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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Fazendo a diferença
"Se
nossos genes são mero acaso
da
variação genética, falar
em QI, mérito,
proeza atlética
e se achar merecedor de
100%
dos ganhos que esses atributos
nos
proporcionam
não faz mais muito sentido"
Ser
rico, famoso ou poderoso tem sido o objetivo da maioria das pessoas,
mas sempre falta algo. Recentemente, ouvi sobre uma nova postura
ética de sucesso, que vale a pena resumir aqui, porque na
época ninguém noticiou.
Numa reunião no World Economic Forum, em Davos, o local onde
o mundo empresarial se reúne uma vez por ano em janeiro,
um empresário que acabava de fazer um tremendo negócio
foi convidado numa das várias sessões a expor suas
idéias.
Primeiro perguntaram como ele se sentia, subitamente um bilionário.
Sem pestanejar um único minuto, ele afirmou que o dinheiro
não lhe pertencia, e que doaria toda sua fortuna a instituições
beneficentes.
"Sou
simplesmente fruto do acaso, tenho os genes certos e estou no momento
certo, no setor certo. É difícil falar em 'mérito'
numa situação dessas."
"Se
eu, o Bill Gates aqui presente, ou então o Warren Buffett,
tivéssemos nascido 2.000 anos atrás, nenhum de nós
teria tido o porte atlético necessário para se tornar
um general do Império Romano, posição de destaque
equivalente à nossa, na época. Teríamos sido
trucidados na primeira batalha."
Alguns seres humanos sempre estarão momentaneamente mais
adequados ao ambiente que os outros e receberão, portanto,
melhores salários, apesar do esforço dos demais.
A idéia da meritocracia, tão decantada pela direita
conservadora como justificativa para a sua riqueza, cai por terra
se levarmos em consideração a nova teoria de que somos
todos frutos do acaso genético das interpolações
do DNA de nossos pais.
Se nossos genes são mero acaso da variação
genética, falar em QI, mérito, proeza atlética
e se achar merecedor de 100% dos ganhos que esses atributos nos
proporcionam não faz mais muito sentido. O que há
de meritocrático em ter os genes certos?
Ninguém está sugerindo o outro extremo de salários
iguais para todos, porque toda sociedade precisa incentivar os que
se esforçam mais, os que trabalham melhor e especialmente
os que assumem riscos e têm a coragem de inovar.
Ilustração Ale Setti
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O que essa nova postura sugere delicadamente é uma maior
humildade e generosidade daqueles que ganham fortunas por ter uma
inteligência superior, um porte atlético avantajado
ou um talento excepcional. Por trás de toda "fortuna" existe
um elemento de sorte, muito maior do que os "afortunados" gostariam
de admitir.
Mas a frase que mais tocou a platéia estarrecida foi esta:
"Mesmo doando toda a minha fortuna", disse o empresário,
"continuará a existir uma enorme injustiça social
no mundo. Eu terei tido um privilégio que muitos não
terão. O privilégio de ter feito uma diferença
com o meu trabalho e minha vida."
Segundo essa visão, o mundo é dividido entre aqueles
que fizeram ou não uma diferença com sua vida, o dinheiro
não é o objetivo final. E existem inúmeras
maneiras de fazer uma diferença, desde inventar coisas, gerar
novos empregos, criar novos produtos, até ajudar os outros
com o dinheiro obtido.
Aproximadamente 55% dos empresários americanos não
pretendem legar sua fortuna aos filhos. Acham que estariam estragando
sua vida gerando playboys e um bando de infelizes. Percebem que
o divertido na vida é chegar lá, não estar
lá. Ser filho de empresário e receber de mão
beijada uma BMW, um Rolex e uma supermesada não é
o caminho mais curto para a felicidade. Muito pelo contrário,
é uma roubada.
Por isso, os ricos de lá criaram instituições
como a Fundação Rockfeller, a Fundação
Ford, a Fundação Kellogg, a Fundação
Hewlett. No Brasil, estamos muito longe de convencer os empresários
a fazer o mesmo, razão pela qual sua fortuna provavelmente
virará mais um imposto. O imposto sobre herança.
O segredo da felicidade, portanto, não é ganhar dinheiro,
que a maioria acabará perdendo de uma forma ou de outra.
O segredo é ter feito uma diferença.
Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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