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Alemanha
Linha
de montagem
de cadáveres
Médico
alemão monta na China uma
fábrica para plastificar mortos e usa
como matéria-prima corpos de chineses
executados

Diogo
Schelp
FP
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AFP
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| Preparação
de peles humanas na fábrica do médico alemão
na China e corpo exposto em Cingapura: negócio macabro
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O médico
alemão Gunther von Hagens considera-se um gênio. Inventor
de uma técnica de conservação de cadáveres,
a plastinação, cedo descobriu que podia ganhar dinheiro
e fama vendendo defuntos para estudos anatômicos em universidades
e organizando mostras de cadáveres com os músculos
ressecados, tudo com um viés pretensamente artístico.
A exposição Body Worlds (Mundos de Corpos)
foi vista por 14 milhões de pessoas em oito países
e rendeu 300 milhões de reais em ingressos além
de protestos de organizações religiosas e de sociedades
de ética médica. O negócio vai tão bem
que, para garantir o suprimento de matéria-prima, o médico
precisou montar um tráfico internacional de cadáveres
incluindo os de presos executados pelo governo da China
para abastecer suas linhas de montagem de corpos plastinizados.
Hagens e sua esposa, Angelina Whalley, comandam agora três
fábricas de mortos, de acordo com a revista alemã
Der Spiegel, que publicou um vasto dossiê sobre o assunto
na semana passada. A matriz fica em Heidelberg, na Alemanha, e outra
está baseada em Bishkek, no Quirguistão, uma ex-república
da União Soviética. A maior de todas, a Von Hagens
Plastination Ltda., foi construída por 37 milhões
de reais em um terreno de 30.000 metros
quadrados na cidade chinesa de Dalian e conta com 170 funcionários.
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| Linha
de montagem em Dailan: 600 cadáveres no estoque e trinta
funcionários por turno na sala de dissecação
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As
grandes dimensões do negócio podem ser aferidas por
um inventário do estoque da fábrica, obtido pela Der
Spiegel. Em novembro de 2003, os empregados chineses de Hagens
trabalhavam na preparação de mais de 600 defuntos,
3.900 pedaços humanos, como peles,
braços, cérebros e órgãos sexuais, além
de 180 fetos, embriões e recém-nascidos. Pelo documento
sabe-se que as peças são numeradas e catalogadas por
tamanho, idade, sexo e controle de qualidade: "crânio rachado"
ou "pescoço quebrado" são observações
comuns nas etiquetas do estoque da fábrica. Pedaços
defeituosos são amontoados em recipientes de aço ou
incinerados. Para montar um corpo completo, Hagens e seus colaboradores
juntam um coração de um morto aqui, um fígado
de outro ali, tudo modelado e colado como num quebra-cabeça.
O resultado é vendido por 240.000
reais a interessados de vários países. Na China, Hagens
paga 800 reais por um cadáver. Os corpos mais bem-acabados
vão para a mostra Body Worlds. É o caso do
cadáver catalogado na fábrica como "fêmea, 1,67
metro de altura, bons músculos, européia, adequada
para exposição".
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| Gunther
von Hagens orienta colaboradores: na China, cada defunto custa
800 reais |
Corpo
de chinês plastinizado e fatiado: mau gosto com pretensão de
arte anatômica |
A fábrica
macabra de Dalian está localizada em uma região estratégica
da China. Há três penitenciárias agrícolas
nas redondezas. Uma delas é de prisioneiros políticos.
A Justiça chinesa é pródiga em condenações
à morte, inclusive para crimes leves. Funcionários
corruptos, batedores de carteira e opositores ao regime comunista
costumam ser executados com um tiro na cabeça. Logo depois
de aplicada a pena de morte, uma equipe de médicos retira
os órgãos dos prisioneiros para ser usados em transplantes.
Uma troca de e-mails entre Hagens e seus colaboradores, publicada
no Der Spiegel, não deixa dúvida de que a linha
de montagem de Dalian é abastecida de cadáveres de
presos executados. No dia 29 de dezembro de 2001, por exemplo, poucas
horas depois de uma execução pública, o médico
chinês Sui Hongjin, gerente-geral da fábrica, informou
ao chefe que acabara de receber "dois exemplares frescos, de alta
qualidade". Eram os cadáveres de uma mulher e de um homem,
ambos com furos de bala na cabeça e com o peito aberto para
a retirada dos órgãos. O próprio Hagens concluiu,
por e-mail: "São condenados".
