Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

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Pesquisa
A opinião das múltis
sobre o Brasil

Pesquisa exclusiva realizada por
VEJA com 410 empresas estrangeiras
revela que metade dos investidores
estrangeiros perdeu dinheiro no Brasil


Eduardo Oinegue e Felipe Patury

 
Divulgação
Máquina agrícola da empresa: incentivos fiscais não são o principal atrativo para as múltis


Entrada de dinheiro estrangeiro

O Brasil viveu na última década uma experiência reservada aos países de futuro promissor. Num ritmo jamais visto em sua história, recebeu um fluxo de investimentos estrangeiros superior a 200 bilhões de dólares. E todo esse dinheiro foi parar na produção de bens e serviços, não naquilo que o senador Aloizio Mercadante chama de "capital-motel". Tais recursos compraram bancos, indústrias de autopeças, montadoras de automóveis, salas de cinema, redes de supermercados, empresas de telefonia, companhias privadas e estatais. O dinheiro de fora entrava de forma tão caudalosa que em algum momento houve quem acreditasse que o Brasil reviveria o milagre econômico dos anos 70, o que acabou não se materializando. A curva de ingresso do capital estrangeiro produtivo atingiu seu auge em 2000, quando os computadores do Banco Central registraram a entrada de impressionantes 30 bilhões de dólares. Naquele ano, entre os emergentes, só a China atraiu mais recursos multinacionais. Numa primeira fase, que durou sete anos, o dinheiro entrou forte. Nos últimos três, a curva sofreu uma inflexão e, estima-se, caiu para 10 bilhões de dólares em 2003. A ordem das matrizes não é tirar o Brasil do mapa de investimentos, mas os países da vez são principalmente a China, a Índia, o México, os Tigres Asiáticos, a Polônia, a Rússia e outros mais.

Para entender por que os estrangeiros ingressaram com tanta força e confiança no Brasil, e como o país pôde deixar de ser tão interessante de uma hora para outra, VEJA preparou o mais completo levantamento sobre a presença do capital externo na década que passou, período em que o volume de empresas estrangeiras praticamente dobrou. Havia 6 300 firmas, agora são 11 400. As companhias se instalaram por aqui por meio de novos empreendimentos ou pela ampliação dos já existentes. Também compraram muitas empresas nacionais, entre as quais algumas marcas conhecidas, como Arno, Cofap e Metal Leve. Entre os milhares de empresas, um grupo reduzido de 410 companhias aplicou 67% do total de recursos internados no período. Foram essas as empresas entrevistadas por VEJA.


O estudo chega a algumas conclusões surpreendentes, uma delas sobre o resultado financeiro final das operações realizadas no Brasil na década. De acordo com os dados, 46% das empresas registraram prejuízo no Brasil. As demais ganharam. Ganhar ou perder é da essência do capitalismo. Ocorre que, quando a taxa de insucesso atinge quase metade dos investidores, não são eles que estão com problema. "O que se poderia concluir de uma escola em que metade dos alunos é reprovada?", pergunta o economista Mailson da Nóbrega. "Que os estudantes apresentam algum tipo de limitação coletiva ou que há algum problema na qualidade de ensino do estabelecimento?", continua o economista. "Eu fico com a segunda opção", conclui. Como lidam com investimentos elevados, as companhias preparam um documento chamado "plano de negócio". Além de uma descrição detalhada do empreendimento em si, ele contém previsões de receita e estimativas de lucro. Na pesquisa, VEJA perguntou aos empresários estrangeiros se o resultado do empreendimento correspondeu ao previsto no plano de negócio. Do total de entrevistados, 44% disseram que não atingiram as metas esperadas, um número elevadíssimo, e apenas 10% declararam ter superado as projeções. É pouco para um conjunto que inclui algumas das maiores empresas do planeta acostumadas a ter bons resultados no mundo inteiro mesmo em condições adversas.

O capital estrangeiro entra num país com o único propósito de obter lucro, auferido de duas formas. Um bom pedaço dos investidores se concentra nas aplicações financeiras proporcionadas pelos juros altos ou pelo ganho potencial da bolsa de valores. Trata-se de um capital arisco. Ao menor barulho, ele vai embora. Esse dinheiro não trabalha com cenários de longo prazo e vive de apostas. Não foi com esse tipo de investidor que VEJA conversou, mas com o outro – aquele que veio com o propósito de ficar. Uma vez que o dinheiro cruza a fronteira e é convertido em reais no Banco Central, transforma-se em prédios, máquinas e salários. Trata-se de fonte de recursos vital para países emergentes. Nem que quisesse conseguiria sair correndo se achasse que o país vai mal. Nos momentos de crise, o investimento estrangeiro serve como um colchão contra a instabilidade.

