|
|
Sociedade
Luxo,
cada vez mais luxo
Não
há crise para as supergrifes,
que se multiplicam no Brasil

Gabriela
Carelli
Divulgação
 |
Ferrari
12,5% de aumento nas vendas em 2003
O modelo mais vendido é a Modena F1 360, que
custa 350 000 dólares |
A loja
que a Louis Vuitton inaugurou no fim do ano passado em Ipanema,
no Rio, consumiu 9 milhões de reais em sua construção.
Nunca a grife francesa tinha gasto tanto dinheiro numa filial no
lado de baixo do Equador. Há uma boa explicação
para tal gastança, que inclui piso de mármore importado
da Itália: os brasileiros estão entre os mais ávidos
consumidores de suas caríssimas bolsas, malas e acessórios.
São eles que compram sete de cada dez produtos da grife vendidos
na América Latina. Entre as 320 lojas da marca existentes
em todo o mundo, aquela instalada no Shopping Center Iguatemi, em
São Paulo, apresenta o quinto maior faturamento por metro
quadrado. O impressionante sucesso da Louis Vuitton é reflexo
de um paradoxo nacional. A economia anda de lado e o PIB praticamente
estagnou em 2003. O comércio de alto luxo, por sua vez, vive
uma fase de espetacular expansão. As vendas no Brasil da
tradicional joalheria francesa Cartier cresceram 54% no ano passado.
O faturamento da loja carioca da Montblanc engordou 18%. Esse fabricante
alemão de canetas chiques tem sete lojas no Brasil. São
Paulo tem quatro, mais que qualquer cidade do exterior.
Renato Chaui
 |
Mario Rodrigues
 |
Tiffany
1 loja nova por ano no Brasil
Os brasileiros são campeões de compras
da joalheria na América Latina
Só no Brasil a Tiffany parcela em três vezes.
E sem juros |
Louis
Vuitton
O Brasil responde
por 70% das vendas na América Latina
A quarta loja brasileira, aberta no Rio no fim do
ano passado, custou 9 milhões de reais, a mais cara do
Hemisfério Sul
São Paulo tem o quinto maior faturamento por metro
quadrado entre as 320 lojas da marca no mundo |
Joalheria
grã-fina com sede na Quinta Avenida, em Nova York, a Tiffany
abriu sua segunda loja brasileira em outubro. Neste ano, pretende
inaugurar a terceira, só faltando decidir se em Brasília
ou no Rio. O estilista italiano Giorgio Armani escolheu São
Paulo para instalar a única loja de sua principal grife na
América Latina. Localizada nos Jardins, a região nobre
da cidade, tem 1.200 metros quadrados
e só perde em tamanho para estabelecimentos existentes em
Milão, Hong Kong e Munique. As grandes marcas investiram
4 bilhões de dólares em expansão global nos
últimos seis anos. A maior parte do dinheiro foi para a Ásia
e para os novos-ricos do Leste Europeu. Na América Latina,
o maior quinhão ficou com o Brasil. O que atrai para cá
a constelação de supergrifes é um potencial
de consumo difícil de encontrar por aí. Estima-se
que os brasileiros gastem 1,5 bilhão de dólares por
ano em produtos de alto luxo incluindo-se nessa categoria
carros, cosméticos, bebidas, vestuário, acessórios
e imóveis. Roupas respondem por um terço do total,
assombrosos 500 milhões de dólares anuais.
Dilmar Cavalher/Strana
 |
Cartier
54% de aumento nas vendas em 2003
Em dezembro, o faturamento no Brasil ultrapassou
o do México |
O carro-chefe
desse consumo é a classe dos muito ricos. São os 105.000
brasileiros com renda familiar superior a 50.000
reais mensais, de acordo com estimativa da consultoria de geomarketing
Escopo. Estudos indicam que o poder aquisitivo da parcela mais rica
da população cresceu 29% na década de 90. É
gente que não se incomoda em pagar 5.000
reais por um terno de corte impecável da marca italiana Ermenegildo
Zegna ou 6 400 reais num vestidinho estampado com a etiqueta John
Galliano. Eles não são a única freguesia, é
bom que se diga. Uma característica do comércio de
luxo no Brasil é que a demanda não se restringe a
um diminuto grupo de ricaços. O brasileiro é reconhecido
pelo apetite voraz por marcas famosas na hora da compra. "O consumo
do luxo é dividido em dois grupos: os que têm dinheiro
e os que querem ter", diz José Roberto Martins, consultor
da GlobalBrands e autor do livro O Império das Marcas.
