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Edição 2097

28 de janeiro de 2009
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Roberto Pompeu de Toledo
A reinvenção do rei

"O presidente dos Estados Unidos, à semelhança dos antigos monarcas, apresenta-se como herdeiro de uma história e continuador de uma linhagem"

O presidente dos Estados Unidos é o mais bem-sucedido sucedâneo do rei já concebido pela engenharia política. Eleger um chefe é o passo natural dado pelos primitivos agrupamentos humanos, tão logo se elevam a um grau mínimo de organização. Fazer do chefe um rei, ungindo-o com a mística de um ser especial, por cujas veias corre sangue de cor diferente, e que goza de conexão privilegiada com o divino, é o passo seguinte. Muito mais adiante, quando o cérebro do bicho-homem passa a antepor a razão à superstição e o direito ao arbítrio, a figura do rei entra em obsolescência. Já não se acredita em seres especiais. Mas como, sem um personagem central, investido de suprema autoridade e confirmado pelo sagrado, evitar a anarquia e a dispersão? Os fundadores da nação americana, em resposta a esse temor, inventaram o presidencialismo e, no centro, puseram a figura do presidente. A cerimônia da semana passada em Washington foi a coroação de um rei sem coroa, eleito pelo voto do povo e com mandato fixo – mas de toda forma uma cerimônia de coroação, mais bonita e mais bafejada pela mística do que as cerimônias em muitos dos países que ainda cultuam um rei.

Entre a proclamação da independência, em 1776, e a promulgação da Constituição, em 1787, os EUA não existiram como unidade, mas como frouxa aliança entre as antigas treze colônias inglesas. Quando se chegou à conclusão de que mais valia criar um país único, e para tal instituiu-se um governo central, optou-se pela república, um sistema pedestre e democrático, em lugar da solene e autocrática monarquia, mas com concessões aos antigos costumes. Um comitê do Senado, temendo que a singela fórmula "presidente George Washington" diminuísse o prestígio do primeiro presidente da nação, concedeu-lhe o título de "Sua Alteza o Presidente dos Estados Unidos e Protetor dos Direitos dos Iguais".

Hoje o presidente dos EUA não é "sua alteza", mas, à semelhança dos reis, apresenta-se como herdeiro de uma história e continuador de uma linhagem. Foi isso, sobretudo – mais que o passeio a pé pela avenida, o juramento, a multidão, os desfiles militares ou os bailes –, que conferiu à cerimônia da semana passada uma mística que outros regimes presidencialistas, a começar pelos da América Latina, estão longe de poder apresentar. No cenário pontilhado pela Casa Branca e pelo Capitólio, pelo monumento a Washington e pelo memorial de Lincoln, mais de 200 anos de história contemplavam o novo presidente. Desde o primeiro minuto no cargo, envolvia-o um entorno que, como outrora aos reis, em Versalhes ou em Windsor, intimava à integração e ao respeito.

Barack Obama é o 44º presidente dos EUA. Não se inscreve numa estirpe como a das monarquias, tecida pelo sangue, mas numa linhagem que, resultante de uma construção institucional respeitada sem interrupção, proporciona uma sucessão impecavelmente regular e previsível. Em outros países a linhagem se anula pelas guerras, golpes e revoluções. No Brasil, tantas são as dúvidas (Ranieri Mazzilli, que assumiu interinamente duas vezes, conta? Juntas militares valem por um ou por três?) que Lula pode ser considerado qualquer coisa entre o 31º presidente e o quadragésimo e pico.

E no entanto, numa cerimônia tão embebida de passado como a da semana passada, dá-se um salto para o futuro. Há uma continuidade entre o primeiro presidente e o 44º, mas numa linha que vai de um presidente proprietário de escravos a um presidente negro. Eis o segredo dos EUA. A estabilidade institucional é o trampolim do qual se dá o salto para a renovação. Nós, latino-americanos, babamos de inveja.

P.S.: E por falar em renovação… O discurso de posse, menos literário do que se poderia esperar de Obama, mas elegante e preciso, primou por duas espetaculares sim, espetaculares novidades. A primeira foram acenos de paz que contemplaram desde "o mundo muçulmano" (objeto preferencial da "guerra ao terror" de George W. Bush) até os "antigos inimigos" (Coreia do Norte? Irã? o "eixo do mal" de Bush?) com quem Obama espera trabalhar contra a proliferação das armas nucleares. A segunda foi a definição dos EUA como um país de cristãos, muçulmanos, judeus, hindus "e não crentes". Eis os ateus contemplados, na pia América do Norte, num discurso presidencial! E ainda por cima na sequência do governo Bush, em que se rezava nas reuniões e em que políticas como a das células-tronco e a do ensino do evolucionismo eram contaminadas pelo fundamentalismo cristão.

 



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