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Educação
Tudo
por um diploma
Especialistas na arte de colocar
alunos nas melhores universidades,
os cursinhos têm uma só fórmula:
competição
ao extremo

Marcelo
Carneiro
Oscar Cabral
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| Fábio
Dias, aluno nota 10: bolsa integral e propostas para mudar de
curso |
O
ensino privado movimenta no país, anualmente, 45 bilhões
de reais. Há desde pequenas escolas maternais até
universidades com 85.000 alunos. No topo desse mercado, porém,
estão potências que surgiram a partir da descoberta
de uma mina de ouro os cursos pré-vestibulares. Atualmente,
quatro dos cinco maiores grupos educacionais em atuação
têm como origem cursinhos que viraram cursões. O segredo
do sucesso desse modelo é um só: muita competição.
Enquanto os alunos se entregam a uma guerra por carreiras altamente
disputadas, como medicina e direito, em que a relação
candidato/vaga pode chegar a 35 por 1, os cursinhos pré-vestibulares
lançam mão de todas as armas para colocar nas melhores
universidades mais vestibulandos que o concorrente.
Nessa briga, em que vale quase tudo, os alunos de ponta costumam
ser disputados a tapa. A eles são oferecidos bolsa integral,
professores individuais e até transporte. Os cursinhos apostam
no talento desses estudantes para conquistar os primeiros lugares
nos vestibulares mais difíceis. Se a aposta der certo, o
curso propagandeia o feito, atraindo novos alunos. O carioca Fábio
Dias Moreira, de 16 anos, é uma dessas estrelas. Aluno do
colégio Elite, um curso especializado em provas com alto
grau de dificuldade, como o vestibular do Instituto Militar de Engenharia
(IME), Fábio é uma espécie de gênio precoce.
Aos 5 anos, antes mesmo de entrar no primário, lia e fazia
as quatro operações. Já conquistou uma medalha
de prata na Olimpíada Internacional de Matemática,
a prova mais difícil no gênero. No ano passado, Fábio
transferiu-se de um colégio onde tinha bolsa integral para
o Elite, mantendo o benefício. Recusou duas propostas de
cursinhos para trocar de escola e conquistou, pelo Elite, a melhor
classificação no IME entre os estudantes fluminenses.
Ser o primeiro, no entanto, tem seu preço: "Estudo dez horas
por dia e tive de aprender a conviver em ambientes de muita competição".
Boa parte desses jovens é recrutada em instituições
tradicionais, que não aderiram ao esquema do cursinho. No
Colégio São Bento, primeiro lugar no ranking das melhores
notas médias do vestibular da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ) no ano passado, os alunos que vão prestar
exame são orientados a não aceitar propostas para,
no tempo livre, complementar o estudo em cursos pré-vestibulares.
Divulgação
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| Sala
do Anglo, em São Paulo: isolamento acústico e janelas vedadas
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Mas
a briga por estudantes de ponta é apenas uma entre as várias
armas dos cursinhos (veja
quadro). Até porque a principal função
de um pré-vestibular não é aprovar alunos brilhantes,
e sim fazer com que o maior número possível de estudantes
sejam eles excelentes, bons ou apenas razoáveis
conquiste sua vaga em universidades de prestígio. As turmas,
por exemplo, não são fixas, como nos colégios
tradicionais. Os alunos mudam constantemente, de acordo com seu
desempenho, e os melhores são agrupados em classes com nomes
como Primeiríssima ou Turma X. Claro que o sonho de todo
vestibulando é fazer parte desse grupo. No Colégio
pH, do Rio de Janeiro, que no ano passado teve o maior número
de alunos aprovados na UFRJ, o estímulo à disputa
por um lugar no topo é explícito. Às vésperas
do vestibular, o próprio dono do colégio, o professor
de química Paulo Henrique Martins, telefona aos 100 melhores
alunos de cada uma das três áreas exatas, humanas
e biológicas para desejar boa prova. PH, como é
conhecido, também participa de algumas aulas e faz questão
de lembrar aos vestibulandos que, em determinadas carreiras, a disputa
é tão intensa que só em seu colégio
há mais candidatos que vagas disponíveis. "Olhe para
a cadeira ao lado. Aí pode estar seu rival", costuma dizer
Paulo Henrique aos estudantes.
A metodologia de ensino também passa por reformulação
constante. No curso Pitágoras, de Minas Gerais, a novidade
são as aulas interdisciplinares, com a presença de
até sete professores de matérias diferentes na mesma
sala. A idéia é preparar o aluno para situações
em que uma mesma questão aborde temas tão díspares
como história e física. A arquitetura das salas de
aula também não escapa ao olhar dos cursinhos. No
Anglo, um dos mais tradicionais de São Paulo, elas têm
isolamento acústico e as janelas são vedadas, tudo
para evitar que o estudante perca a concentração.
Todo esse aparato visa também à disputa de mercado.
O pré-vestibular é um curso livre. Em sua origem,
era freqüentado basicamente por alunos que haviam fracassado
na conquista da vaga e buscavam uma segunda tentativa. Hoje, a procura
tornou-se maciça, e há colégios oriundos de
cursinhos que cobram mensalidades de até 2.000 reais. Entre
os inscritos para o vestibular de medicina da Fuvest, de São
Paulo, o mais concorrido do país, 70% cursaram algum pré-vestibular.
Entre os aprovados, esse número sobe para 86,5%. Ou seja:
o cursinho não é garantia de vaga, mas, sem dúvida,
tornou-se um aliado de peso na guerra pelo diploma.
| As
armas dos cursinhos
Criação de turmas de elite para estimular
a competição entre os vestibulandos
Descontos nas mensalidades e até
bolsas integrais, de acordo com a performance dos estudantes
nos simulados
Salas de aula planejadas para estimular
a concentração, com isolamento acústico
e janelas vedadas
Palestras com especialistas de auto-ajuda
para os alunos e seus pais, às vésperas
dos vestibulares mais concorridos
Carga horária extensa. Nos cursos
com turmas especiais para os vestibulares do IME e do
ITA, os mais difíceis, os alunos passam oito
horas por dia em sala e ainda têm aulas aos sábados
e domingos
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