Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

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Cidades
O outro lado do paraíso

Florianópolis controla a migração
para evitar
o aumento da violência
e das favelas na cidade


Maurício Lima

 
Sérgio Vignes/Tempo Editorial
Florianópolis: crescimento de 15% em cinco anos

Nas listas das cidades com melhor qualidade de vida do Brasil, Florianópolis aparece sempre nas primeiras colocações. Belas praias, povo cortês e baixo custo de vida transformaram a capital de Santa Catarina na "Ilha da Magia". A fama de lugar paradisíaco cresceu, trouxe turistas e, ultimamente, novos moradores. Em cinco anos, o aumento populacional foi de 15%, uma taxa bem superior à média nacional. Assustada com o crescimento repentino, a prefeitura tomou uma providência radical. Desde o mês passado, o município tem um novo órgão com a missão de filtrar a chegada dos forasteiros e, se possível, mandar alguns deles de volta para casa. A triagem é feita na Rodoviária Rita Maria, e a estratégia é simples. Entrevistadores recepcionam os ônibus na chegada à capital e aplicam um questionário para saber os motivos que trazem aqueles passageiros à cidade. Quem chega sem destino certo recebe um kit para tomar banho, orientação sobre as dificuldades que vão encontrar em Florianópolis e, em alguns casos, passagem de volta para a cidade de origem. No primeiro mês de funcionamento, mais da metade das pessoas abordadas aceitou a oferta.

Até hoje, tinha-se uma idéia de que o migrante que chegava a Florianópolis se encaixava no estereótipo aposentado-rico-cansado-do-corre-corre-das-grandes-cidades. Em parte, isso é verdade. A população acima de 60 anos em Florianópolis aumentou 55% em dez anos. São pessoas com bom nível cultural e boa renda que ajudam a dinamizar a economia local. Esse grupo continua muito bem-vindo à cidade e será recebido com pompa e tapete vermelho. Mas a percepção de que a migração abrange perfis menos desejáveis de moradores vem crescendo. Num levantamento recente da Secretaria de Habitação, constatou-se que 40% dos menores de rua do município vieram de outros Estados para morar nas ruas de Florianópolis. Os 60% restantes vivem em favelas da região, e metade deles pertence a famílias que também vieram de outros municípios ou Estados. Ou seja: a miséria que hoje circula pelos semáforos da capital de Santa Catarina (de uma maneira muito mais discreta do que em outros centros) veio de fora. Alarmada com essa situação, a prefeitura adotou o projeto para controlar a chegada dos novos moradores.

 
Tarcísio Mattos/Tempo Editorial
Triagem na rodoviária: questionário e passagem de volta

O fato é que Florianópolis começa a sentir os efeitos negativos de seu sucesso. Vinte anos atrás, existiam apenas cinco favelas na Grande Florianópolis. Agora são mais de cinqüenta espalhadas pelos morros da ilha. Outra faceta desse crescimento desordenado é a violência. Há vinte anos, o município tinha uma taxa de 4,9 homicídios por 100.000 habitantes. Era um índice comparável ao das cidades mais desenvolvidas do mundo. Mas esse número triplicou, hoje é de 17,2 mortes, e continua a subir. Alheias ao problema, famílias menos favorecidas continuam chegando à cidade em busca de uma vida melhor. Florianópolis realmente apresenta indicadores sociais e econômicos invejáveis. Pelo critério da Organização das Nações Unidas, a Ilha da Magia está entre as cinco cidades do Brasil com melhor qualidade de vida. Isso significa que o município possui indicadores de renda, educação e qualidade de vida de padrão europeu. Aliado a esse quadro, existe um ciclo de desenvolvimento econômico do lugar. A construção civil vem aumentando a impressionantes 10% ao ano. São prédios, shoppings, hotéis e centros de convenção que vêm alterando a paisagem local.

A experiência de Florianópolis repete, em parte, outros fluxos migratórios da história brasileira. Num país como o Brasil, sem conflitos armados nem revoltas populares, os contrastes econômicos foram o principal fator de movimentos populacionais ao longo do século XX. Nas décadas de 50 e 60, milhões de pessoas deixaram o campo e foram rumo às cidades. São Paulo e Rio de Janeiro, os eldorados daquela época, incharam e sofreram com o aparecimento dos efeitos colaterais do progresso: favelas, violência e caos urbano. Hoje, esses grandes centros estão saturados e constata-se um fluxo migratório para cidades de menor porte. Estudos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o segmento da população que mais cresce no Brasil está concentrado em cidades pequenas e médias. De acordo com esse levantamento, as pessoas querem oportunidades econômicas e de qualidade de vida. Florianópolis tem as duas características e, inevitavelmente, será um pólo de migração nos próximos anos. De ricos e pobres – apesar dos esforços seletivos da prefeitura.

 
 
 
 
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