Um caso de Estado

Confissões gravadas de sexo na Casa Branca
põem Clinton sob suspeita de obstrução
da ação da Justiça e risco de impeachment

Eurípedes Alcântara, de Nova York

Nem o pior inimigo dos Estados Unidos poderia tramar uma armadilha mais destrutiva para o presidente Bill Clinton. No final da sua semana mais tumultuada desde que chegou à Presidência, Clinton não conseguia explicar a uma opinião pública atônita como existem dezessete fitas gravadas nas quais uma ex-funcionária da Casa Branca, Monica Lewinsky, de 24 anos, fala longamente sobre um caso amoroso que teve com o presidente. Num clima de furor da imprensa que não se via desde os momentos que precederam a renúncia de Richard Nixon, há mais de vinte anos, Clinton gaguejou, pigarreou, mordeu os lábios, piscou nervosamente diante das câmaras como um ator iniciante. Não convenceu. A nova mulher na vida do presidente americano, já bastante enrolado na área onde suas pulsões sexuais ganham desdobramentos políticos, não representa apenas mais um escândalo de adultério. É um caso, literalmente, de Estado, agora investigado por um promotor a partir da presunção de que pode encerrar delitos gravíssimos. Suspeita-se que Clinton mentiu sobre o suposto romance num depoimento prestado sob juramento e tentou obstruir o trabalho da Justiça encorajando Monica a mentir também, para protegê-lo.

Perjúrio e obstrução da Justiça são crimes sérios nos Estados Unidos. Nixon caiu em 1974 por essas mesmas razões legais. A palavra impeachment queimou nos lábios dos adversários e, espantosamente, também na boca dos amigos do presidente. "Se as acusações forem verdadeiras, elas podem dar início a um processo de impedimento legal do presidente", reconheceu George Stephanopoulos, um dos mais leais buldogues de Clinton, a quem, como assessor, ajudou a eleger duas vezes. Em cinco anos de Presidência, Bill Clinton safou-se das maiores orquestrações já armadas contra um presidente americano neste século. Um a um, ele foi derrubando esses ataques ou, quando não podia, minimizando as acusações, falsas ou não suficientemente comprovadas. Antes de estourar o novo escândalo político-sexual, Clinton batia recordes de aprovação nas pesquisas de opinião. Apesar das amantes, dos ricos e sinistros contribuintes de campanha, da vulgarização da Casa Branca, transformada num hotel para os doadores generosos, o presidente tinha na economia sólida um pára-raios aparentemente intransponível. Desta vez, é diferente. Washington está imersa na maior crise política desde Watergate, o escândalo que levou Nixon a renunciar.

Caça às mulheres As palavras que podem incriminar Clinton foram gravadas secretamente em dezessete fitas cassete por Linda Tripp, outra ex-funcionária da Casa Branca, em conversas com Monica. Caso o que ela diz nas fitas seja comprovado, o presidente dificilmente escapará de um processo de demolição política em que a rota do impeachment precisará ser considerada. O que dá uma dimensão única à crise não é o fato de o presidente, no exercício do cargo, ter tido um romance extraconjugal com uma estagiária da Casa Branca, recém-saída da faculdade tinha 21 anos quando o namoro supostamente começou, em 1995. As questões mais sérias são a mentira à Justiça e a suspeita forte de que Clinton acionou o amigo de todas horas, o advogado Vernon Jordan, para incentivar e ensinar Monica como enganar um juiz ( veja os principais personagens).

