Edição 1838 . 28 de janeiro de 2004

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São Paulo
Cesar quer Serra contra Marta

Para o prefeito do Rio, vitória do PSDB em
São Paulo é chave para barrar o poder do PT


Ronaldo França


Ana Araujo
Cesar Maia: aposta em Serra para manter PFL e PSDB no páreo nacional

O prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, do PFL, entrou, na semana passada, no gramado das eleições municipais. Seu pontapé inicial não foi na disputa pelo comando da capital fluminense, na qual, por enquanto, ele próprio é o favorito. Maia, com a bagagem de um êxito eleitoral que já dura doze anos, lançou o nome do ex-ministro da Saúde e presidente do PSDB, José Serra, no caldeirão da corrida pela prefeitura de São Paulo. Em sua avaliação, Serra é o único candidato dos partidos de oposição com chances de derrotar Marta Suplicy. Com isso, o prefeito carioca não está, evidentemente, preocupado com a vida dos paulistanos nos próximos anos. A proposta tem caráter mais abrangente. Parte do pressuposto de que a vitória em São Paulo é o único caminho para deter o crescimento nacional do partido de Lula. "Caso ganhe, o PT se fortalecerá ainda mais politicamente", diz Cesar. Nessa situação, além de vencer a eleição presidencial de 2006, o partido ganharia fôlego para ocupar o poder por muito mais tempo. É isso que Cesar Maia acha bom impedir. Em sua avaliação, como na do alto tucanato, José Serra é o nome mais forte para essa disputa. É um administrador capaz, como demonstrou à frente do Ministério da Saúde no governo FHC, e carrega os dividendos da última campanha à Presidência da República, em que teve 39% dos votos válidos no segundo turno. Seria o candidato perfeito para desalojar Marta Suplicy da prefeitura paulistana.

No tabuleiro político brasileiro, a prefeitura de São Paulo ocupa lugar de destaque. Não apenas porque detém o sexto maior orçamento público do Brasil, mas porque uma vitória eleitoral na maior capital do país assegura ao vencedor a atenção da mídia nacional e, portanto, uma exposição pública superior à que boa parte dos governadores pode alcançar. Quem pilotar essa máquina terá nas mãos ferramenta capaz de ajudar até na eleição presidencial. O prefeito do Rio investiu-se, nas últimas semanas, da missão de demonstrar a seus companheiros de partido e aliados a necessidade de jogar pesado na capital paulista. "É minoritária no PFL e majoritária no PSDB a corrente que acredita que 2006 seja uma eleição já perdida. Isso é um erro que não se pode cometer", avalia. A solução passa por uma estratégia de enxadrista. O nome do presidente do PSDB, acredita Maia, é capaz de mobilizar as atenções nacionais. Daria à disputa um ar de revanche. Seria novamente o PT contra o PSDB e, na projeção, "Lula contra Serra", uma vez que o governo federal está claramente empenhado na reeleição de Marta. Assim, mais do que uma vitória do PSDB, o êxito de Serra significaria a derrota de Lula sob holofotes vigorosos. "A percepção será a de que ele terá perdido as eleições como um todo, mesmo que ganhe em outras capitais", afirma.


Epitácio Pessoa/Agência Estado/AE
Ana Araujo
Marta: obras e propaganda melhoram as chances da prefeita à reeleição Serra: atenção às pesquisas de opinião e possibilidade de entrar na disputa

Toda essa arquitetura esbarra numa parede: é preciso que Serra esteja de acordo. E o ex-ministro já declarou publicamente que não concorrerá à prefeitura de São Paulo. Mas, nas últimas semanas, passou a admitir, em círculos restritos, a possibilidade de pensar no assunto. Poderá até seguir esse caminho, desde que as pesquisas indiquem chance de êxito. Serra tem acompanhado de perto as avaliações de intenção de voto em São Paulo e deverá decidir seu futuro em maio. É uma escolha difícil. Aos 61 anos, o ex-ministro da Saúde nunca venceu uma eleição majoritária. Perdeu duas vezes a disputa pela prefeitura e uma para a Presidência da República. "Uma nova derrota seria o fim", avalia o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro. Segundo a última pesquisa do instituto Datafolha na capital paulista, realizada há pouco mais de um mês, Serra, com 20% das intenções de voto, empata com Paulo Maluf (PP). E os dois estão tecnicamente empatados com Marta, que tem 18% das preferências. Mas, quando o nome de Maluf é retirado, Serra aparece isolado em primeiro lugar, com 28% dos votos. A entrada de Maluf no jogo é, portanto, providencial para o governo.

Nas pesquisas sobre o desempenho de seu governo, Marta esteve muito mal no primeiro ano do mandato. No momento, cerca de 30% da população diz que seu governo é "bom" ou "ótimo" – índice considerado por especialistas bastante satisfatório numa metrópole complexa como São Paulo. A tendência é de crescimento da aprovação. Segundo as pesquisas qualitativas do Ibope, os eleitores pobres adoram o estilo "perua-chique-na-favela" com que a prefeita desfila seus modelitos por ruas poeirentas. Marta tem um dos maiores e mais caros guarda-roupas da República, provavelmente de todas as repúblicas latino-americanas. Esse é outro dos paradoxos petistas. Nos últimos meses, seu desempenho foi turbinado por uma forma de populismo de betoneira. Um programa de obras públicas digno de pós-guerra combinado com investimentos pesados em propaganda. "A prefeita tem um governo Suplicy e um totalmente Marta", diz Maia, em referência ao que considera duas apostas eleitorais da petista. No primeiro ano de governo, a prefeita instituiu um programa de renda mínima – obsessão de seu ex-marido, o senador Eduardo Suplicy. Seu índice de aprovação não saiu do lugar. Então, ela passou a investir suas fichas na dobradinha obras públicas e marketing. De acordo com um levantamento do ex-deputado federal José Aníbal, do PSDB, Marta utilizou 165% do que estava previsto no orçamento em propaganda para o ano de 2003 – enquanto áreas como saúde e educação receberam menos de 40%. Resultado: melhora nas pesquisas. É justamente porque a prefeita tem chances no jogo que Cesar Maia quer entrar de sola no esburacado campo da cidade de São Paulo.

 
 
 
 
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