Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

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Alemanha
Linha de montagem
de cadáveres

Médico alemão monta na China uma
fábrica para plastificar mortos e usa
como matéria-prima corpos de chineses
executados


Diogo Schelp


FP
AFP
Preparação de peles humanas na fábrica do médico alemão na China e corpo exposto em Cingapura: negócio macabro

O médico alemão Gunther von Hagens considera-se um gênio. Inventor de uma técnica de conservação de cadáveres, a plastinação, cedo descobriu que podia ganhar dinheiro e fama vendendo defuntos para estudos anatômicos em universidades e organizando mostras de cadáveres com os músculos ressecados, tudo com um viés pretensamente artístico. A exposição Body Worlds (Mundos de Corpos) foi vista por 14 milhões de pessoas em oito países e rendeu 300 milhões de reais em ingressos – além de protestos de organizações religiosas e de sociedades de ética médica. O negócio vai tão bem que, para garantir o suprimento de matéria-prima, o médico precisou montar um tráfico internacional de cadáveres – incluindo os de presos executados pelo governo da China – para abastecer suas linhas de montagem de corpos plastinizados. Hagens e sua esposa, Angelina Whalley, comandam agora três fábricas de mortos, de acordo com a revista alemã Der Spiegel, que publicou um vasto dossiê sobre o assunto na semana passada. A matriz fica em Heidelberg, na Alemanha, e outra está baseada em Bishkek, no Quirguistão, uma ex-república da União Soviética. A maior de todas, a Von Hagens Plastination Ltda., foi construída por 37 milhões de reais em um terreno de 30.000 metros quadrados na cidade chinesa de Dalian e conta com 170 funcionários.


Linha de montagem em Dailan: 600 cadáveres no estoque e trinta funcionários por turno na sala de dissecação

As grandes dimensões do negócio podem ser aferidas por um inventário do estoque da fábrica, obtido pela Der Spiegel. Em novembro de 2003, os empregados chineses de Hagens trabalhavam na preparação de mais de 600 defuntos, 3.900 pedaços humanos, como peles, braços, cérebros e órgãos sexuais, além de 180 fetos, embriões e recém-nascidos. Pelo documento sabe-se que as peças são numeradas e catalogadas por tamanho, idade, sexo e controle de qualidade: "crânio rachado" ou "pescoço quebrado" são observações comuns nas etiquetas do estoque da fábrica. Pedaços defeituosos são amontoados em recipientes de aço ou incinerados. Para montar um corpo completo, Hagens e seus colaboradores juntam um coração de um morto aqui, um fígado de outro ali, tudo modelado e colado como num quebra-cabeça. O resultado é vendido por 240.000 reais a interessados de vários países. Na China, Hagens paga 800 reais por um cadáver. Os corpos mais bem-acabados vão para a mostra Body Worlds. É o caso do cadáver catalogado na fábrica como "fêmea, 1,67 metro de altura, bons músculos, européia, adequada para exposição".


Gunther von Hagens orienta colaboradores: na China, cada defunto custa 800 reais Corpo de chinês plastinizado e fatiado: mau gosto com pretensão de arte anatômica

A fábrica macabra de Dalian está localizada em uma região estratégica da China. Há três penitenciárias agrícolas nas redondezas. Uma delas é de prisioneiros políticos. A Justiça chinesa é pródiga em condenações à morte, inclusive para crimes leves. Funcionários corruptos, batedores de carteira e opositores ao regime comunista costumam ser executados com um tiro na cabeça. Logo depois de aplicada a pena de morte, uma equipe de médicos retira os órgãos dos prisioneiros para ser usados em transplantes. Uma troca de e-mails entre Hagens e seus colaboradores, publicada no Der Spiegel, não deixa dúvida de que a linha de montagem de Dalian é abastecida de cadáveres de presos executados. No dia 29 de dezembro de 2001, por exemplo, poucas horas depois de uma execução pública, o médico chinês Sui Hongjin, gerente-geral da fábrica, informou ao chefe que acabara de receber "dois exemplares frescos, de alta qualidade". Eram os cadáveres de uma mulher e de um homem, ambos com furos de bala na cabeça e com o peito aberto para a retirada dos órgãos. O próprio Hagens concluiu, por e-mail: "São condenados".