O episódio da semana passada se embaralha com outras confusões jurídicas nas quais o presidente está metido, mas é importante reconstituir a seqüência dos fatos. No último dia 17, Clinton prestou um depoimento inédito na história política americana. Pela primeira vez, um presidente foi interrogado como réu. Clinton estava diante dos advogados de Paula Jones, a hoje famosa morena de Arkansas que faz uma acusação pesada contra o presidente. Diz Paula Jones que, quando governador de Arkansas, há sete anos, Clinton a convocou a um quarto de hotel e lhe pediu favores sexuais, assim sem mais nem menos. Com base nessa acusação, Paula Jones está processando Clinton para receber uma indenização e obrigar o presidente a pedir desculpas publicamente. Na tentativa de provar que Clinton é um conquistador incorrigível, os advogados de Paula saíram à caça de todas as mulheres que, real ou supostamente, tiveram envolvimento com o presidente. Em segredo de Justiça, colocaram em pauta o caso Monica Lewinsky, até então desconhecido da opinião pública.

Pelo que foi divulgado até agora, sabe-se que Clinton admitiu apenas um caso antigo, desmentido por ele na época, com a ex-cantora de boate Gennifer Flowers. Sobre Monica, a estagiária promovida a funcionária da Casa Branca, negou qualquer relacionamento sexual. Este pode ter sido um largo passo rumo ao abismo dado pelo presidente. Em depoimento prestado no mesmo processo, Monica também nega. Nas conversas gravadas pela amiga Linda Tripp, porém, ela fala repetidamente, em detalhes, sobre o romance.

Alma de puritano Nada se provou de modo definitivo ainda, mas a opinião pública já farejou lama. Pela primeira vez num instante de crise e de desafio à credibilidade do governo Clinton, 54% dos americanos, segundo pesquisa CNN/Gallup, acham que o presidente está mentindo. Onde antes só havia boatos, suspeitas e maledicência, agora existem fitas, documentos escritos, testemunhas de carne e osso e um promotor, Kenneth Starr, com faro de caçador, alma de puritano e disposição quase religiosa de fazer uma faxina na Casa Branca. A história explodiu diante de um país estarrecido e de um presidente com ar perigosamente acuado ou, pior ainda, passando a imagem de ter sido ensaiado por seus advogados. "O senhor manteve relações sexuais com essa jovem?", perguntou Jim Lehrer, que comanda, no canal governamental PBS, o mais respeitado programa político da televisão americana. "Não há relacionamento sexual", respondeu Clinton, usando de modo evasivo e suspeito o verbo no tempo presente. Quando Lehrer perguntou ao presidente se ele, ou alguém a pedido dele, tentou convencer Monica a mentir em juízo para protegê-lo, Clinton escondeu-se numa resposta ensaiada: "Não pedi a ninguém para falar nada que não fosse verdade". Ficou no ar a forte impressão de que o presidente tinha algo a esconder. Cada palavra dos assessores era medida e pesada pelo advogado Robert Bennett antes de ser pronunciada.

A capacidade de comunicação de Clinton, um político consumado, chegou a falhar. A certa altura, entre uma reunião na Casa Branca com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e a iminente visita do líder palestino Yasser Arafat, ele desabafou. "Preciso controlar meus impulsos naturais e voltar ao trabalho. Há muita coisa a ser feita", disse o presidente, referindo-se, obviamente, à raiva que sentia de seus acusadores. Não houve um comentarista que não concordasse que o presidente precisa mesmo "controlar seus impulsos", mas não necessariamente a raiva.

Caso de polícia Num outro tempo, num outro país ou em circunstâncias que não envolvessem a suspeita de delitos sérios, a discussão sobre os impulsos biológicos do presidente seria um problema para ser resolvido entre ele e sua mulher, Hillary. Clinton mantém um casamento de conveniência política com Hillary e mal consegue esconder o fraco por sucessivos rabos-de-saia. Em particular, a primeira-dama pode subir pelas paredes, possivelmente pela capacidade que o marido tem de se envolver com as mulheres erradas, mas em público segura a fachada. "Tenho certeza absoluta de que as acusações são falsas", disse Hillary na semana passada, atribuindo tudo a maquinações de inimigos políticos. No campo sexual, a Casa Branca de Clinton certamente é mais afogueada que a dos republicanos Richard Nixon ou George Bush, mas é menos picante que a de John Kennedy, o mais priápico dos presidentes americanos.

