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Fotografia
Cenas
paulistanas
Uma
publicação flagra as transformações
de São Paulo do século XIX aos dias de hoje

Marcelo Marthe
nter Flieg
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Hans Gunter Flieg
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| O
Vale do Anhangabaú, nos anos 20 (à esq.) e
em 1950 (à dir.): os palacetes antigos foram demolidos
ou espremidos entre arranha-céus |
Em
1862, quando o carioca Militão Augusto de Azevedo produziu
as primeiras fotografias conhecidas de São Paulo, a cidade
ainda era um povoado provinciano. A Praça da Sé, seu
marco zero, tinha chão de terra batida e construções
de taipa. A poucos quarteirões dela, a paisagem era bucólica,
com roçados e várzeas. Vinte e cinco anos depois,
Azevedo registrou os mesmos cenários, com o objetivo de fazer
um estudo comparativo. Graças à riqueza gerada pelo
café, São Paulo começava a sentir os efeitos
do crescimento acelerado que faria dela a metrópole que é
hoje. Prédios com mais de dois andares iam se tornando comuns
e já havia até tráfego intenso de tílburis
e bondes nas vias mais movimentadas. Editada pelo Instituto
Moreira Salles, a publicação Cadernos de Fotografia
Brasileira (492 páginas; 120 reais) apresenta, em
seu número comemorativo do 450º aniversário da
cidade, um acervo iconográfico que permite aprofundar esse
tipo de comparação. Composta de mais de 400 imagens,
a obra tem como ponto de partida as primeiras pinturas, gravuras
e desenhos que retratam cenas paulistanas. Mas a maior parte do
material é formada por fotografias que flagram as transformações
ocorridas na arquitetura, no urbanismo e no modo de vida em São
Paulo do século XIX aos dias atuais. O livro retrata a agitação
popular em episódios como a Revolução de 1932
e revela curiosidades, como um registro raro de uma tourada na atual
Praça da República, em 1902. Há, ao todo, trabalhos
de 49 fotógrafos de profissionais atuantes no século
XIX, como o próprio Azevedo, até contemporâneos
como o paulista Cristiano Mascaro.
| Fotos Claude Lévi-Strauss;
Edgar Egydio de Souza e Marcel Gautherot |
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| Tourada
na Praça da República (no alto, à esq.),
rua central com tráfego de bondes e bois nos anos 30
(à esq.) e o Copan (à dir.): nostalgia
de uma cidade mais cortês e humana |
O livro
alimenta a nostalgia de uma São Paulo mais cortês e
humana, ao mesmo tempo que documenta o indisfarçável
embrutecimento da paisagem à medida que se chega próximo
dos dias atuais. Existe certa unanimidade a respeito das causas
dessa degradação, conforme nota o arquiteto Carlos
A.C. Lemos num ensaio na parte final da obra. Entre elas, a falta
de políticas eficazes de ocupação do solo e
de bons programas de transporte coletivo. Mas talvez se pudesse
apontar ainda uma outra agravante: os projetos que visaram dotar
a cidade de uma identidade arquitetônica não vingaram.
O fracasso mais retumbante foi o dos arquitetos e urbanistas modernistas.
Eles tiveram seu momento de glória nos anos 50 e 60, com
a construção de obras como a sede do Museu de Arte
de São Paulo, de Lina Bo Bardi, e o edifício Copan,
de Oscar Niemeyer este último, objeto de algumas fotografias
do livro. Edifícios como o Masp ou o Copan têm, inegavelmente,
identidade própria, o que não significa que sejam
bonitos ou funcionais. Talvez por causa da indomável feiúra
da metrópole, pode-se observar a tendência, entre os
fotógrafos contemporâneos representados no livro, de
buscar mais o enfoque poético que o documental. Profissionais
como Romulo Fialdini e Cássio Vasconcellos revelam uma cidade
que não é bela mas sai bem na foto.
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