Os catálogos das exposições organizadas pelo anatomista informam que os corpos plastinizados são de doadores voluntários. É verdade que há europeus excêntricos que escolheram ser imortalizados pelo processo que substitui os líquidos do corpo por um tipo especial de silicone. Mas os documentos a que tiveram acesso os repórteres alemães indicam que os principais fornecedores de defunto para as fábricas da China e do Quirguistão são delegacias de polícia, asilos de velhos, presídios, hospitais e universidades. Entre 1996 e 2002, a filial do Quirguistão enviou quase 30 toneladas de carne humana (488 corpos inteiros, dez fetos, 431 cérebros e 397 órgãos variados) à matriz alemã. Outro fornecedor é a Rússia. Promotores russos investigam a remessa para a Alemanha de 56 defuntos sem o consentimento da família. Na quinta-feira passada, Hagens convocou uma entrevista coletiva para responder às denúncias da revista alemã. Disse que jamais utilizou condenados à morte na preparação de corpos para exposição e venda. E que, mesmo que isso tenha ocorrido em alguma de suas fábricas, foi sem seu conhecimento.

O médico de 59 anos tem uma trajetória digna do apelido de Dr. Frankenstein que recebeu da imprensa inglesa. Nascido na Alemanha Oriental, ele ficou dois anos preso por tentar fugir para a Europa capitalista. Sua liberdade foi comprada em 1970 pelo governo da Alemanha Ocidental, como era comum nos tempos da Guerra Fria. No lado ocidental, ele formou-se em medicina e patenteou sua técnica de conservação de corpos. Em Heidelberg, o anatomista e sua esposa, Angelina, montaram uma oficina do horror em sua casa, com defuntos e pedaços de gente guardados até na garagem. Começou assim o comércio de corpos plastinizados. Hoje, Hagens diz ter negócios com 400 instituições médicas em quarenta países. Em 1997 foi feita a primeira exposição em Mannheim, na Alemanha, ainda com certo caráter científico e pedagógico. O sucesso foi estrondoso, e, daí em diante, Hagens começou a exagerar. As exibições atuais despertam sensações contraditórias nos visitantes. Por um lado, a possibilidade de ver a complexidade do corpo humano em tantos detalhes é deslumbrante. Por outro, a forma pretensamente artística com que os cadáveres são apresentados é chocante: o que dizer de uma mulher grávida morta, sem a pele e com o feto à mostra, deitada de lado em uma pose sensual? Por sorte, nem todas as instalações imaginadas pelo tétrico doutor são colocadas em prática, talvez por medo de represálias. Em e-mail escrito em 2002, revelado pelos repórteres alemães, Hagens manifesta a idéia de montar em Londres um presépio em tamanho natural – com um feto plastinizado representando Jesus na manjedoura.

O que separa uma ação ética de outra antiética é a intenção que a origina. Os críticos de Body Worlds consideram a exibição itinerante nada mais que um circo de horrores lucrativo sem finalidade científica e, por isso, antiético. Corpos humanos são necessários para o ensino da medicina, mas não devem ser tratados como uma coisa ou um objeto de arte. "Os alunos aprendem a ter um comportamento respeitoso em relação aos cadáveres", diz o médico Serafim Cricenti, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Anatomia. No Brasil, em algumas instituições, reza-se até uma oração antes de iniciar a aula. Hagens, no entanto, transformou a anatomia em espetáculo. Há pouco mais de um ano, ele chegou a fazer uma autópsia pública, com direito a venda de ingressos e transmissão pela televisão. Seu inseparável chapéu preto é inspirado em um professor de medicina retratado em um quadro de Rembrandt. Megalomaníaco, Hagens também se compara a Leonardo da Vinci, o gênio italiano que foi um precursor dos estudos de anatomia, em uma época em que a Igreja proibia a dissecação de cadáveres. Outra de Hagens: ele já deixou registrado o desejo de ser plastinizado e exposto ao público depois de morto. Será sua última jogada exibicionista.

 
 
 
 
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