Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

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Fotografia
Cenas paulistanas

Uma publicação flagra as transformações
de São Paulo do século XIX aos dias de hoje


Marcelo Marthe



nter Flieg
Hans Gunter Flieg
O Vale do Anhangabaú, nos anos 20 (à esq.) e em 1950 (à dir.): os palacetes antigos foram demolidos ou espremidos entre arranha-céus

Galeria de fotos

Em 1862, quando o carioca Militão Augusto de Azevedo produziu as primeiras fotografias conhecidas de São Paulo, a cidade ainda era um povoado provinciano. A Praça da Sé, seu marco zero, tinha chão de terra batida e construções de taipa. A poucos quarteirões dela, a paisagem era bucólica, com roçados e várzeas. Vinte e cinco anos depois, Azevedo registrou os mesmos cenários, com o objetivo de fazer um estudo comparativo. Graças à riqueza gerada pelo café, São Paulo começava a sentir os efeitos do crescimento acelerado que faria dela a metrópole que é hoje. Prédios com mais de dois andares iam se tornando comuns e já havia até tráfego intenso – de tílburis e bondes – nas vias mais movimentadas. Editada pelo Instituto Moreira Salles, a publicação Cadernos de Fotografia Brasileira (492 páginas; 120 reais) apresenta, em seu número comemorativo do 450º aniversário da cidade, um acervo iconográfico que permite aprofundar esse tipo de comparação. Composta de mais de 400 imagens, a obra tem como ponto de partida as primeiras pinturas, gravuras e desenhos que retratam cenas paulistanas. Mas a maior parte do material é formada por fotografias que flagram as transformações ocorridas na arquitetura, no urbanismo e no modo de vida em São Paulo do século XIX aos dias atuais. O livro retrata a agitação popular em episódios como a Revolução de 1932 e revela curiosidades, como um registro raro de uma tourada na atual Praça da República, em 1902. Há, ao todo, trabalhos de 49 fotógrafos – de profissionais atuantes no século XIX, como o próprio Azevedo, até contemporâneos como o paulista Cristiano Mascaro.


Fotos Claude Lévi-Strauss; Edgar Egydio de Souza e Marcel Gautherot
Tourada na Praça da República (no alto, à esq.), rua central com tráfego de bondes e bois nos anos 30 (à esq.) e o Copan (à dir.): nostalgia de uma cidade mais cortês e humana

O livro alimenta a nostalgia de uma São Paulo mais cortês e humana, ao mesmo tempo que documenta o indisfarçável embrutecimento da paisagem à medida que se chega próximo dos dias atuais. Existe certa unanimidade a respeito das causas dessa degradação, conforme nota o arquiteto Carlos A.C. Lemos num ensaio na parte final da obra. Entre elas, a falta de políticas eficazes de ocupação do solo e de bons programas de transporte coletivo. Mas talvez se pudesse apontar ainda uma outra agravante: os projetos que visaram dotar a cidade de uma identidade arquitetônica não vingaram. O fracasso mais retumbante foi o dos arquitetos e urbanistas modernistas. Eles tiveram seu momento de glória nos anos 50 e 60, com a construção de obras como a sede do Museu de Arte de São Paulo, de Lina Bo Bardi, e o edifício Copan, de Oscar Niemeyer – este último, objeto de algumas fotografias do livro. Edifícios como o Masp ou o Copan têm, inegavelmente, identidade própria, o que não significa que sejam bonitos ou funcionais. Talvez por causa da indomável feiúra da metrópole, pode-se observar a tendência, entre os fotógrafos contemporâneos representados no livro, de buscar mais o enfoque poético que o documental. Profissionais como Romulo Fialdini e Cássio Vasconcellos revelam uma cidade que não é bela – mas sai bem na foto.

 
 
 
 
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