Os
catálogos das exposições organizadas pelo anatomista
informam que os corpos plastinizados são de doadores voluntários.
É verdade que há europeus excêntricos que escolheram
ser imortalizados pelo processo que substitui os líquidos
do corpo por um tipo especial de silicone. Mas os documentos a que
tiveram acesso os repórteres alemães indicam que os
principais fornecedores de defunto para as fábricas da China
e do Quirguistão são delegacias de polícia,
asilos de velhos, presídios, hospitais e universidades. Entre
1996 e 2002, a filial do Quirguistão enviou quase 30 toneladas
de carne humana (488 corpos inteiros, dez fetos, 431 cérebros
e 397 órgãos variados) à matriz alemã.
Outro fornecedor é a Rússia. Promotores russos investigam
a remessa para a Alemanha de 56 defuntos sem o consentimento da
família. Na quinta-feira passada, Hagens convocou uma entrevista
coletiva para responder às denúncias da revista alemã.
Disse que jamais utilizou condenados à morte na preparação
de corpos para exposição e venda. E que, mesmo que
isso tenha ocorrido em alguma de suas fábricas, foi sem seu
conhecimento.
O
médico de 59 anos tem uma trajetória digna do apelido
de Dr. Frankenstein que recebeu da imprensa inglesa. Nascido na
Alemanha Oriental, ele ficou dois anos preso por tentar fugir para
a Europa capitalista. Sua liberdade foi comprada em 1970 pelo governo
da Alemanha Ocidental, como era comum nos tempos da Guerra Fria.
No lado ocidental, ele formou-se em medicina e patenteou sua técnica
de conservação de corpos. Em Heidelberg, o anatomista
e sua esposa, Angelina, montaram uma oficina do horror em sua casa,
com defuntos e pedaços de gente guardados até na garagem.
Começou assim o comércio de corpos plastinizados.
Hoje, Hagens diz ter negócios com 400 instituições
médicas em quarenta países. Em 1997 foi feita a primeira
exposição em Mannheim, na Alemanha, ainda com certo
caráter científico e pedagógico. O sucesso
foi estrondoso, e, daí em diante, Hagens começou a
exagerar. As exibições atuais despertam sensações
contraditórias nos visitantes. Por um lado, a possibilidade
de ver a complexidade do corpo humano em tantos detalhes é
deslumbrante. Por outro, a forma pretensamente artística
com que os cadáveres são apresentados é chocante:
o que dizer de uma mulher grávida morta, sem a pele e com
o feto à mostra, deitada de lado em uma pose sensual? Por
sorte, nem todas as instalações imaginadas pelo tétrico
doutor são colocadas em prática, talvez por medo de
represálias. Em e-mail escrito em 2002, revelado pelos repórteres
alemães, Hagens manifesta a idéia de montar em Londres
um presépio em tamanho natural com um feto plastinizado
representando Jesus na manjedoura.
O
que separa uma ação ética de outra antiética
é a intenção que a origina. Os críticos
de Body Worlds consideram a exibição itinerante
nada mais que um circo de horrores lucrativo sem finalidade científica
e, por isso, antiético. Corpos humanos são necessários
para o ensino da medicina, mas não devem ser tratados como
uma coisa ou um objeto de arte. "Os alunos aprendem a ter um comportamento
respeitoso em relação aos cadáveres", diz o
médico Serafim Cricenti, vice-presidente da Sociedade Brasileira
de Anatomia. No Brasil, em algumas instituições, reza-se
até uma oração antes de iniciar a aula. Hagens,
no entanto, transformou a anatomia em espetáculo. Há
pouco mais de um ano, ele chegou a fazer uma autópsia pública,
com direito a venda de ingressos e transmissão pela televisão.
Seu inseparável chapéu preto é inspirado em
um professor de medicina retratado em um quadro de Rembrandt. Megalomaníaco,
Hagens também se compara a Leonardo da Vinci, o gênio
italiano que foi um precursor dos estudos de anatomia, em uma época
em que a Igreja proibia a dissecação de cadáveres.
Outra de Hagens: ele já deixou registrado o desejo de ser
plastinizado e exposto ao público depois de morto. Será
sua última jogada exibicionista.
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