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Entrevista:
Celso
Amorim
Dá
para ser em 2004
O ministro das Relações Exteriores
diz que é possível um acordo sobre
a Alca ainda neste ano, mas, se os
Estados Unidos forçarem demais,
as coisas param

Eurípedes
Alcântara e Vilma Gryzinski
Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores, é
a encarnação viva do diplomata brasileiro padrão:
culto, preparado, educado e barbudo. Embora os pêlos
faciais não sejam automaticamente uma declaração
política de terceiro-mundismo, política externa não-alinhada
(o termo do momento é "altiva") e outros surtos ocasionais
que varrem o Itamaraty, o chanceler tem participação
ativa e assumida nas iniciativas diplomáticas mais espalhafatosas
do governo Lula. Incluem-se na lista a visita à Líbia
de Muamar Kadafi, o exterminador de passageiros inocentes ("A ONU
não o considera mais um promotor do terrorismo"), e o fichamento
de turistas americanos em nome do princípio da reciprocidade
("Pergunte quantos brasileiros vão aos Estados Unidos e são
tratados de modo inadequado"). Tudo isso são detalhes. Importante
mesmo, para o país e para culminar a carreira desse diplomata
apaixonado por xadrez e saudoso da era do cinema novo e da
Embrafilme, da qual foi diretor-geral , são as negociações
sobre a Alca, das quais ele é o principal condutor: "O ritmo
das negociações é de xadrez, e não de
Copa do Mundo".
Veja Em todos os seus anos como diplomata profissional,
o que o senhor aprendeu sobre os americanos?
Amorim Que eles só respeitam quem se respeita.
Quem defende seu interesse, sem ser antiamericano, eles respeitam.
Quando é um interesse legítimo, e não apenas
um jogo para a platéia, eles respeitam. Tenho essa experiência
tanto em negociações comerciais quanto políticas.
Quando eu estava no Conselho de Segurança da ONU, chegamos
a uma conclusão com base na proposta que o Brasil fez. O
embaixador americano me disse que nós o chateamos pra burro,
mas que sem o Brasil não ia sair resolução
alguma. Você precisa ter uma opinião baseada em princípios
e interesses, e seguir seu rumo com equilíbrio. Se é
submisso, você é descartado, ninguém liga para
o que você faz. Por outro lado, se é estridente, retórico,
também não se configura como um interlocutor válido.
A arte da diplomacia é defender o interesse nacional e fazer
isso de modo humanista e equilibrado.
Veja O fichamento de turistas americanos, determinado
em represália à iniciativa dos Estados Unidos, preenche
esses requisitos?
Amorim Isso não foi iniciativa do Itamaraty.
Foi uma decisão judicial. Mas a reciprocidade é a
base das relações humanas. Não adotamos a identificação
de passageiros americanos para tratá-los mal, mas para incentivar
outras pessoas a não nos tratar mal. A reciprocidade não
tem de ser automática nem absoluta. Pergunte quantos brasileiros
vão aos Estados Unidos e são tratados de modo inadequado.
São vários. O fichamento de brasileiros foi a gota
d'água.
Veja
A agressão brutal sofrida pelos Estados Unidos não
explica o rigor da medida?
Amorim Ninguém
pode ignorar a agressão que eles sofreram nem querer ensiná-los
como impedir que ocorra de novo. Mas o fato é que eles deram
um prazo para alguns países se adaptarem e terem um passaporte
seguro e não precisarem de visto. O nosso passaporte tem
problemas, não é o ideal, mas não tivemos esse
prazo. Nós queremos esse tratamento também. Nenhum
terrorista partiu do Brasil para atacar os Estados Unidos, com quem
compartilhamos longa história de convivência pacífica
e com quem lutamos lado a lado na II Guerra Mundial.
Veja Em uma escala de zero a 100, quais as chances
de o governo conseguir que os americanos aceitem nos dar o tratamento
que o senhor considera ideal?
Amorim Se eu entrasse em qualquer negociação
pensando numa escala de zero a 100, nem começaria. Quem entra
achando que vai ser derrotado vai ser derrotado. Se entra com uma
dose de confiança, pode empatar, e até ganhar o jogo.
O nosso objetivo tem de ser o mais próximo do máximo
que se possa obter, mas se conseguirmos algo intermediário
não é ruim. O impasse é que deve ser evitado.
Todo mundo sabe que os empecilhos para o Brasil não são
decorrentes de uma ameaça terrorista, mas relacionados à
imigração. Os Estados Unidos, porém, não
admitem isso claramente.
Veja
Por que as autoridades americanas deveriam se preocupar
com um problema cuja causa é a falta de oportunidades econômicas
no Brasil se foi isso que levou quase 1 milhão de brasileiros
a procurar vida melhor nos EUA?
Amorim A imigração ocorre no mundo inteiro,
não é um problema fácil. Mas com a Europa chegamos
a um acordo. Tem-se de abrir a discussão. O ideal seria eliminar
o visto, mas, se você tiver um controle adequado da entrada,
é uma solução para o meio do caminho. O que
pedimos aos Estados Unidos é o estabelecimento de um tratamento
adequado às pessoas.
