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Pesquisa
A
opinião das múltis
sobre o Brasil
Pesquisa exclusiva realizada
por
VEJA com 410 empresas estrangeiras
revela que metade dos investidores
estrangeiros perdeu dinheiro no Brasil

Eduardo Oinegue e Felipe Patury
Divulgação
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| Máquina
agrícola da empresa: incentivos fiscais não são o principal
atrativo para as múltis |
O
Brasil viveu na última década uma experiência
reservada aos países de futuro promissor. Num ritmo jamais
visto em sua história, recebeu um fluxo de investimentos
estrangeiros superior a 200 bilhões de dólares. E
todo esse dinheiro foi parar na produção de bens e
serviços, não naquilo que o senador Aloizio Mercadante
chama de "capital-motel". Tais recursos compraram bancos, indústrias
de autopeças, montadoras de automóveis, salas de cinema,
redes de supermercados, empresas de telefonia, companhias privadas
e estatais. O dinheiro de fora entrava de forma tão caudalosa
que em algum momento houve quem acreditasse que o Brasil reviveria
o milagre econômico dos anos 70, o que acabou não se
materializando. A curva de ingresso do capital estrangeiro produtivo
atingiu seu auge em 2000, quando os computadores do Banco Central
registraram a entrada de impressionantes 30 bilhões de dólares.
Naquele ano, entre os emergentes, só a China atraiu mais
recursos multinacionais. Numa primeira fase, que durou sete anos,
o dinheiro entrou forte. Nos últimos três, a curva
sofreu uma inflexão e, estima-se, caiu para 10 bilhões
de dólares em 2003. A ordem das matrizes não é
tirar o Brasil do mapa de investimentos, mas os países da
vez são principalmente a China, a Índia, o México,
os Tigres Asiáticos, a Polônia, a Rússia e outros
mais.
Para entender por que os estrangeiros ingressaram com tanta força
e confiança no Brasil, e como o país pôde deixar
de ser tão interessante de uma hora para outra, VEJA preparou
o mais completo levantamento sobre a presença do capital
externo na década que passou, período em que o volume
de empresas estrangeiras praticamente dobrou. Havia 6 300 firmas,
agora são 11 400. As companhias se instalaram por aqui por
meio de novos empreendimentos ou pela ampliação dos
já existentes. Também compraram muitas empresas nacionais,
entre as quais algumas marcas conhecidas, como Arno, Cofap e Metal
Leve. Entre os milhares de empresas, um grupo reduzido de 410 companhias
aplicou 67% do total de recursos internados no período. Foram
essas as empresas entrevistadas por VEJA.
O
estudo chega a algumas conclusões surpreendentes, uma delas
sobre o resultado financeiro final das operações realizadas
no Brasil na década. De acordo com os dados, 46% das empresas
registraram prejuízo no Brasil. As demais ganharam. Ganhar
ou perder é da essência do capitalismo. Ocorre que,
quando a taxa de insucesso atinge quase metade dos investidores,
não são eles que estão com problema. "O que
se poderia concluir de uma escola em que metade dos alunos é
reprovada?", pergunta o economista Mailson da Nóbrega. "Que
os estudantes apresentam algum tipo de limitação coletiva
ou que há algum problema na qualidade de ensino do estabelecimento?",
continua o economista. "Eu fico com a segunda opção",
conclui. Como lidam com investimentos elevados, as companhias preparam
um documento chamado "plano de negócio". Além de uma
descrição detalhada do empreendimento em si, ele contém
previsões de receita e estimativas de lucro. Na pesquisa,
VEJA perguntou aos empresários estrangeiros se o resultado
do empreendimento correspondeu ao previsto no plano de negócio.
Do total de entrevistados, 44% disseram que não atingiram
as metas esperadas, um número elevadíssimo, e apenas
10% declararam ter superado as projeções. É
pouco para um conjunto que inclui algumas das maiores empresas do
planeta acostumadas a ter bons resultados no mundo inteiro mesmo
em condições adversas.
O capital estrangeiro entra num país com o único propósito
de obter lucro, auferido de duas formas. Um bom pedaço dos
investidores se concentra nas aplicações financeiras
proporcionadas pelos juros altos ou pelo ganho potencial da bolsa
de valores. Trata-se de um capital arisco. Ao menor barulho, ele
vai embora. Esse dinheiro não trabalha com cenários
de longo prazo e vive de apostas. Não foi com esse tipo de
investidor que VEJA conversou, mas com o outro aquele que
veio com o propósito de ficar. Uma vez que o dinheiro cruza
a fronteira e é convertido em reais no Banco Central, transforma-se
em prédios, máquinas e salários. Trata-se de
fonte de recursos vital para países emergentes. Nem que quisesse
conseguiria sair correndo se achasse que o país vai mal.
Nos momentos de crise, o investimento estrangeiro serve como um
colchão contra a instabilidade.