Kennedy contava com a cumplicidade da imprensa, para quem a vida particular do presidente não podia ser devassada. Essa atitude até hoje é cultivada em muitos países. A França é um exemplo. O presidente François Mitterrand, que morreu há dois anos, teve vários e duradouros casos fora do casamento. Os jornais sabiam de tudo e nunca revelaram a identidade das amantes. A mais conhecida delas só foi mostrada publicamente no enterro de Mitterrand, ao lado da filha que teve com ele e da mulher oficial, Danielle. Nos Estados Unidos, hoje, isso seria impensável. O país vive uma época peculiar em que o moralismo protestante se somou a uma vertente do movimento feminista para definir cada vez mais os limites do comportamento considerado adequado no relacionamento entre os sexos. No ambiente de trabalho, isso vem criando situações de desconfiança e delação sempre que entra em cena algum tipo de avanço romântico indesejado pela parte feminina. As relações interpessoais são muito tensas, complexas e mediadas por regulamentos e leis que inibem as aproximações. Um chefe cinqüentão, casado, namorando a estagiária é uma ocorrência socialmente constrangedora nos Estados Unidos, mesmo que ambos sejam pessoas anônimas.

Como o romance de Bill e Monica se teria passado na Casa Branca, logo a notícia foi catalisada pela imprensa americana, ultracompetitiva, que, antes de ser pró-liberal ou pró-conservadora, é mais que tudo, profunda e acriticamente, pró-escândalo. "A televisão americana parece ter reencontrado o sentido da vida", desabafou Michael McCurry, o frio e eficiente assessor de imprensa de Clinton, depois de enfrentar as feras. Bom diagnóstico. Com a economia reluzindo sem inflação e desemprego, o crime em baixa e nenhum inimigo externo capaz de afrontar a potência americana, Clinton se preparava para entrar para a História como o administrador de uma época dourada, de prosperidade e paz. Até seus esforços de valorizar o governo, sem gastança excessiva e com sobras no orçamento, estavam dando certo. A imprensa e especialmente as redes de televisão americanas se desmaterializam num ambiente de calmaria. O furacão Monica as trouxe de volta ao mundo dos vivos.

Na sexta-feira, o clima de crise pairava sobre Washington de maneira particularmente agourenta. Dezenas de intimações foram disparadas para a Casa Branca com a precisão de mísseis guiados a laser. Vernon Jordan, o primeiro-amigo, Betty Currie, a fiel secretária (era seu nome que Monica dava, depois de ter saído da Casa Branca, nas visitas que fazia à sede da Presidência), o chefe do serviço secreto e mais três assessores diretos do presidente terão de depor em juízo. Jordan, já enroscado em antigas transações de Clinton, negou tudo: Monica Lewinsky lhe garantiu nunca ter tido um caso com o presidente e ele jamais lhe deu conselhos a respeito de como mentir no depoimento do processo de Paula Jones. O que fez, sim, foi tentar ajudar uma jovem funcionária a conseguir outro emprego. Que emprego? Bem, primeiro ele arrumou uma entrevista da ex-estagiária, que começou atendendo telefone e distribuindo correspondência, com ninguém menos que o embaixador dos Estados Unidos na ONU, Bill Richardson, o homem destacado pelo governo para missões externas mais complicadas. Não deu certo, mas o bondoso Jordan persistiu e acabou por conseguir colocá-la na Revlon, uma das grandes empresas onde o lobista e amigo do presidente tem participação no conselho administrativo.

Essa presteza em obter uma colocação para uma antiga namorada é a suspeita menos problemática. Há, entre os indícios que vêm sendo reunidos, fitas e documentos muito mais letais. Essas provas foram parar nas mãos do promotor especial Kenneth Starr, que conseguiu das altas instâncias da Justiça americana poderes para reunir em sua área de atuação quase tudo que diga respeito a acusações contra o presidente. Clinton acusa Starr de agir politicamente. Ele insiste que esclarecer a natureza do caráter do presidente e de seus amigos é crucial para tocar sua investigação inicial, o chamado caso Whitewater, nome genérico de falcatruas imobiliárias e financeiras em que Bill e Hillary Clinton se envolveram em Arkansas há mais de dez anos. "Persigo a verdade, não o presidente", afirmou Starr na semana passada.

