Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Esporte
A legião africana

Clube da Bélgica escala dez atletas
da Costa do Marfim e acaba acusado
até de tráfico negreiro


Divulgação
O time importado do Beveren: nos círculos, jogadores da Costa do Marfim que são titulares da equipe

Um modesto time da primeira divisão belga, o KSK Beveren, levou ao limite a tendência dos clubes europeus de importar jogadores africanos: dez de seus titulares, nesta temporada, são da Costa do Marfim. Com isso, o time faz sua melhor campanha em uma década no campeonato belga e já sonha em conquistar vaga para uma das copas européias de clubes.

A idéia de buscar praticamente um time inteiro na África é do ex-jogador francês Jean-Marc Guillou. Ele se instalou há dez anos na Costa do Marfim, ex-colônia francesa, para dirigir uma equipe local. Peneirando talentos, montou um time que conquistou a Copa da África de clubes. Três anos atrás, exportou seu modelo para a Europa, injetando dinheiro no Beveren, então à beira da falência. Como o regulamento local não limita o número de estrangeiros por time, começou a contratar atletas descobertos em Abidjã.

As partidas do Beveren tornaram-se uma atração. Com média de 21 anos, cinco a menos que a de outras agremiações, mas 10 quilos mais leves e 10 centímetros mais baixos, os jovens africanos compensam a desvantagem física com um estilo driblador que leva a torcida local a gritar "Brasil, Brasil" em alguns momentos. "Para mim, o futebol é uma forma de arte", diz Guillou.

Quando começaram a ganhar jogos, os marfinenses entraram para o debate político. Com 40.000 habitantes, Beveren, nos arredores de Antuérpia, vota maciçamente no Vlaams Blok, o partido ultradireitista que combate a imigração. Os críticos dizem que o excesso de estrangeiros prejudica a formação de novos jogadores belgas. "Isso é uma vergonha para nosso futebol", disse o presidente de um clube depois de uma derrota para o time afro. Guillou também é acusado de promover uma espécie de tráfico negreiro moderno, ao que ele rebate assegurando se preocupar com o desempenho escolar de seus atletas.

Titulares africanos e reservas europeus pouco se falam fora de campo. Os jogadores negros andam pela cidade com guarda-costas. Não ajuda o fato de a pequena Bélgica, pouco maior que Sergipe, ter um passado mal resolvido com a África. Suas antigas colônias, que se transformaram em Ruanda, Burundi e República Democrática do Congo, conquistaram independência à custa de muita carnificina.

Ainda que nenhum se iguale ao Beveren, é raro um grande clube europeu que não tenha pelo menos um africano entre os contratados. Dos 352 jogadores que estão disputando a Copa da África de seleções neste mês na Tunísia, 200 atuam na Europa. Para os africanos, trata-se de uma oportunidade de conquistar a independência financeira. Para os times, eles são uma solução para alcançar melhores resultados, como tem provado o Beveren.

 
 
 
 
topo voltar