"No caso do Brasil, pesa muito o fato de que quem tem dinheiro compra
impulsivamente e os que não têm tanto sobrando fazem
de tudo para ter o objeto de seus sonhos."
Laurent Brémaud
 |
André Nazareth/Strana
 |
Divulgação
 |
| Bolsa
Louis Vuitton de couro de cabra 10 300
reais |
Relógio
Cartier com ouro, brilhante e couro 60
800 reais |
Caneta
Montblanc Black Diamond 560 000 reais |
André Nazareth/Strana
 |
| Vestido
estampado John Galliano 6 400 reais |
É por isso que a Tiffany imita as demais supergrifes e vende
a crédito no Brasil coisa que não faz em nenhum
outro lugar. "Abrimos uma exceção mundial e parcelamos
o pagamento de nossas jóias porque sabemos do sonho brasileiro
pelo glamour e queremos tornar o encanto acessível", explica
Laura Pedroso, gerente-geral da joalheria no país. Aqui,
como em Nova York, a Tiffany oferece produtos para todos os bolsos
bem, nem todos. Há o colar de platina com diamantes
e rubis de 700.000 reais e, também,
o luxo acessível de uma pulseira de prata de lei com pingente
em forma de coração por razoáveis 770 reais.
"O luxo é para todos os que têm vontade", diz Freddy
Rabbat, diretor da Montblanc no Brasil. "É um estímulo
para uma pessoa trabalhar, ter sucesso e alcançar seus sonhos."
Nem que seja em três vezes sem juros.
Um
dos atrativos do Brasil é o mercado relativamente recente
e, portanto, ainda não completamente explorado. Até
a abertura da economia, na década passada, as supergrifes
só eram acessíveis a quem viajava para o exterior.
Esses endinheirados foram também os primeiros clientes delas
no Brasil. "Logo em seguida conquistamos quem não viajava
mas podia comprar aqui", afirma Patrícia Gaia, diretora de
marketing da Giorgio Armani Brasil. "Agora é a fase de mostrar
as marcas para quem tem dinheiro e não as conhece. Outro
paradoxo brasileiro é o fato de a concentração
regional de renda facilitar o desembarque do luxo. De modo geral,
só é preciso se instalar no eixo RioSão
Paulo. A loja paulistana da Versace, fabricante italiana de roupas,
representa 70% do faturamento na América Latina. É
um tremendo custo-benefício.
Fabio Mangabeira
 |
| Colar
de rubis e diamantes Tiffany 700 000 reais |
Pelo menos cinco grandes marcas têm o Brasil entre os maiores
consumidores por área instalada. "Poucos países superam
o Brasil em vendas por metro quadrado", garante Carlos Ferreirinha,
coordenador do MBA do luxo da Fundação Armando Álvares
Penteado, em São Paulo. "Isso significa um retorno rápido,
com gastos menores, e mostra o potencial de vendas do país."
No ano passado, as vendas da Ferrari no Brasil cresceram 12,5% em
relação a 2002. Foram dezoito carrões, a maioria
do modelo mais barato que sai da fábrica italiana. Quem achou
a frota modesta e leu com desdém o adjetivo "barato" talvez
não saiba que cada carro custa a pequena fortuna de 350.000
dólares. O empresário Lawrence Pih, presidente do
Moinho Pacífico, é um dos que podem e compram. Ele
é dono de uma coleção de nove automóveis
de luxo, entre eles cinco Ferrari. "Admito, é consumismo
mesmo", diz Pih. "Olho um carro e não penso duas vezes se
gosto. Pago. Se for avião, aí, sim, vou checar qual
a distância que percorre e quanto gasta de combustível."
Colaborou
Melissa Jannuzzi
|