Hoje, os bens das empresas multinacionais instaladas no país chega a quase 1 trilhão de reais, e seu faturamento anual atinge 500 bilhões de reais. Elas empregam 1,7 milhão de pessoas e pagam salários três vezes mais altos que os das empresas nacionais. Numa economia marcada pela informalidade e sonegação, os estrangeiros estão entre os melhores contribuintes. De acordo com os dados mais recentes, as multinacionais respondem por 20% do produto interno bruto, 50% dos impostos e 60% das exportações. O dinheiro de fora vem ainda acompanhado de uma tecnologia que os países emergentes teriam dificuldade de criar sozinhos. Uma vez dentro de um país, a tecnologia se converte em produtividade. Até as empresas concorrentes são beneficiadas, porque só serão competitivas se se modernizarem. Os fornecedores também acabam melhorando o padrão de seus produtos, e os trabalhadores são treinados para operar as novas tecnologias. O maior beneficiário é o consumidor. A competição entre as empresas nacionais e as estrangeiras reduz preços e aumenta a oferta e a qualidade dos produtos. Por trabalhar na base da produção, os grupos estrangeiros observam os problemas brasileiros em profundidade. É o que mostra a pesquisa de VEJA.

 
Raul Junior
Linha de produção da companhia suíça Nestlé: interesse é pelo mercado interno

Perguntados sobre o que levaram em conta ao decidir-se pelo Brasil, os investidores estrangeiros deram diversas respostas. Mas as principais foram: 1) a possibilidade de investir num país com amplo mercado interno; 2) a chance de se estabelecer num lugar com perspectivas reais de ingressar numa fase de crescimento econômico; e 3) o acesso ao mercado latino proporcionado pelo posicionamento geográfico do Brasil. Ou seja, os empresários estrangeiros depositaram no Brasil 200 bilhões de dólares certos de que o país iria decolar – algo que infelizmente ainda não aconteceu. "Muita gente pode ter resistência a acreditar nisso, mas o empresário sério realmente aposta no ideário do crescimento e da distribuição de renda", diz Ivan Zurita, presidente da Nestlé, empresa de capital suíço que opera no Brasil desde 1921.

Pelo tamanho da população, o Brasil poderia ser uma nação de consumidores. Com 175 milhões de habitantes, é o terceiro maior país emergente do mundo. Só perde para a China e a Índia. O problema são as distorções sociais, que podem ser verificadas de várias formas. Os países que realmente vão às compras são formados por uma faixa de classe média superior a 70% da população. É o caso dos Estados Unidos. A classe média brasileira representa 23% da sociedade, mas apenas 10% da população, o equivalente aos habitantes da Holanda, tem renda per capita acima de 30.000 dólares anuais. Nossa taxa de miséria se assemelha à de países como Panamá, Botsuana, República Dominicana e Guiné. Os jovens brasileiros apresentam a pior taxa de escolaridade da América Latina, empatando com Guatemala, Honduras e Nicarágua. Apenas quatro de cada dez jovens com idade para cursar o ensino médio estão matriculados. O desemprego cresceu nos últimos anos, e bateu recordes. A taxa de desemprego dobrou em relação à existente na década de 80.

É esse cenário que as empresas estrangeiras criticam. As firmas só ganham se o país ficar mais rico e a distribuição de renda melhorar. Só assim haverá mais gente para consumir seus produtos. Imagine-se a revolução provocada por um aumento na distribuição de renda. Nos últimos três anos, a economia cresceu abaixo de 2%, menos que a taxa de crescimento populacional. A renda das pessoas caiu, e o consumo é menor que o esperado. As perspectivas de obter bons resultados no Brasil se tornaram mais distantes. Um bom exemplo do mau momento está no setor automobilístico. As montadoras apostaram em projeções de vendas de 3 milhões de carros por ano em 2000. O Brasil recebeu investimento de todas as partes do mundo nessa área e, hoje, é o país que tem mais marcas produzidas em seu território. As perspectivas foram frustradas. O mercado nacional estancou em 1,8 milhão de unidades. Espera-se alguma melhoria para este ano.

A análise da pesquisa mostra que o debate a respeito do tratamento que se deve dar ao capital estrangeiro ainda engatinha no Brasil. Próceres do mundo político, muitos da base de sustentação e até integrantes do governo Lula associam o dinheiro oriundo das multinacionais a palavras como especulação, desnacionalização e exploração. Assustadoramente, as mesmas vozes que imprecam contra o capital estrangeiro, que injeta dólares na economia e financia a produção, se insurgem também contra o FMI, entidade a que os países recorrem quando não conseguem se financiar. Para crescer, o país precisa de investimentos que gerem emprego e renda. Esses recursos dependem da capacidade de poupança da nação. O Brasil não tem capital privado suficiente para fazer o investimento. O governo gastou o que tinha e está devendo. Para cobrir suas despesas, arrecada os poucos recursos que sobram da iniciativa privada. "A única alternativa é importar recursos do exterior", conclui o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola.

