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Alimentação
Indústria
se rende a Atkins
O
setor de alimentação dos EUA vive a
maior revolução das últimas três décadas
com a enxurrada de alimentos com menos
carboidrato

Chrystiane
Silva
AP
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| A
expectativa de vendas da cerveja Michelob low-carb foi três
vezes maior que o esperado |
O médico
americano Robert Atkins, morto no ano passado, pregou pela primeira
vez nos anos 70 os benefícios para a saúde de uma
dieta de emagrecimento rica em proteínas, sem restrição
de gorduras naturais e com baixíssimos teores de carboidrato.
A reação de seus colegas médicos, das autoridades
de saúde e da indústria de alimentos foi feroz. Atkins
foi pintado como um charlatão, e sua dieta como uma alquimia
sem sentido baseada em frágeis evidências, muitas delas
do século XIX. Bem, três décadas depois, a dieta
Atkins é sucesso popular, científico e, cada vez mais,
mercadológico. Vinte e cinco milhões de americanos,
12% da população adulta, já seguem dietas ricas
em proteínas e com alguma limitação na ingestão
de carboidrato. O livro A Dieta Revolucionária do Dr.
Atkins já vendeu mais de 10 milhões de exemplares.
Na Inglaterra, superou o fenômeno Harry Potter. Recentemente,
a Atkins Nutritionals foi comprada pelo Goldman Sachs e pela Parthenon
Capital por quase 800 milhões de dólares. A popularização
da marca criada pelo doutor Atkins é tão intensa que
editores do Oxford English Dictionary consideram a possibilidade
de incluir o verbete Atkins na próxima edição
como sinônimo de dieta.
A
dieta proposta por Robert Atkins permite a ingestão quase
ilimitada de gorduras naturais e proteínas, mas restringe
ao máximo a presença de carboidrato nos alimentos.
Como se sabe, o carboidrato é uma das formas mais imediatas
e utilizáveis de energia. Quando a dieta é rica em
carboidrato, o organismo queima o que precisa para produzir energia
e estoca o restante na forma de gordura. Em linhas gerais, a idéia
básica de Atkins é a de que, quando se priva o organismo
de carboidrato, a saída metabólica encontrada para
produzir energia é queimar a gordura estocada no corpo, que,
assim, emagrece. Atkins dizia que não estava inventando nada,
mas apenas recolocando na mesa a ancestral "dieta do caçador",
com carne assada e alguns poucos vegetais e sem nenhum dos açúcares
e farinhas industrializados que passaram a ser produzidos em massa
a partir do começo do século passado. A dieta Atkins
firmou-se primeiro entre seus adeptos e, aos poucos, foi ganhando
terreno entre os próprios médicos. O mais importante
reconhecimento da eficácia e segurança da dieta Atkins
veio em maio do ano passado, quando o New England Journal of
Medicine publicou o resultado de uma longa pesquisa com voluntários
que comeram quantidades mínimas de carboidrato. Eles apresentaram
perda de peso e reduziram a níveis muito baixos o colesterol
ruim.
AP
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| Burger
King: a novidade é o sanduíche sem pão |
A indústria
alimentícia dos Estados Unidos foi a última das grandes
trincheiras anti-Atkins a aderir aos princípios da dieta
pobre em carboidrato. Em 1999, apenas 47 produtos com o selo low-carb
(pouco carboidrato) foram lançados no mercado americano.
No ano passado, esse número chegou a 633. A onda anterior,
a low-fat (pouca gordura), no auge em meados da década passada,
chegou aos 45% dos produtos. A tendência agora é a
diminuição da oferta de low-fat, enquanto aumenta
a de produtos low-carb. Pão, massas, cerveja e doces em geral
são riquíssimos em carboidrato. As empresas que lidam
com esses itens estão se apressando em produzir versões
adaptadas às exigências da dieta Atkins. "O momento
é uma excelente oportunidade para quem quiser colocar produtos
low-carb no mercado. Como eles ainda são novidade, os preços
tendem a ser mais altos e as margens de lucro também", disse
a VEJA Ira Kalish, diretor da Retail Forward, empresa de consultoria
americana especializada em varejo.
O
Burger King, a segunda maior cadeia de fast food americana, que
só perde para o McDonald's, acaba de lançar o hambúrguer
sem pão. A American Italian Pasta Company, o maior fabricante
de massas secas dos EUA, começou a vender seu primeiro produto
com redução de carboidrato. A grande mudança
é que até recentemente os produtos low-carb industrializados
eram fabricados somente por empresas de médio porte. Agora,
gigantes como Unilever, Nestlé, Kraft Foods e PepsiCo entraram
no mercado. A Unilever se prepara para lançar uma linha com
dezoito produtos com baixo teor de carboidrato. A indústria
de refrigerantes e a de salgadinhos também estão se
movendo para pegar a próxima onda. A famosa cadeia de hotéis
Holiday Inn faz propaganda da opção low-carb nos menus
de seus restaurantes e serviço de quarto. A grande rede de
lanchonetes T.G.I. Friday's associou sua bandeira à marca
Atkins. Especula-se no mercado que a Coca-Cola e o McDonald's preparam,
em sigilo, sua própria linha de produtos com baixos teores
de carboidrato.
A
indústria de alimentos nos Estados Unidos movimenta 587 bilhões
de dólares por ano, e os low-carb já respondem por
600 milhões de dólares. Estima-se que podem chegar
a 15 bilhões de dólares. O futuro desse mercado vai,
em grande parte, depender de uma decisão do FDA, o órgão
que controla alimentos e remédios nos EUA. O FDA ainda não
definiu que quantidade máxima de carboidrato determina um
produto low-carb. Enquanto isso não acontece, os fabricantes
ditam as regras. A Anheuser-Busch Co. lançou a cerveja Michelob
Ultra com apenas 2,6 gramas de carboidrato por garrafa uma
cerveja convencional tem cerca de 12 gramas. Esperava comercializar
1 milhão de barris em 2003. Vendeu 3 milhões. A maior
e mais famosa fabricante de ketchup, a H.J. Heinz lançou
um produto com apenas 1 grama de carboidrato para cada porção
servida. O ketchup comum tem 4 gramas. Até a tradicional
indústria de balas e caramelos Hershey está reduzindo
a concentração de carboidrato de toda a sua linha
de doces, chicletes e sorvetes e prepara uma linha nova praticamente
sem açúcares.
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