Sexo e gravações Nomear um promotor especial é uma maneira de investigar o presidente, teoricamente, longe dos venenos e intemperanças das disputas partidárias. Seu papel é tradicional na democracia americana. Desde que se conhece como presidente, Clinton tem um promotor especial em seu encalço. Ronald Reagan e George Bush também os tiveram. O atual, Starr, renasceu com o caso Monica Lewinsky. Ele andava apagado, depois de ter consumido quatro anos de trabalho e pelo menos 30 milhões de dólares de dinheiro público sem ter conseguido enquadrar o presidente ou Hillary em qualquer artigo do Código Penal. "Starr descobriu que falar de sexo, supostas mentiras e gravações atrai mais atenção do que explicar transações imobiliárias", acusa James Carville, amigo de Clinton. É verdade. Pouco a pouco, o promotor especial foi lançando seu poder investigativo para o flanco mulherengo do presidente. Ele conseguiu as fitas com as confissões de Monica como subproduto de outro caso envolvendo mulheres, o presidente e a Casa Branca. Linda Tripp, a funcionária que gravou as conversas com Monica, produziu as fitas tentando reunir provas da denúncia que havia feito, em agosto passado, contando uma investida sexual de Clinton sobre outra funcionária da Casa Branca, Kathleen Willey. Tripp declarou que viu Kathleen saindo do gabinete de Clinton, sorridente, com a blusa para fora da saia e o rosto ainda manchado de batom. Na tentativa de minimizar o episódio, Robert Bennett, o advogado de Clinton, insinuou que Linda era mentirosa.

Foi uma grande bobagem. Além de ter testemunhado os resultados da investida de Clinton sobre Kathleen, Linda tinha acesso a uma fonte muito mais explosiva: era amiga e confidente de Monica. As duas trabalhavam juntas no Pentágono, para onde haviam sido transferidas da Casa Branca. Linda começou a gravar as conversas telefônicas que tinha com a grande amiga Monica. As fitas, sempre elas Nixon também se enrolou em suas próprias gravações , são demolidoras. Não apenas pela revelação de detalhes do romance mas, principalmente, pelo que mostram das tentativas, ilegais, de encobri-lo. São quase vinte horas de confissões íntimas entre duas mulheres falando das delícias e amarguras de um amor clandestino.

Monica Lewinsky reconstitui o caso com o presidente. Ela havia acabado de sair da faculdade no Oregon quando conseguiu o estágio na Casa Branca. Detalhe revelador: quem ajudou foi um amigo rico da mãe dela, Walter Kaye, que graças a uma contribuição de 347.000 dólares ao Partido Democrata tinha acesso à Casa Branca. O avanço, nesse caso, parece ter sido de Monica. Ela conta que numa festa usou um vestido "provocante" e "trocou olhares" com o presidente. A se confiar no que diz nas fitas, começou assim o romance que durou um ano e meio, com telefonemas noturnos e encontros no final do expediente numa sala reservada, ao lado do Salão Oval, o venerado gabinete dos presidentes americanos. Monica era vista à noite nos aposentos privados do casal Clinton. Existem inúmeros registros de presentes e flores enviados por ela ao presidente. E dele para ela, incluindo um vestido. Num dos bilhetes, Monica chama Clinton pelo apelido carinhoso de "querido schmucko", uma expressão comum entre os judeus nova-iorquinos que pode ser traduzida por "tolinho".

