Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

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Alimentação
Indústria se rende a Atkins

O setor de alimentação dos EUA vive a
maior revolução das últimas três décadas
com a enxurrada de alimentos com menos
carboidrato


Chrystiane Silva



AP
A expectativa de vendas da cerveja Michelob low-carb foi três vezes maior que o esperado

Em Profundidade: Dietas

O médico americano Robert Atkins, morto no ano passado, pregou pela primeira vez nos anos 70 os benefícios para a saúde de uma dieta de emagrecimento rica em proteínas, sem restrição de gorduras naturais e com baixíssimos teores de carboidrato. A reação de seus colegas médicos, das autoridades de saúde e da indústria de alimentos foi feroz. Atkins foi pintado como um charlatão, e sua dieta como uma alquimia sem sentido baseada em frágeis evidências, muitas delas do século XIX. Bem, três décadas depois, a dieta Atkins é sucesso popular, científico e, cada vez mais, mercadológico. Vinte e cinco milhões de americanos, 12% da população adulta, já seguem dietas ricas em proteínas e com alguma limitação na ingestão de carboidrato. O livro A Dieta Revolucionária do Dr. Atkins já vendeu mais de 10 milhões de exemplares. Na Inglaterra, superou o fenômeno Harry Potter. Recentemente, a Atkins Nutritionals foi comprada pelo Goldman Sachs e pela Parthenon Capital por quase 800 milhões de dólares. A popularização da marca criada pelo doutor Atkins é tão intensa que editores do Oxford English Dictionary consideram a possibilidade de incluir o verbete Atkins na próxima edição como sinônimo de dieta.

A dieta proposta por Robert Atkins permite a ingestão quase ilimitada de gorduras naturais e proteínas, mas restringe ao máximo a presença de carboidrato nos alimentos. Como se sabe, o carboidrato é uma das formas mais imediatas e utilizáveis de energia. Quando a dieta é rica em carboidrato, o organismo queima o que precisa para produzir energia e estoca o restante na forma de gordura. Em linhas gerais, a idéia básica de Atkins é a de que, quando se priva o organismo de carboidrato, a saída metabólica encontrada para produzir energia é queimar a gordura estocada no corpo, que, assim, emagrece. Atkins dizia que não estava inventando nada, mas apenas recolocando na mesa a ancestral "dieta do caçador", com carne assada e alguns poucos vegetais e sem nenhum dos açúcares e farinhas industrializados que passaram a ser produzidos em massa a partir do começo do século passado. A dieta Atkins firmou-se primeiro entre seus adeptos e, aos poucos, foi ganhando terreno entre os próprios médicos. O mais importante reconhecimento da eficácia e segurança da dieta Atkins veio em maio do ano passado, quando o New England Journal of Medicine publicou o resultado de uma longa pesquisa com voluntários que comeram quantidades mínimas de carboidrato. Eles apresentaram perda de peso e reduziram a níveis muito baixos o colesterol ruim.


AP
Burger King: a novidade é o sanduíche sem pão

A indústria alimentícia dos Estados Unidos foi a última das grandes trincheiras anti-Atkins a aderir aos princípios da dieta pobre em carboidrato. Em 1999, apenas 47 produtos com o selo low-carb (pouco carboidrato) foram lançados no mercado americano. No ano passado, esse número chegou a 633. A onda anterior, a low-fat (pouca gordura), no auge em meados da década passada, chegou aos 45% dos produtos. A tendência agora é a diminuição da oferta de low-fat, enquanto aumenta a de produtos low-carb. Pão, massas, cerveja e doces em geral são riquíssimos em carboidrato. As empresas que lidam com esses itens estão se apressando em produzir versões adaptadas às exigências da dieta Atkins. "O momento é uma excelente oportunidade para quem quiser colocar produtos low-carb no mercado. Como eles ainda são novidade, os preços tendem a ser mais altos e as margens de lucro também", disse a VEJA Ira Kalish, diretor da Retail Forward, empresa de consultoria americana especializada em varejo.

O Burger King, a segunda maior cadeia de fast food americana, que só perde para o McDonald's, acaba de lançar o hambúrguer sem pão. A American Italian Pasta Company, o maior fabricante de massas secas dos EUA, começou a vender seu primeiro produto com redução de carboidrato. A grande mudança é que até recentemente os produtos low-carb industrializados eram fabricados somente por empresas de médio porte. Agora, gigantes como Unilever, Nestlé, Kraft Foods e PepsiCo entraram no mercado. A Unilever se prepara para lançar uma linha com dezoito produtos com baixo teor de carboidrato. A indústria de refrigerantes e a de salgadinhos também estão se movendo para pegar a próxima onda. A famosa cadeia de hotéis Holiday Inn faz propaganda da opção low-carb nos menus de seus restaurantes e serviço de quarto. A grande rede de lanchonetes T.G.I. Friday's associou sua bandeira à marca Atkins. Especula-se no mercado que a Coca-Cola e o McDonald's preparam, em sigilo, sua própria linha de produtos com baixos teores de carboidrato.

A indústria de alimentos nos Estados Unidos movimenta 587 bilhões de dólares por ano, e os low-carb já respondem por 600 milhões de dólares. Estima-se que podem chegar a 15 bilhões de dólares. O futuro desse mercado vai, em grande parte, depender de uma decisão do FDA, o órgão que controla alimentos e remédios nos EUA. O FDA ainda não definiu que quantidade máxima de carboidrato determina um produto low-carb. Enquanto isso não acontece, os fabricantes ditam as regras. A Anheuser-Busch Co. lançou a cerveja Michelob Ultra com apenas 2,6 gramas de carboidrato por garrafa – uma cerveja convencional tem cerca de 12 gramas. Esperava comercializar 1 milhão de barris em 2003. Vendeu 3 milhões. A maior e mais famosa fabricante de ketchup, a H.J. Heinz lançou um produto com apenas 1 grama de carboidrato para cada porção servida. O ketchup comum tem 4 gramas. Até a tradicional indústria de balas e caramelos Hershey está reduzindo a concentração de carboidrato de toda a sua linha de doces, chicletes e sorvetes e prepara uma linha nova praticamente sem açúcares.

 

 
 
 
 
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