Veja Atritos do gênero indicam uma recaída
na velha política de não-alinhamento, que é
outra expressão para a animosidade com os Estados Unidos?
Amorim Não há nenhuma estratégia
terceiro-mundista por parte do Brasil. Não queremos trocar
o Primeiro pelo Terceiro Mundo. O Brasil quer alargar as suas parcerias.
E tem obtido resultados com isso. Exportamos para a China, para
a Índia. E isso nos reforça na negociação
com os países ricos. Não queremos recriar a velha
UNCTAD (a Conferência das Nações Unidas para
o Comércio e Desenvolvimento, que nos anos 70 se tornou um
fórum global de oposição aos Estados Unidos),
fazer uma gritaria, confrontação. Estamos participando
das negociações na Organização Mundial
do Comércio, a OMC. Na última reunião da OMC,
uniram-se pela primeira vez os objetivos de justiça social
e livre-comércio. Até então havia aqueles que
diziam que o livre-comércio era bom e depois viria a justiça
social. Estamos mudando a geografia da negociação
comercial do mundo, e queremos negociar de maneira equilibrada.
Não estamos contra nenhum país, mas a favor dos nossos
interesses.
Veja Mudar a geografia comercial do mundo, como
o presidente Lula disse pretender fazer, não é retórica
inútil, palavras ao vento?
Amorim Política é feita de muitas coisas,
inclusive de imagens que sejam fáceis de captar.
Veja
Com que cara o Brasil se apresentará em Washington
se, no caso de uma nova crise financeira, precisar pedir ajuda ao
governo americano?
Amorim Primeiro, precisamos evitar a crise. É
a coisa mais inteligente a fazer. A política de criar saldos
comerciais altos é muito positiva. Deixar o endividamento
crescer como cresceu, com déficit de 30 bilhões de
dólares nas transações correntes, foi um perigo.
Reduzindo isso, você reduz as possibilidades de crise. Também
temos de trabalhar multilateralmente. Acho que tem de haver critérios
multilaterais, e isso não impede que nossas relações
com os EUA sejam boas, como efetivamente são. Não
estamos peitando, mas buscando soluções na Alca. Ninguém
está dizendo "Alca não!" Além disso, é
preciso considerar que o Brasil é um país muito importante
sistemicamente. A Argentina do governo Menem não peitou em
nada os EUA e foi deixada à própria sorte porque era
menos importante sistemicamente. O mundo é cruel.
Veja
Os americanos não podem concluir que está
na hora de mostrar um pouco mais as garras para o Brasil?
Amorim Não concordo. Eles nos olham como parceiros.
Eu nunca senti uma atitude de cobrança nas minhas conversas
com o (secretário de Estado) Colin Powell. Conversamos
inclusive no sentido de não deixar as relações
comerciais atrapalhar as nossas relações diplomáticas.
Em relação à América do Sul, há
uma atitude positiva. Eles sabem que nossa política é
de democracia, de estabilizar o sul do continente. As formas não
são as mesmas. Mas os valores básicos são os
mesmos. Quando dois povos têm os mesmos valores básicos,
como é o caso de Brasil e Estados Unidos, as discordâncias
não produzem confronto. São até necessárias.
Veja
Qual a lógica em visitar um país como a Líbia,
de nenhuma importância estratégica, cujo ditador, Muamar
Kadafi, no passado mandou explodir dois aviões lotados de
homens, mulheres e crianças inocentes?
Amorim Nas relações internacionais há
uma série de coisas que temos de equilibrar. Se você
for ter relações só com aqueles que considera
virtuosos, talvez não saia de casa. Aliás, na vida
é assim também. Nós temos de levar em conta
uma série de fatores. Nenhuma das partes interessadas, EUA,
França e Inglaterra, se opôs a que a ONU deixasse de
considerar um promotor do terrorismo.
Veja
Em assuntos desse nível, por exemplo, o que
é decidido por iniciativa sua e o que é vontade do
Planalto?
Amorim Executo a política externa determinada
pelo Planalto. Mas eu lhe garanto que se não estivesse de
acordo não a executaria. Já tive todos os cargos que
poderia ter na carreira diplomática, não quero me
perpetuar nela. E se executo e ajudo na formulação
da política externa é porque tenho total afinidade
com os objetivos traçados pelo presidente Lula.
Veja O ministro Antonio Palocci disse que só
aceitaria ser ministro se Lula lhe garantisse que não haveria
assessores palacianos opinando sobre política econômica.
Em política externa, há muitos. Isso atrapalha?
Amorim Acho que política externa é que
nem cinema na Embrafilme: todo mundo dá palpite. Isso não
atrapalha. Acaba prevalecendo a linha mais serena, que dá
ênfase ao interesse nacional.
Veja Os EUA farão a Alca mesmo sem o Brasil?
