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Diogo
Mainardi
O
pior é melhor
"É
uma sorte que São Paulo seja tão pouco
musical. A
música popular constitui o maior
fator de atraso no Brasil. Quanto mais musical
é uma região, mais subdesenvolvida ela é"
Desde
cedo a única meta que eu tinha na vida era ir embora de São
Paulo. Fracassei em minha primeira tentativa migratória.
Fracassei na segunda. Na terceira, deu certo. Fui embora e nunca
mais voltei.
Depois
de tantos anos de afastamento, finalmente me reconciliei com a cidade.
Aprendi a reconhecer seus méritos. O maior deles é
despertar o sentimento de repulsa em seus habitantes. São
Paulo é tão detestável que somos estimulados
a rejeitar nossa origem, a buscar lá fora o que não
podemos encontrar aqui dentro. Parece pouco. Não é.
São Paulo não acomoda. Ela nos deixa num permanente
estado de insatisfação e precariedade. O paulistano
não é apegado a nada. Está sempre de malas
prontas, disposto a abandonar oportunisticamente tudo o que lhe
pertence: sua cidade, seu país, sua família, suas
idéias. Não temos o sentido de coletividade: não
sabemos votar, não sabemos respeitar as regras, não
sabemos pensar no próximo, não sabemos cumprir os
acordos. Em compensação, conseguiríamos nos
adaptar com facilidade a um holocausto nuclear. Pena que a perspectiva
de um holocausto nuclear seja cada dia mais remota.
A
música é o mais importante elemento de identidade
nacional. Em São Paulo, a falta de sentido de coletividade
nos impediu de desenvolver um estilo musical. Ao contrário
do resto do Brasil, não temos ritmos próprios, não
temos artistas de peso. Nosso ouvido é duro. Na festa de
aniversário da cidade, o melhor que conseguimos apresentar
foi o grupo Demônios da Garoa. Caetano Veloso também
homenageou a cidade, mas ele não conta, porque é baiano
e, sobretudo, porque homenageia qualquer lugar. Ele já homenageou
Londres, Barcelona, Nova York, São Francisco e Brasília.
Já homenageou até TelAviv. Caetano Veloso é
como Lamartine Babo, que escreveu os hinos de todos os times de
futebol do Rio de Janeiro.
É
uma sorte que São Paulo seja tão pouco musical. A
música popular constitui o maior fator de atraso no Brasil.
Quanto mais musical é uma região, mais subdesenvolvida
ela é. A musicalidade dos brasileiros está diretamente
relacionada com as epidemias de leishmaniose, os esgotos a céu
aberto, os desmoronamentos de favelas. São Paulo é
a cidade mais rica do Brasil simplesmente porque não entende
nada de música, porque não fica sentada em banquinho
de violão. Os compositores de música popular, agora,
publicam livros com todas as suas letras. Quem consegue compreender
o significado dessas letras nunca irá aprender a construir
uma ponte, ou a planejar o escoamento de um milharal, ou a obturar
um dente cariado. Um conhecimento anula o outro.
O
Brasil se reconhece no sentimentalismo mais ordinário, no
verso mais incongruente, na batida mais simplória. Fomos
ensinados que a música nos ajudou a resistir a todos os tipos
de autoritarismo. Mentira. A música é um instrumento
de dominação. Tanto que todos os partidos políticos
criam seus sambinhas para o horário eleitoral. Se até
o PTB tem seu sambinha, é sinal de que há algo errado
na MPB.
São
Paulo é a pior cidade do Brasil. Mas nós, paulistanos,
até que temos a nossa graça: não levamos jeito
para a música, o que nos torna, tudo somado, um pouco menos
brasileiros.
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