O affaire Dreyfus ontem e hoje

Luiz Felipe de Alencastro

Ilustração: Luiza Ruberti

O centenário do J'Accuse, de Emile Zola, está sendo celebrado na França. A exemplo de jornais e revistas de outros países, a imprensa brasileira também relembrou o evento. Oficial judeu do Exército francês, fraudulosamente acusado de espionagem por tribunais militares anti-semitas, o capitão Dreyfus definhava no cárcere da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa. Desde 1894, data de sua condenação, espoucavam denúncias contra o julgamento iníquo nos jornais europeus e americanos.

Um dos primeiros textos em favor do capitão publicados nessa época fora da França terá sido, aliás, um artigo de autoria de Rui Barbosa. Contudo, foi em janeiro de 1898, quando a causa parecia perdida, que o escritor Emile Zola, numa atitude corajosa e arriscada, redigiu em um jornal parisiense um artigo brilhante, estrondoso o J'Accuse , que virou o jogo e desembocou na absolvição de Dreyfus. Marco na história da imprensa mundial e revelador do novo papel do intelectual na sociedade, o J'Accuse merece ser comemorado. Mas é preciso ir também mais longe e medir o acontecimento com o metro de nossa contemporaneidade. De que forma um fato dessa natureza poderia ganhar corpo no Brasil de hoje? O impacto da denúncia de uma grande injustiça seria maior nos jornais ou na televisão? Tudo indica que um documento desse porte tomaria a forma de um texto estampado em revista ou jornal. Nossa televisão, apesar da propalada superioridade de seus meios e do indiscutível alcance de sua mensagem, ainda peca por excesso de conformismo. Além do mais, nenhuma reportagem de TV do mundo conseguirá jamais alcançar o impacto envolvente de um grande texto político publicado num jornal.

Outro ponto a ser salientado, e comparado, é o destaque conquistado na França por um intelectual independente como Zola. Não está ainda bem assente no Brasil a posição do pensador desassombrado na sua autonomia, do escritor que se interessa pela política, intervém nos assuntos públicos sem ser político nem se armar em homem de partido ou doutrinário de capelinhas. Tal tipo de intelectual, o intelectual solitário uma espécie de anta , permanece tão desadaptado a nossas cidades agigantadas quanto aquele bicho a nossas florestas diminuídas. Existe, e é bem acolhido, o gênero de especialista sem convicções que os políticos tradicionais costumavam chamar de "técnico". Ou ainda o intelectual capivara. Indivíduo seguro da rotundidade regular de seu corpo e da cumplicidade de sua manada. Mas o intelectual do gênero anta . animal mal-acabado, com meia tromba, hesitante sobre o rumo terrestre ou aquático das coisas do país transita com dificuldade em nosso território.

Há um derradeiro aspecto da comemoração desse centenário que tem a ver com o presente nacional. Há um século, Dreyfus pôde ser inocentado e a Justiça prevaleceu porque o alto comando militar francês abandonou o corporativismo castrense e se inclinou à legalidade republicana. No quadro do mesmo processo histórico de institucionalização das relações entre o poder civil e o poder militar, característico das democracias modernas, uma medida fundamental para a estabilidade política brasileira veio na semana passada a público. Anunciou-se em Brasília a criação de um Ministério da Defesa eventualmente confiado a um civil. O novo órgão absorverá os ministérios do Exército, da Marinha, da Aeronáutica e do Estado-Maior das Forças Armadas. Cumpre notar que, à parte certa resistência da Marinha, os oficiais superiores das Forças Armadas apoiaram o projeto do Ministério da Defesa. Quem ficou desta vez na rabeira foram as universidades e os partidos políticos, sobretudo aqueles mais comprometidos com a democratização do país, que negligenciaram, durante décadas, a formação de especialistas civis em assuntos militares.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador




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