Almoço grampeado O que mais interessa à Justiça, no entanto, são as conversas sobre a operação de acobertamento do caso conduzida, segundo o que Monica conta a Linda, por Vernon Jordan, o primeiro-amigo. Nessas horas, Monica se refere ao presidente como "ele" ou "o canalha". Ela tem medo de ir para a cadeia porque, ao contrário do que diz nas suas conversas com a amiga, assinou um depoimento oficial garantindo que nunca teve nada com Clinton. Confusa, discute com Linda se deve continuar mentindo ou abrir tudo. Também sonda a amiga sobre a possibilidade de que ela também preste falso testemunho e aí entra o documento misterioso, com instruções sobre como Linda deveria mentir em juízo. Foi nesse ponto que Linda levou o caso ao promotor Kenneth Starr. O promotor deve ter perdido o fôlego com o alcance da denúncia. Com ajuda dela, agentes do FBI a serviço de Starr grampearam eles próprios uma conversa entre as duas mulheres. Num almoço no restaurante do elegante Ritz Carlton da capital americana, dois agentes aproximaram-se da mesa onde ambas se preparavam para comer e chamaram Monica para um conversa. Ela saiu dali certa de que estava numa fria.

Nas conversas com Linda, Monica mostra como torcia desesperadamente para que Clinton fizesse um acordo com os advogados de Paula Jones e pusesse fim ao processo. Esse passo tornaria seu falso depoimento um documento desnecessário, esquecido. Essa é a única passagem conhecida das fitas em que Monica Lewinsky parece desesperada. "Ele não vai fazer o acordo", diz Monica. "Ele se recusa." Em outro trecho, diz a Linda que não conseguiria contar a Clinton que já havia revelado o caso deles para muita gente. "Se eu fizer isso, vou simplesmente acabar me suicidando." Em diversas passagens da fita, Monica dá a entender que se encontrou com Vernon Jordan. Em nenhum momento, porém, ela diz explicitamente que Jordan lhe pediu para mentir. Na sexta-feira, amigos de Clinton sopravam aos jornalistas a idéia de que Monica Lewinsky pode simplesmente ser uma desequilibrada, uma mitômana, que inventou tudo, confundindo talvez um flerte banal do presidente com um envolvimento mais profundo. Todas as hipóteses devem ser consideradas. O problema de Clinton é como a história se encaixa à perfeição em sua biografia amorosa e a disposição de um promotor em investigar as suspeitas tintim por tintim. "Só resta agora ao presidente lutar para salvar sua Presidência", diz o historiador Nathan Miller. "A herança doutrinária, ética e política que ele deixará às gerações futuras já se perdeu." Autor de um livro curioso, Os Dez Piores Presidentes da América, Miller diz que a opinião pública acaba registrando apenas uma única, solitária característica de cada presidente. Harry Truman foi guerreiro, Dwight Eisenhower, competente. Kennedy, carismático, e Lyndon Johnson, trabalhador. Nixon foi escroque. William Jefferson Clinton, o 42º presidente dos Estados Unidos, podia, na semana passada, escolher entre mulherengo e mentiroso.

Os principais personagens

Paula Jones, ex-funcionária pública, está processando o presidente Bill Clinton por assédio sexual, na época em que era governador de Arkansas. Para reforçar a acusação, seus advogados começaram a procurar mulheres que tivessem sido paqueradas por Clinton.

Funcionária da Casa Branca e depois do Pentágono, Linda Tripp contou para a revista Newsweek que viu uma colega, Kathleen Willey, sair toda desalinhada do gabinete do presidente. Kathleen não confirmou e o advogado de Clinton chamou-a de mentirosa.

Zangada, Linda fez amizade com outra colega, Monica Lewinsky, que lhe confidenciou detalhes de um suposto caso com o presidente. Linda gravou longas conversas que teve por telefone com Monica. Ela falava do romance e de como fora instruída a mentir em depoimento no caso Paula Jones.

Advogado e amigo de Clinton, Vernon Jordan é mencionado indiretamente nas gravações como o homem que induzia Monica a prestar falso testemunho. Foi ele quem lhe conseguiu emprego numa grande companhia, depois que Monica deixou o cargo no governo.