Amorim Não. Eles podem ir fazendo acordos bilaterais,
mas vai ser muito mais complexo do que parece. Os países
andinos são muito mais sensíveis às questões
agrícolas que o Brasil. Acho que os sinais de negociação
são mais políticos, porque eles sabem que os assuntos
são muito mais complexos do que parecem. O Mercosul está
muito unido. O Brasil quer a Alca, mas há países que
não querem. Mas o Brasil quer no devido tempo. A Alca não
sai sem Brasil e Argentina. É a mesma coisa que querer fazer
um acordo com a Ásia e dizer que a China e a Índia
estão fora. Isso foi compreendido e refletido em Miami. Se
seguirmos a trilha feita em Miami, temos uma boa chance de terminar
a Alca ainda neste ano. Talvez alguma coisa fique para o futuro.
O próprio Mercosul, que começou muito antes, ainda
não está completo.
Veja Como será a Alca possível?
Amorim A Alca que estiver concentrada no acesso a
mercados e que tenha algumas regras gerais, mas que respeite a capacidade
dos países de terem seus próprios modelos de desenvolvimento.
No caso das compras governamentais, por exemplo. A Petrobras tem
uma política de aquisição de equipamentos para
as plataformas de petróleo com preferência para o Brasil.
Depois, pode ter para o Mercosul. Se você não permitir
isso, fecha a opção de política de desenvolvimento.
Nós também não somos contra as patentes, somos
a favor. Também somos contra a pirataria. O Brasil, com a
União Européia, foi contra os EUA porque eles não
respeitam certos direitos autorais. E eu não quero que uma
dificuldade, como combater a pirataria, acabe gerando uma retaliação
no suco de laranja, por exemplo. Queremos uma Alca ampla, mas equilibrada.
Porque senão vai ser uma área para limitar o comércio,
e não para ampliá-lo.
Veja Qual o ponto inegociável?
Amorim O acesso a produtos agrícolas é
um ponto delicado. A parte mais substancial dos subsídios
agrícolas vamos ter de discutir na OMC. Mas se eles não
aceitarem diminuir o subsídio dos produtos que exportam para
o Brasil, e não derem compensações em acesso
a mercados para nossos produtos agrícolas, vai ficar difícil.
E se por outro lado exigirem de nós políticas que
limitem a nossa capacidade de ter um desenvolvimento tecnológico,
ambiental será muito difícil. O problema não
é se entra o tema ou não, como propriedade intelectual
mas a forma como entra.
Veja
O que o exemplo do México deixa de lição?
Amorim O México vem passando por um grande
problema. A China está tomando os investimentos que antes
iam para o México, já que as maquilladoras são
investimentos sem raiz. Precisamos fazer com que os investimentos
se enraízem no Brasil. E não tem problema se for empresa
estrangeira. O México continua dizendo que o Nafta foi bom,
mas já começa a rever várias coisas. Com o
exemplo mexicano vamos tentar evitar o que deu errado, aprendendo
com o que deu certo.
Veja E o que o Brasil aceita perder na Alca?
Amorim Não aceitamos perder a dignidade. Não
vamos aceitar modelos que vêm prontos, tudo tem de ser negociado.
O que acontecia antes era uma falsa negociação. As
coisas vinham vindo e, no máximo, eram postergadas. A principal
barreira, os subsídios, os EUA não discutiam. O problema
é a maneira como as coisas vão entrar. Os temas de
natureza normativa e sistêmica têm de ir para a OMC,
é mais lógico e é correto legalmente. Não
tem sentido ter uma regra de propriedade intelectual para os EUA
e outra para a União Européia. O mesmo vale para normas
de investimentos e serviços. Agora, acesso a mercados é
ponto de negociação. Nós temos na Alca uma
negociação difícil na parte de acesso a mercados.
Veja
O mundo hoje é um lugar mais complicado para
viver?
Amorim Não dá mais para ter visões
esquemáticas do mundo. Com a discussão sobre os grandes
blocos Estados Unidos, União Européia e China
, o Brasil, mesmo grande, está marginal. O Brasil precisa
procurar se estender para outros países. A idéia é
se reunir para negociar melhor, e não para confrontar. Robert
Zoellick (o duro representante comercial americano), que
considero meu amigo e com quem tenho um diálogo bom e afinidade
intelectual, me disse que os embates em Cancún ajudaram a
melhorar os pontos de vista, a procurar outros caminhos. Não
podemos nos deixar levar pela emoção. Devemos ter
a frieza de um jogador de xadrez.
Veja As eleições nos Estados Unidos
não vão paralisar o processo?
Amorim A política internacional sempre
continua, nunca acaba. Eu prefiro terminar a Alca neste ano. Mas
pode ser que haja assuntos que fiquem para a segunda etapa. Se quiserem
forçar demais, os EUA não vão conseguir. Não
só com o Brasil, mas também com os outros países.
Veja
O livre-comércio, idealmente, conduz à
prosperidade?
Amorim Acredito que o livre-comércio, hoje,
é uma bandeira progressista. Acho que contribui para a justiça
social, desde que seja verdadeiramente livre, nos dois sentidos.
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