Hoje, os bens das empresas multinacionais instaladas no país
chega a quase 1 trilhão de reais, e seu faturamento anual
atinge 500 bilhões de reais. Elas empregam 1,7 milhão
de pessoas e pagam salários três vezes mais altos que
os das empresas nacionais. Numa economia marcada pela informalidade
e sonegação, os estrangeiros estão entre os
melhores contribuintes. De acordo com os dados mais recentes, as
multinacionais respondem por 20% do produto interno bruto, 50% dos
impostos e 60% das exportações. O dinheiro de fora
vem ainda acompanhado de uma tecnologia que os países emergentes
teriam dificuldade de criar sozinhos. Uma vez dentro de um país,
a tecnologia se converte em produtividade. Até as empresas
concorrentes são beneficiadas, porque só serão
competitivas se se modernizarem. Os fornecedores também acabam
melhorando o padrão de seus produtos, e os trabalhadores
são treinados para operar as novas tecnologias. O maior beneficiário
é o consumidor. A competição entre as empresas
nacionais e as estrangeiras reduz preços e aumenta a oferta
e a qualidade dos produtos. Por trabalhar na base da produção,
os grupos estrangeiros observam os problemas brasileiros em profundidade.
É o que mostra a pesquisa de VEJA.
Raul Junior
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| Linha
de produção da companhia suíça Nestlé: interesse é pelo mercado
interno |
Perguntados
sobre o que levaram em conta ao decidir-se pelo Brasil, os investidores
estrangeiros deram diversas respostas. Mas as principais foram:
1) a possibilidade de investir num país com amplo mercado
interno; 2) a chance de se estabelecer num lugar com perspectivas
reais de ingressar numa fase de crescimento econômico; e 3)
o acesso ao mercado latino proporcionado pelo posicionamento geográfico
do Brasil. Ou seja, os empresários estrangeiros depositaram
no Brasil 200 bilhões de dólares certos de que o país
iria decolar algo que infelizmente ainda não aconteceu.
"Muita gente pode ter resistência a acreditar nisso, mas o
empresário sério realmente aposta no ideário
do crescimento e da distribuição de renda", diz Ivan
Zurita, presidente da Nestlé, empresa de capital suíço
que opera no Brasil desde 1921.
Pelo tamanho da população, o Brasil poderia ser uma
nação de consumidores. Com 175 milhões de habitantes,
é o terceiro maior país emergente do mundo. Só
perde para a China e a Índia. O problema são as distorções
sociais, que podem ser verificadas de várias formas. Os países
que realmente vão às compras são formados por
uma faixa de classe média superior a 70% da população.
É o caso dos Estados Unidos. A classe média brasileira
representa 23% da sociedade, mas apenas 10% da população,
o equivalente aos habitantes da Holanda, tem renda per capita acima
de 30.000 dólares anuais. Nossa taxa de miséria se
assemelha à de países como Panamá, Botsuana,
República Dominicana e Guiné. Os jovens brasileiros
apresentam a pior taxa de escolaridade da América Latina,
empatando com Guatemala, Honduras e Nicarágua. Apenas quatro
de cada dez jovens com idade para cursar o ensino médio estão
matriculados. O desemprego cresceu nos últimos anos, e bateu
recordes. A taxa de desemprego dobrou em relação à
existente na década de 80.
É
esse cenário que as empresas estrangeiras criticam. As firmas
só ganham se o país ficar mais rico e a distribuição
de renda melhorar. Só assim haverá mais gente para
consumir seus produtos. Imagine-se a revolução provocada
por um aumento na distribuição de renda. Nos últimos
três anos, a economia cresceu abaixo de 2%, menos que a taxa
de crescimento populacional. A renda das pessoas caiu, e o consumo
é menor que o esperado. As perspectivas de obter bons resultados
no Brasil se tornaram mais distantes. Um bom exemplo do mau momento
está no setor automobilístico. As montadoras apostaram
em projeções de vendas de 3 milhões de carros
por ano em 2000. O Brasil recebeu investimento de todas as partes
do mundo nessa área e, hoje, é o país que tem
mais marcas produzidas em seu território. As perspectivas
foram frustradas. O mercado nacional estancou em 1,8 milhão
de unidades. Espera-se alguma melhoria para este ano.
A análise da pesquisa mostra que o debate a respeito do tratamento
que se deve dar ao capital estrangeiro ainda engatinha no Brasil.
Próceres do mundo político, muitos da base de sustentação
e até integrantes do governo Lula associam o dinheiro oriundo
das multinacionais a palavras como especulação, desnacionalização
e exploração. Assustadoramente, as mesmas vozes que
imprecam contra o capital estrangeiro, que injeta dólares
na economia e financia a produção, se insurgem também
contra o FMI, entidade a que os países recorrem quando não
conseguem se financiar. Para crescer, o país precisa de investimentos
que gerem emprego e renda. Esses recursos dependem da capacidade
de poupança da nação. O Brasil não tem
capital privado suficiente para fazer o investimento. O governo
gastou o que tinha e está devendo. Para cobrir suas despesas,
arrecada os poucos recursos que sobram da iniciativa privada. "A
única alternativa é importar recursos do exterior",
conclui o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola.
