e acabaram arrastados
por um deles para uma aventura macabra como o nazismo. Isso
também diferencia o Brasil de outros países
da América Latina, mais propensos ao caudilhismo.
Veja o caso da Venezuela e do Peru, onde até hoje
se vêem líderes populistas subindo ao poder.
O comandante Hugo Chávez, aliás, se considera
uma reencarnação de Simón Bolívar.
No Brasil, acho difícil que isso volte a acontecer.
O Brasil hoje me parece uma democracia consolidada, e acho
que as instituições estão vacinadas
contra alguém que queira dar algum tipo de golpe.
O impeachment de Fernando Collor, realizado sem traumas,
parece-me uma grande prova de maturidade da democracia brasileira.
Fernando Henrique pode ser criticado por muitas coisas,
mas ele não é um populista, e teria horror
de ser visto como tal.
Veja Por falar em democracia, existe nos Estados
Unidos alguma expectativa em relação às
eleições brasileiras de 2002? Na pesquisa
que vocês fizeram esse assunto foi contemplado?
Maxwell
Não. Acho que hoje a maior preocupação
é com a economia do país, com os rumos que
ela irá tomar e com seu êxito fundamental
não só para o futuro imediato do Brasil, mas
também para toda a América do Sul. A política
brasileira é muito complicada, é um universo
que nós estrangeiros consideramos impenetrável.
Mas o assunto pode entrar na pauta de discussões,
por exemplo, se o Brasil tiver um candidato da esquerda
xiita, e não da esquerda moderna.
Veja Luís Inácio Lula da Silva,
o provável candidato da esquerda brasileira, é
a seu ver "moderno" ou "xiita"?
Maxwell
Acho que fica a meio caminho entre as duas posições.
Mas acho que sua candidatura não representaria um
problema para os americanos. Ele já foi várias
vezes aos Estados Unidos, conhece muitas lideranças
americanas, dentro e fora do meio sindical, de forma que
dificilmente adotaria uma política preconceituosa
em relação aos Estados Unidos.
Veja Os brasileiros têm resistência
ao apoio americano para o combate ao narcotráfico
na Colômbia porque acham que uma guerra civil poderia
fazer com que guerrilheiros e traficantes cruzassem a fronteira.
Seria mais um impasse na relação entre Brasil
e Estados Unidos?
Maxwell
A
desconfiança também existe entre muitos estrangeiros.
Eu sou um exemplo. Não acho, no entanto, que a Colômbia
vá virar um novo Vietnã. Primeiro, porque
os governos republicanos, paradoxalmente, são menos
intervencionistas que os democratas. O general Colin Powell,
ao que parece, não tem a mínima vontade de
comandar uma guerra ali. Segundo, porque os próprios
guerrilheiros colombianos não querem confronto com
os Estados Unidos, pelo menos neste momento. Há muitos
americanos hoje na Colômbia e, se eles quisessem arranjar
confusão, já teriam seqüestrado algum.
Isso geraria uma crise e seria um problemaço para
o governo Bush. Independentemente da questão colombiana,
acho que o Brasil deve ser, sim, um aliado dos Estados Unidos
no combate às drogas. É um desses problemas
mundiais, no sentido de os cartéis do tráfico
serem internacionais, e várias nações
precisam unir-se para combatê-los.
Veja O senhor acha que o Brasil continua sendo
o país do futuro, como escreveu o romancista austríaco
Stefan Zweig?
Maxwell
O
Brasil não é mais o país do futuro
pela simples e boa razão de que o futuro já
chegou. O Brasil já está aí, já
é a terceira maior democracia do mundo, já
é líder de um bloco comercial, e o que queremos
com nosso documento é justamente enfatizar aos Estados
Unidos que é impossível pensar em política
externa ignorando o Brasil. Agora, é preciso que
o Brasil também se conscientize dessa realidade,
assuma sua posição, faça suas reivindicações
de forma objetiva e se abra para negociar de igual para
igual com os outros.