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Em
foco: Sérgio Abranches
Reformar
o quê?
"Não
ajudaria mais mudar o padrão de comportamento na formação
do governo
e sua coalizão e trocar a adesão fisiológica
pelo compromisso político público?"
A reforma
política sobre a qual tanto se fala, e sai dia entra dia
o governo diz querer votar, teria realmente impacto relevante na
melhoria da governança no Brasil?
Ilustração Ale Setti
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Os três temas que, aparentemente, formariam consenso seriam:
financiamento público de campanhas, votação
em lista partidária fechada e proibição de
mudança de partido. Todos parecem fazer sentido. Mas fazem
mesmo? É simples assim? Não haveria efeitos colaterais
negativos? Eu estou no time dos incrédulos.
O
argumento a favor do financiamento público é que ele
eliminaria a influência do poder econômico nas campanhas,
tornaria mais igualitárias as chances de eleição
e reduziria a corrupção.
Para
mim, a versão real do financiamento público pode ser
a seguinte: vai aumentar o gasto público, à custa
do meu, do seu, do nosso dinheirinho, levado à pesada conta
dos impostos. Quem tem acesso a fundos privados encontrará
caminhos para continuar a se beneficiar deles. Aumentará
o número de candidatos, pois muitos vão querer participar
da partilha dos fundos públicos. As disparidades de poder
econômico persistirão e ficarão ainda menos
transparentes. A parcela das campanhas financiada por baixo dos
panos vai crescer.
Por
que o meu dinheiro deve ser taxado para financiar campanha dos outros,
inclusive daqueles que eu não gostaria de ver eleitos? Por
que não criar mecanismos mais transparentes e confiáveis
de levantamento de fundos voluntários para financiar campanhas,
sem passar pelo Tesouro compulsório de nossas rendas?
O
argumento a favor da lista partidária é que o voto
é dado aos partidos e, portanto, os fortaleceria. Partido
forte seria um requisito indispensável à democracia
e à governabilidade. Parece fazer todo sentido, não?
Para
mim, a versão real da adoção da lista fechada
pode ser a seguinte: sairão fortalecidos os chefes partidários,
não os partidos. A lista fechada permitirá que os
barões partidários controlem todas as vagas para cargos
proporcionais, vetando rivais e impedindo a renovação.
Em vez de mais democracia e partidos mais fortes, mais oligarquia
e partidos mais fisiológicos. Basta examinar o comportamento
de qualquer partido brasileiro, inclusive o PT de agora. É
só ler os programas: eles não indicam o que seria
o governo do partido. São genéricos, cabem em qualquer
posição. A exceção é o PT, cujo
programa não caberia na posição governista
atual. Pede-se fidelidade a que mesmo?
O
argumento a favor da proibição de troca-troca partidário
é que o mandato é do partido pelo qual o político
foi eleito, não pessoal. É preciso ter fidelidade
partidária, para que tenhamos partidos fortes e mais democracia.
Para
mim, a versão real da medida pode ser: menos fidelidade partidária,
mais chantagem e mais instabilidade. Todo governo e o atual
mais que os anteriores estimula o troca-troca, para conseguir
formar uma coalizão majoritária, cooptando parlamentares
adesistas, filiados a partidos de oposição, para partidos
aliados. Não sendo permitida a troca de legenda, o governo
do dia manterá o processo de cooptação. Mas,
desta vez, formando facções adesistas em partidos
oposicionistas. E se os partidos fecharem questão e ameaçarem
de expulsão os parlamentares? Das duas, uma: ou a lei permite
que troquem de partido nesses casos, logo fica tudo como dantes;
ou eles perdem o mandato e o governo, a maioria. Em ambos os casos,
os partidos terão maior poder de chantagem sobre o governo.
Presidente minoritário é sinônimo de paralisia
decisória, instabilidade e crise. E lá se vai barranco
abaixo a governança democrática sólida que
se queria implantar.
Nas
melhores democracias multipartidárias, a maioria se forma
por contrato, e não por cooptação. Um contrato
que estabelece o programa de governo e a pauta legislativa que os
partidos se comprometem, formalmente, a apoiar. Aqui, o governo
chama de programa de governo a peça de marketing que usa
como recurso de campanha presidencial e depois quer fidelidade para
votações que não foram discutidas nem contratadas.
Quem sabe mudando o padrão de comportamento na formação
do governo e sua coalizão, trocando a adesão fisiológica
pelo compromisso político público, ajudaria mais?
Vamos
falar sério. O problema não é de lei. É
de comportamento. Com as leis que temos, se houvesse a estrutura
de incentivos e desincentivos sociais apropriada, mudava-se o comportamento.
A política é a cara da sociedade, mesmo que esta queira
manter a ilusão de que é melhor do que a política
que engendra. Afinal, onde se locupleta um, locupletam-se todos.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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