Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Para São Paulo,
em seus 450 anos

Um pequeno rol das muitas
indignidades
que azedam a vida na
metrópole
e sugestões para coibi-las

São Paulo mereceria, nesta efeméride:

...que as faixas de pedestres dispusessem de dispositivo capaz de prover punição imediata a quem as desrespeitasse.

Quando localizada junto a um semáforo até que a faixa de pedestres é em regra respeitada. O mesmo não ocorre com as desenhadas em lugar onde não há semáforo. Estas são vitais para o pedestre. Ele não conta com o auxílio do sinal para atravessar a rua. E, no entanto, nesses casos, os motoristas paulistanos não têm a menor idéia de que, na presença de um pedestre, é preciso parar e dar-lhe precedência. A esperança que resta, para que isso ocorra, é a instalação de dispositivo eletrônico capaz de mandar o carro para os ares diante do desrespeito.

...que os senhores vereadores respeitassem o nobre nome de praça.

A praça é o mais distinto, amado e belo dos logradouros de uma cidade. Basta lembrar como elas marcam as cidades européias e as personificam. Veneza é a Praça de São Marcos, assim como Roma é a Praça de Espanha ou a Praça Navona. Londres é Trafalgar Square, Paris é a Praça da Concórdia ou a Praça Vendôme. São Paulo não chega a tais níveis, mas não deixa de ter suas praças históricas, algumas até bonitas. Tem a Praça da Sé, a da República. A Benedito Calixto, a do Pôr-do-Sol. Ao lado delas, no entanto, espalham-se pela cidade meros cruzamentos indignamente batizados de "praça". Os senhores vereadores, na sanha de homenagear certas personalidades, e na falta de logradouros nos quais lhes pespegar os nomes, acabam promovendo-os a "praças". Exemplos, entre muitos: "Praça Doutor Íris Meimberg", mero cruzamento das avenidas Marquês de São Vicente e Abraão Ribeiro; "Praça Domingos Delascio", cruzamento das ruas Honduras e Veneza; "Praça Reinaldo Porchat de Assis", cruzamento das ruas Pamplona e Estados Unidos.

...que os pontos de ônibus exibissem quadros indicando os ônibus que por ali passam e respectivos itinerários.

Pasme o forasteiro, mas os pontos de ônibus de São Paulo em regra não abrigam informação alguma nesse sentido. Conta-se com o poder divinatório do usuário.

...que, num golpe de mágica, as más idéias sobre circulação de trânsito revertessem automaticamente em favor das boas.

Está acontecendo agora mesmo. A prefeitura, no impulso de mostrar serviço em ano eleitoral, houve por bem cavar passagens subterrâneas sob as avenidas Rebouças e Cidade Jardim. A medida não servirá senão para deslocar o congestionamento para as pontes sobre o Rio Pinheiros ou, no sentido inverso, para o cruzamento com a Avenida Brasil. Finge-se ignorar que a única medida sadia, para melhorar a circulação, é desincentivar o uso do automóvel. E que, para esse objetivo, a rainha das soluções é a ampliação da rede de metrô. Ao governante a que ocorresse a idéia, a mera idéia, de cavar passagens subterrâneas, erguer vias elevadas e assemelhadas, a punição deveria ser multa, cujo montante, igual ao custo da obra imaginada, seria destinado a um fundo para obras do metrô.

...que as lojas Zapata fossem banidas da paisagem urbana.

Com várias filiais pela cidade, esse estabelecimento comercial distingue-se pela singularidade de cobrir os prédios onde se instala com enorme e horrendo letreiro exibindo seu nome. Outras lojas fazem o mesmo. A Zapata, que vende calçados e cujo nome, sugerindo trocadilho com sapato, dá idéia da inteligência e do bom gosto que a animam, entra aqui como símbolo da classe. É comum, quando o observador se põe a contemplar os prédios do centro da cidade de maior valor estético ou histórico, notar que os andares superiores ainda conservam as características arquitetônicas. Já quando desce o olhar até o térreo... Horror! O comerciante que o ocupa não teve escrúpulos em comprometer a fachada, por vezes até a destruindo, para nela pendurar o nome do estabelecimento. Configura-se nesses casos o duplo delito de desrespeito ao patrimônio arquitetônico da cidade e, com seus feios e berrantes letreiros, decisiva contribuição à poluição visual.

...que a sujassem menos.

Muitas vezes, o esporte é praticado por um(a) bem tratado(a) senhor(a), aboletado(a) num carro novo. Ele(a) estende o braço janela afora e lá se vai o papel, a embalagem, a garrafa plástica. São as mesmas pessoas que, em Orlando, Flórida (Orlando é o horizonte delas, em matéria de estrangeiro), se espantam: "Como as ruas são limpas!". Têm enorme dificuldade em estabelecer a relação entre causa (o próprio comportamento) e efeito (a sujeira da cidade). Sugestão: que se instituam tribunais revolucionários, com trabalhos assentados em ritos sumários, para a punição dos infratores.

P.S.: Outras cidades terão os mesmos problemas. Daí se esperar que esta página não tenha sido tão inútil para o leitor de outras plagas.

 
 
 
 
topo voltar