Agliberto Lima/AE
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Gábor
Deák (acima), da Delphi, e Paul Fleming (abaixo),
ex-presidente da Volks: mercado disputado
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Paulo Vitale
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Entre
1995 e o ano passado, o Brasil recebeu dinheiro de 85 países,
entre os quais se destacam cinco. Portugal investiu 4,5 bilhões
de dólares, aplicados pela rede de supermercados Sonae e
pela Portugal Telecom, entre outros. A França colocou no
Brasil 5 bilhões, por meio de empresas como Renault e Peugeot.
A Holanda, com 10 bilhões, compareceu com empresas como o
banco ABN Amro. A Espanha aplicou cerca de 12 bilhões de
dólares no período. Entraram companhias como a Telefônica
e o grupo Santander. Dos Estados Unidos vieram 14 bilhões.
Todas as empresas, sem exceção, trabalharam com a
certeza de que o Brasil iria se desvencilhar de suas amarras, como
o fosso previdenciário, o nó tributário e o
enrosco da legislação trabalhista. Esperaram providências
por anos, mas elas não vieram. "Começamos então
a receber cobranças da matriz", comenta o dirigente de uma
multinacional de capital americano.
Quando
saiu a primeira das reformas, a da Previdência, de escopo
apenas parcial, receberam a instrução definitiva de
mudar os planos a respeito dos novos investimentos no país.
A pesquisa identifica o desencanto dos estrangeiros com o Brasil.
De acordo com os dados, 24% dos grupos estrangeiros tomaram a decisão
de não fazer novas aplicações no país
nos próximos cinco anos. O desânimo atinge até
os que declararam ter tido bom desempenho. Os 76% restantes afirmam
que manterão os investimentos, ainda que em grau menor. Mas
avisam que, por ordem da matriz, o Brasil deixou de ser prioridade.
Dos que continuarão a investir, quase 80% dizem que outros
países receberão mais atenção. Entre
eles estão, pela ordem de importância, a China, o México,
os Tigres Asiáticos e a Índia.
A pesquisa de VEJA desfaz alguns mitos a respeito da forma adequada
de atrair recursos externos. Um dos expedientes bombardeados pelos
entrevistados é a guerra fiscal, que enlouqueceu os governadores
na última década. Em diversas ocasiões, os
Estados brasileiros patrocinaram verdadeiros leilões para
saber quem oferecia às multinacionais as melhores condições
de investimento, incluindo isenções fiscais de toda
ordem. Os entrevistados, por sua vez, declaram que as vantagens
tributárias pesam na decisão final, mas bem menos
do que as autoridades locais imaginam. No campo dos impostos, o
item mais importante para os empresários estrangeiros abrange
a definição de uma realidade tributária estável
e o estabelecimento de uma carga de impostos razoável, que
estimule a produção característica que
o Brasil não possui. Nesse particular, os grupos estrangeiros
têm a mesma queixa formulada por empresários brasileiros.
"Na guerra fiscal, são os governos que investem na empresa,
não o contrário", afirma o tributarista Ary Oswaldo
Mattos Filho.
Divulgação
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| O
modelo Classe A, da montadora alemã Mercedes: fábrica já operou
com 80% de ociosidade |
Outro
mito derrubado pela pesquisa é o de que o investidor estrangeiro
escolhe um país basicamente em função de sua
mão-de-obra barata. O custo final da folha de pagamento pesa,
evidentemente. Mas os empresários ouvidos por VEJA informam
dar preferência a duas outras virtudes que o Brasil também
não possui. Uma delas é a adoção de
uma realidade trabalhista que permita a contratação
de pessoal sem tantos encargos e sem o risco de se ver chamado à
Justiça do Trabalho a cada demissão. A outra característica
é a capacidade da força de trabalho de se adaptar
aos procedimentos que favorecem o aumento da produtividade.
Apesar de seus defeitos conhecidos, o Brasil não saiu definitivamente
da mira dos investidores. "Por seu tamanho, o Brasil sempre será
um destino potencialmente atraente", diz a diretora do McKinsey
Global Institute, Diana Farrell, que coordenou um estudo sobre o
comportamento dos investimentos nos países emergentes. O
que o Brasil perdeu temporariamente foi a disputa pelos grandes
volumes de investimento. A longo prazo, os analistas acreditam que
o país possa tirar uma grande lição dessa crise
e se reerguer. No fim do ano passado, a Goldman Sachs, um dos mais
respeitados bancos de investimento do mundo, cunhou o termo Bric
para definir os países em que o mercado vai crescer e nos
quais seus clientes devem apostar nos próximos anos. A sigla
reúne Brasil, Rússia, Índia e China. Segundo
o estudo, a economia brasileira será maior que a alemã
em 2036. "O Brasil tem um mercado com elevado potencial de crescimento",
diz Mark Essle, presidente para a América Latina da A.T.
Kearney. Assim, o Brasil continua a ser o "país do futuro",
como sempre foi. Ninguém sabe quando o futuro chegará.
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