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Cidades
O
outro lado do paraíso
Florianópolis controla a migração
para evitar
o aumento da violência
e das favelas na cidade

Maurício
Lima
Sérgio Vignes/Tempo Editorial
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| Florianópolis:
crescimento de 15% em cinco anos |
Nas
listas das cidades com melhor qualidade de vida do Brasil, Florianópolis
aparece sempre nas primeiras colocações. Belas praias,
povo cortês e baixo custo de vida transformaram a capital
de Santa Catarina na "Ilha da Magia". A fama de lugar paradisíaco
cresceu, trouxe turistas e, ultimamente, novos moradores. Em cinco
anos, o aumento populacional foi de 15%, uma taxa bem superior à
média nacional. Assustada com o crescimento repentino, a
prefeitura tomou uma providência radical. Desde o mês
passado, o município tem um novo órgão com
a missão de filtrar a chegada dos forasteiros e, se possível,
mandar alguns deles de volta para casa. A triagem é feita
na Rodoviária Rita Maria, e a estratégia é
simples. Entrevistadores recepcionam os ônibus na chegada
à capital e aplicam um questionário para saber os
motivos que trazem aqueles passageiros à cidade. Quem chega
sem destino certo recebe um kit para tomar banho, orientação
sobre as dificuldades que vão encontrar em Florianópolis
e, em alguns casos, passagem de volta para a cidade de origem. No
primeiro mês de funcionamento, mais da metade das pessoas
abordadas aceitou a oferta.
Até hoje, tinha-se uma idéia de que o migrante que
chegava a Florianópolis se encaixava no estereótipo
aposentado-rico-cansado-do-corre-corre-das-grandes-cidades. Em parte,
isso é verdade. A população acima de 60 anos
em Florianópolis aumentou 55% em dez anos. São pessoas
com bom nível cultural e boa renda que ajudam a dinamizar
a economia local. Esse grupo continua muito bem-vindo à cidade
e será recebido com pompa e tapete vermelho. Mas a percepção
de que a migração abrange perfis menos desejáveis
de moradores vem crescendo. Num levantamento recente da Secretaria
de Habitação, constatou-se que 40% dos menores de
rua do município vieram de outros Estados para morar nas
ruas de Florianópolis. Os 60% restantes vivem em favelas
da região, e metade deles pertence a famílias que
também vieram de outros municípios ou Estados. Ou
seja: a miséria que hoje circula pelos semáforos da
capital de Santa Catarina (de uma maneira muito mais discreta do
que em outros centros) veio de fora. Alarmada com essa situação,
a prefeitura adotou o projeto para controlar a chegada dos novos
moradores.
Tarcísio Mattos/Tempo Editorial
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| Triagem
na rodoviária: questionário e passagem de volta |
O
fato é que Florianópolis começa a sentir os
efeitos negativos de seu sucesso. Vinte anos atrás, existiam
apenas cinco favelas na Grande Florianópolis. Agora são
mais de cinqüenta espalhadas pelos morros da ilha. Outra faceta
desse crescimento desordenado é a violência. Há
vinte anos, o município tinha uma taxa de 4,9 homicídios
por 100.000 habitantes. Era um índice comparável ao
das cidades mais desenvolvidas do mundo. Mas esse número
triplicou, hoje é de 17,2 mortes, e continua a subir. Alheias
ao problema, famílias menos favorecidas continuam chegando
à cidade em busca de uma vida melhor. Florianópolis
realmente apresenta indicadores sociais e econômicos invejáveis.
Pelo critério da Organização das Nações
Unidas, a Ilha da Magia está entre as cinco cidades do Brasil
com melhor qualidade de vida. Isso significa que o município
possui indicadores de renda, educação e qualidade
de vida de padrão europeu. Aliado a esse quadro, existe um
ciclo de desenvolvimento econômico do lugar. A construção
civil vem aumentando a impressionantes 10% ao ano. São prédios,
shoppings, hotéis e centros de convenção que
vêm alterando a paisagem local.
A
experiência de Florianópolis repete, em parte, outros
fluxos migratórios da história brasileira. Num país
como o Brasil, sem conflitos armados nem revoltas populares, os
contrastes econômicos foram o principal fator de movimentos
populacionais ao longo do século XX. Nas décadas de
50 e 60, milhões de pessoas deixaram o campo e foram rumo
às cidades. São Paulo e Rio de Janeiro, os eldorados
daquela época, incharam e sofreram com o aparecimento dos
efeitos colaterais do progresso: favelas, violência e caos
urbano. Hoje, esses grandes centros estão saturados e constata-se
um fluxo migratório para cidades de menor porte. Estudos
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
mostram que o segmento da população que mais cresce
no Brasil está concentrado em cidades pequenas e médias.
De acordo com esse levantamento, as pessoas querem oportunidades
econômicas e de qualidade de vida. Florianópolis tem
as duas características e, inevitavelmente, será um
pólo de migração nos próximos anos.
De ricos e pobres apesar dos esforços seletivos da
prefeitura.
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