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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Para
São Paulo,
em seus 450 anos
Um
pequeno rol
das muitas
indignidades que azedam a vida na
metrópole e
sugestões para coibi-las
São
Paulo mereceria, nesta efeméride:
...que
as faixas de pedestres dispusessem de dispositivo capaz de prover
punição imediata a quem as desrespeitasse.
Quando localizada junto a um semáforo até que a faixa
de pedestres é em regra respeitada. O mesmo não ocorre
com as desenhadas em lugar onde não há semáforo.
Estas são vitais para o pedestre. Ele não conta com
o auxílio do sinal para atravessar a rua. E, no entanto,
nesses casos, os motoristas paulistanos não têm a menor
idéia de que, na presença de um pedestre, é
preciso parar e dar-lhe precedência. A esperança que
resta, para que isso ocorra, é a instalação
de dispositivo eletrônico capaz de mandar o carro para os
ares diante do desrespeito.
...que
os senhores vereadores respeitassem o nobre nome de praça.
A praça é o mais distinto, amado e belo dos logradouros
de uma cidade. Basta lembrar como elas marcam as cidades européias
e as personificam. Veneza é a Praça de São
Marcos, assim como Roma é a Praça de Espanha ou a
Praça Navona. Londres é Trafalgar Square, Paris é
a Praça da Concórdia ou a Praça Vendôme.
São Paulo não chega a tais níveis, mas não
deixa de ter suas praças históricas, algumas até
bonitas. Tem a Praça da Sé, a da República.
A Benedito Calixto, a do Pôr-do-Sol. Ao lado delas, no entanto,
espalham-se pela cidade meros cruzamentos indignamente batizados
de "praça". Os senhores vereadores, na sanha de homenagear
certas personalidades, e na falta de logradouros nos quais lhes
pespegar os nomes, acabam promovendo-os a "praças". Exemplos,
entre muitos: "Praça Doutor Íris Meimberg", mero cruzamento
das avenidas Marquês de São Vicente e Abraão
Ribeiro; "Praça Domingos Delascio", cruzamento das ruas Honduras
e Veneza; "Praça Reinaldo Porchat de Assis", cruzamento das
ruas Pamplona e Estados Unidos.
...que
os pontos de ônibus exibissem quadros indicando os ônibus
que por ali passam e respectivos itinerários.
Pasme o forasteiro, mas os pontos de ônibus de São
Paulo em regra não abrigam informação alguma
nesse sentido. Conta-se com o poder divinatório do usuário.
...que,
num golpe de mágica, as más idéias sobre circulação
de trânsito revertessem automaticamente em favor das boas.
Está acontecendo agora mesmo. A prefeitura, no impulso de
mostrar serviço em ano eleitoral, houve por bem cavar passagens
subterrâneas sob as avenidas Rebouças e Cidade Jardim.
A medida não servirá senão para deslocar o
congestionamento para as pontes sobre o Rio Pinheiros ou, no sentido
inverso, para o cruzamento com a Avenida Brasil. Finge-se ignorar
que a única medida sadia, para melhorar a circulação,
é desincentivar o uso do automóvel. E que, para esse
objetivo, a rainha das soluções é a ampliação
da rede de metrô. Ao governante a que ocorresse a idéia,
a mera idéia, de cavar passagens subterrâneas, erguer
vias elevadas e assemelhadas, a punição deveria ser
multa, cujo montante, igual ao custo da obra imaginada, seria destinado
a um fundo para obras do metrô.
...que
as lojas Zapata fossem banidas da paisagem urbana.
Com várias filiais pela cidade, esse estabelecimento comercial
distingue-se pela singularidade de cobrir os prédios onde
se instala com enorme e horrendo letreiro exibindo seu nome. Outras
lojas fazem o mesmo. A Zapata, que vende calçados e cujo
nome, sugerindo trocadilho com sapato, dá idéia da
inteligência e do bom gosto que a animam, entra aqui como
símbolo da classe. É comum, quando o observador se
põe a contemplar os prédios do centro da cidade de
maior valor estético ou histórico, notar que os andares
superiores ainda conservam as características arquitetônicas.
Já quando desce o olhar até o térreo... Horror!
O comerciante que o ocupa não teve escrúpulos em comprometer
a fachada, por vezes até a destruindo, para nela pendurar
o nome do estabelecimento. Configura-se nesses casos o duplo delito
de desrespeito ao patrimônio arquitetônico da cidade
e, com seus feios e berrantes letreiros, decisiva contribuição
à poluição visual.
...que
a sujassem menos.
Muitas vezes, o esporte é praticado por um(a) bem tratado(a)
senhor(a), aboletado(a) num carro novo. Ele(a) estende o braço
janela afora e lá se vai o papel, a embalagem, a garrafa
plástica. São as mesmas pessoas que, em Orlando, Flórida
(Orlando é o horizonte delas, em matéria de estrangeiro),
se espantam: "Como as ruas são limpas!". Têm enorme
dificuldade em estabelecer a relação entre causa (o
próprio comportamento) e efeito (a sujeira da cidade). Sugestão:
que se instituam tribunais revolucionários, com trabalhos
assentados em ritos sumários, para a punição
dos infratores.
P.S.:
Outras cidades terão os mesmos problemas. Daí se esperar
que esta página não tenha sido tão inútil
para o leitor de outras plagas.
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