O promotor especial Kenneth Starr já investigava negócios financeiros suspeitos do casal Clinton. Interessou-se pelas aparentes mentiras relacionadas à vida sexual do presidente. Foi procurado por Linda Tripp, com a história de Monica, e detonou a investigação explosiva.


Furo com velocidade eletrônica

A página de Matt Drudge na rede e o repórter Michael Isikoff, da Newsweek: segredos divididos com colegas

No jargão jornalístico, "furo" significa uma notícia inédita e exclusiva. "Barriga" é ser "furado" pela concorrência. De posse de um furo capaz de abalar os alicerces da República, a revista americana Newsweek levou uma barriga de proporções históricas, tanto pelas dimensões quanto pelo modo como ocorreu. O primeiro a noticiar o caso Bill Clinton-Monica Lewinsky foi Matt Drudge, 30 anos, titular de uma coluna de fofocas na Internet. Na noite de sábado 17, ele pôs na rede a informação de que a Newsweek havia acabado de tomar a decisão de adiar a publicação de uma instigante reportagem sobre o assunto, até então jamais mencionado pela mídia. Drudge dava detalhes: a reportagem continuava inédita, embora seu autor, Michael Isikoff, tivesse levado à redação trechos de fitas nas quais Monica falava extensamente sobre seu caso com o presidente. Uma vez lançado na Internet, o escândalo não saiu mais de lá todos os outros meios de comunicação passaram a disputar uma corrida através da rede. O primeiro órgão da grande imprensa a sair com uma reportagem que enfrentava o assunto de frente, no fim da tarde de terça-feira, foi o Washington Post, jornal da mesma empresa que publica a Newsweek. A notícia constava em sua página eletrônica, o que lhe deu uma rapidez vertiginosa.

Na tarde do dia seguinte, também via Internet, finalmente a Newsweek colocou uma versão condensada da reportagem de Isikoff. Os detalhes apurados pelo repórter, muito bem embasados, alimentaram um frenesi jornalístico de intensidade comparável à de Watergate, o escândalo revelado pelo Washington Post que derrubou o presidente Richard Nixon nos anos 70. Os editores da Newsweek apareceram na TV, mas para explicar o vexame. A decisão foi tomada a pedido do promotor especial Kenneth Starr, para não atrapalhar as investigações. Isikoff, que havia mais de um ano investigava o romance do presidente com a jovem estagiária, lutou em vão pela reportagem, com o argumento de que não era papel da revista ajudar Starr a fazer seu trabalho. Deve ter tido a sensação de rever um filme conhecido. Repórter do Washington Post em 1994, ele trombou com os editores quando trouxe a denúncia de assédio sexual feita por Paula Jones contra Clinton. O Post publicou a reportagem, mas Isikoff foi suspenso duas semanas por gritar com os chefes.

Ponto fraco Há poucos segredos no mundinho jornalístico de Washington, e a decisão de segurar a reportagem-bomba vazou da redação da Newsweek para Drudge. Isikoff já tinha sido pirateado por Drudge em outra encrenca de natureza sexual do presidente. Enquanto a revista pesava a publicação de informações de que Clinton avançara o sinal com outra assessora, Kathleen Willey, na Casa Branca, Drudge pôs a história na rede. A agilidade do Drudge Report é também seu ponto fraco. Ao contrário da Newsweek, que se preocupa em verificar a veracidade das informações que publica, Drudge divulga os boatos que lhe chegam por meio dos mais de 1.200 e-mails que diz receber diariamente e dos jornalistas de Washington, "que costumam dividir segredos com os colegas". É uma estratégia de alto risco. No ano passado, para escapar de um processo, ele precisou retratar-se e pedir desculpas a um assessor de Clinton, Sidney Blumenthal, que acusara injustamente de bater na esposa. A história de Clinton teria sido publicada, cedo ou tarde, mas a rede deu-lhe velocidade eletrônica.




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