 
Agliberto Lima/AE

Gábor Deák (acima), da Delphi, e Paul Fleming (abaixo), ex-presidente da Volks: mercado disputado

Paulo Vitale

Entre 1995 e o ano passado, o Brasil recebeu dinheiro de 85 países, entre os quais se destacam cinco. Portugal investiu 4,5 bilhões de dólares, aplicados pela rede de supermercados Sonae e pela Portugal Telecom, entre outros. A França colocou no Brasil 5 bilhões, por meio de empresas como Renault e Peugeot. A Holanda, com 10 bilhões, compareceu com empresas como o banco ABN Amro. A Espanha aplicou cerca de 12 bilhões de dólares no período. Entraram companhias como a Telefônica e o grupo Santander. Dos Estados Unidos vieram 14 bilhões. Todas as empresas, sem exceção, trabalharam com a certeza de que o Brasil iria se desvencilhar de suas amarras, como o fosso previdenciário, o nó tributário e o enrosco da legislação trabalhista. Esperaram providências por anos, mas elas não vieram. "Começamos então a receber cobranças da matriz", comenta o dirigente de uma multinacional de capital americano.


Quando saiu a primeira das reformas, a da Previdência, de escopo apenas parcial, receberam a instrução definitiva de mudar os planos a respeito dos novos investimentos no país. A pesquisa identifica o desencanto dos estrangeiros com o Brasil. De acordo com os dados, 24% dos grupos estrangeiros tomaram a decisão de não fazer novas aplicações no país nos próximos cinco anos. O desânimo atinge até os que declararam ter tido bom desempenho. Os 76% restantes afirmam que manterão os investimentos, ainda que em grau menor. Mas avisam que, por ordem da matriz, o Brasil deixou de ser prioridade. Dos que continuarão a investir, quase 80% dizem que outros países receberão mais atenção. Entre eles estão, pela ordem de importância, a China, o México, os Tigres Asiáticos e a Índia.

A pesquisa de VEJA desfaz alguns mitos a respeito da forma adequada de atrair recursos externos. Um dos expedientes bombardeados pelos entrevistados é a guerra fiscal, que enlouqueceu os governadores na última década. Em diversas ocasiões, os Estados brasileiros patrocinaram verdadeiros leilões para saber quem oferecia às multinacionais as melhores condições de investimento, incluindo isenções fiscais de toda ordem. Os entrevistados, por sua vez, declaram que as vantagens tributárias pesam na decisão final, mas bem menos do que as autoridades locais imaginam. No campo dos impostos, o item mais importante para os empresários estrangeiros abrange a definição de uma realidade tributária estável e o estabelecimento de uma carga de impostos razoável, que estimule a produção – característica que o Brasil não possui. Nesse particular, os grupos estrangeiros têm a mesma queixa formulada por empresários brasileiros. "Na guerra fiscal, são os governos que investem na empresa, não o contrário", afirma o tributarista Ary Oswaldo Mattos Filho.

 
Divulgação
O modelo Classe A, da montadora alemã Mercedes: fábrica já operou com 80% de ociosidade

Outro mito derrubado pela pesquisa é o de que o investidor estrangeiro escolhe um país basicamente em função de sua mão-de-obra barata. O custo final da folha de pagamento pesa, evidentemente. Mas os empresários ouvidos por VEJA informam dar preferência a duas outras virtudes que o Brasil também não possui. Uma delas é a adoção de uma realidade trabalhista que permita a contratação de pessoal sem tantos encargos e sem o risco de se ver chamado à Justiça do Trabalho a cada demissão. A outra característica é a capacidade da força de trabalho de se adaptar aos procedimentos que favorecem o aumento da produtividade.

Apesar de seus defeitos conhecidos, o Brasil não saiu definitivamente da mira dos investidores. "Por seu tamanho, o Brasil sempre será um destino potencialmente atraente", diz a diretora do McKinsey Global Institute, Diana Farrell, que coordenou um estudo sobre o comportamento dos investimentos nos países emergentes. O que o Brasil perdeu temporariamente foi a disputa pelos grandes volumes de investimento. A longo prazo, os analistas acreditam que o país possa tirar uma grande lição dessa crise e se reerguer. No fim do ano passado, a Goldman Sachs, um dos mais respeitados bancos de investimento do mundo, cunhou o termo Bric para definir os países em que o mercado vai crescer e nos quais seus clientes devem apostar nos próximos anos. A sigla reúne Brasil, Rússia, Índia e China. Segundo o estudo, a economia brasileira será maior que a alemã em 2036. "O Brasil tem um mercado com elevado potencial de crescimento", diz Mark Essle, presidente para a América Latina da A.T. Kearney. Assim, o Brasil continua a ser o "país do futuro", como sempre foi. Ninguém sabe quando o futuro chegará.

 

 

 
 
 
 
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