|
|
Cinema
Todo
pano à frente
Mestre
dos Mares tem aventura, idéias e o
talento sempre fabuloso de Russell Crowe

Isabela Boscov
Fotos divulgação
 |
| Crowe,
como o capitão Jack Aubrey: um homem moderno em roupas
antiquadas |
O H.M.S.
Surprise é lento, não exatamente elegante, vai
carregado de homens e é pequeno demais para levar canhões
de longo alcance, mas o capitão Jack Aubrey o ama. Jack adora
conferir o cordame, sentir a vibração do timão
ou subir até o topo do mastro principal e olhar o horizonte.
Corpulento como o Surprise, brusco e sem paciência
para o raciocínio abstrato, Jack é, entretanto, dotado
de energia e otimismo inesgotáveis, além de um dom
instintivo para navegar e comandar. Da maneira como foi concebido
pelo escritor Patrick O'Brian numa série de vinte livros,
Jack Aubrey é uma força da natureza. Nada mais adequado,
portanto, que seja personificado por Russell Crowe, um ator que
é também ele uma força da natureza, em Mestre
dos Mares O Lado Mais Distante do Mundo (Master
and Commander: the Far Side of the World, Estados Unidos, 2003),
que estréia nesta sexta-feira no país. Capitão
da Marinha inglesa durante as guerras napoleônicas, na virada
do século XVIII para o XIX, Jack recebe como missão
localizar e capturar o navio francês Acheron, que é
mais veloz, mais bem armado e muito mais moderno do que o seu. O
Acheron, além disso, é uma espécie de
fantasma, que tem o hábito de surgir e abrir fogo contra
o Surprise quando menos se espera. Para Jack, porém,
caçá-lo é mais um esporte que uma tarefa. A
despeito da escassez de suprimentos, da inferioridade técnica
e dos protestos de seu amigo Stephen Maturin (Paul Bettany), naturalista
e cirurgião de bordo, o capitão persegue o Acheron
de oceano em oceano com um entusiasmo que raramente deixa de inflamar
sua tripulação.
Divulgação
 |
| O
Acheron e o Surprise se enfrentam: todos os detalhes,
das batalhas às cirurgias |
Não
é acaso que o Acheron quase nunca seja visto por inteiro
ou em detalhe. O australiano Peter Weir dirige Mestre dos Mares
como uma aventura que reconstitui com desvelo os empreendimentos
navais britânicos incluindo o quase impenetrável
vocabulário náutico, os compartimentos sufocantes
do navio, os currais e galinheiros instalados no convés,
as batalhas sangrentas e as cirurgias toscas que se seguem a elas,
as superstições dos marinheiros e a completa ausência
de mulheres em cena. Mas Weir vai bem além disso. O Acheron
está sempre à frente do Surprise, como uma
visão, porque ele é isso mesmo: um futuro que ainda
mal se pode divisar. O que interessa a Patrick O'Brian e a Peter
Weir é esse mundo à beira de uma transformação,
do romantismo para o racionalismo, da força humana para a
Revolução Industrial, do antiquado para o moderno.
E o microcosmo desse mundo é, evidentemente, o Surprise,
onde o romântico e o racional na pele de Jack e de
Stephen colidem e produzem reações inesperadas.
Abarcar
esse tipo de idéia numa superprodução de estúdio
é uma ambição tremenda, e o diretor acrescenta
a ela outro fator ainda: o registro de costumes. O que Jane Austen
fez pelos ritos sociais dos salões e mansões desse
período, O'Brian faz pelo universo dos tombadilhos. Aí
o elenco escolhido por Weir, entre atores na maioria desconhecidos,
se mostra altamente capaz. Do cozinheiro ranzinza interpretado por
David Threlfall a Blakeney (Max Pirkis), que aos 13 anos é
o oficial caçula do navio e enfrenta uma amputação
logo no começo da história, os desempenhos são
impecáveis não só do ponto de vista dramático
como também no rigor com os modos, o linguajar e o sotaque
desde sempre as grandes obsessões inglesas. Vários
passos adiante de todos, porém, está Russell Crowe.
Não há outro ator, hoje, que seja um fenômeno
comparável de economia, eficácia e carisma
qualidades que não têm preço num filme em que
boa parte da emoção está no controle que os
personagens exercem sobre seus sentimentos. Crowe é o oposto
de, por exemplo, Tom Cruise: não eleva a voz, mal começa
a esboçar uma expressão e já a apaga e é
tão seguro de seu talento que não vê necessidade
de chamar a atenção para si. Quanto mais generoso
ele é com seus companheiros de cena, mais brilha e
a cena final, um dueto de violino e violoncelo com Paul Bettany,
é uma evocação antológica do misto de
antagonismo, afinidade e camaradagem que os dois amigos compartilham.
Patrick
O'Brian, que morreu em 2000, aos 85 anos, tinha olhos e ouvidos
atilados para esse tipo de detalhe: o escritor era um personagem
de si mesmo, como mostra sua biografia. O nome tipicamente irlandês,
descobriu-se há alguns anos, não passava de um pseudônimo
para encobrir Richard Patrick Russ, inglês de ascendência
alemã que na juventude largou a mulher e os dois filhos
um deles à morte para ir morar com a condessa Maria
Tolstoy. Reinventado, O'Brian prestou, junto com a amante, serviços
à inteligência inglesa, traduziu numerosas obras do
francês várias das versões britânicas
de Simone de Beauvoir são dele , escreveu uma elogiada
biografia do pintor Pablo Picasso e alguns romances de história
naval. Já cinquentão, criou Jack Aubrey e Stephen
Maturin. Os vinte volumes protagonizados pela dupla (que começam
a ser lançados agora no Brasil, pela Record) são um
caso raro de casamento entre sucesso editorial e prestígio
literário. Não faltam ação e enredo
aos livros (uma queixa que alguns podem fazer do filme). Mas o que
os torna marcantes, assim como a Mestre dos Mares, é
o inebriamento com que O'Brian descobre e redescobre, a cada episódio,
que épocas e costumes podem ficar antiquados já
a curiosidade, a iniciativa e os anseios dos homens são os
mesmos, e a matéria-prima mais moderna de que a ficção
dispõe.
|