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Edição 1988 . 27 de dezembro de 2006

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DVDs

Blade Runner – Versão Original do Diretor (Estados Unidos, 1992. Warner) – O inglês Ridley Scott nunca escondeu sua irritação com a forma como o estúdio o obrigou a lançar sua ficção científica nos cinemas. O diretor odiou a narração em off de Harrison Ford e se revoltou com a exigência por um final mais ou menos feliz – no qual o caçador de andróides interpretado por Ford escapa em companhia da replicante Rachael (Sean Young). Em 1992, portanto, Scott remontou o filme de acordo com suas convicções, aparando a narração e mudando o desfecho. Esse é o Blade Runner que se tem aqui remasterizado, e que é um clássico por seu próprio direito. Os espectadores mais econômicos, porém, talvez prefiram aguardar a nova e supostamente definitiva montagem que o cineasta prepara para 2007.

Grease – Rockin' Edition (Estados Unidos, 1978. Paramount) – A mocinha australiana Sandy (Olivia Newton-John) vai passar uma temporada numa escola americana, nos anos 50. Seguem-se: um vendaval de paixões envolvendo Sandy e o bad boy Danny Zuko (John Travolta); e vários números musicais tornados eternos pelas coreografias animadas e canções grudentas, como You're the One that I Want. Adaptado de um musical da Broadway e interpretado por um elenco de "adolescentes" entre os 20 e os 30 anos, Grease é uma lição acerca da futilidade de arriscar previsões sobre quais aspectos da cultura pop resistirão ou não ao teste da história. No fim da década de 70, ele foi visto como uma febre passageira. Quem diria que essa confecção kitsch e ligeira teria um apelo tão duradouro quanto Taxi Driver ou O Poderoso Chefão?

Divulgação
Carros: uma ode ao tempo perdido


Carros
(Cars,
Estados Unidos, 2006. Buena Vista) – John Lasseter, o cérebro genial que impulsiona a Pixar, decidiu voltar à direção de um desenho com Carros: é um apaixonado por automóveis, pelas velhas estradas que cortavam o interior americano, como a Rota 66, e tem algo em comum com seu protagonista – Relâmpago McQueen, um impaciente carro de corrida que se vê extraviado numa cidadezinha onde tempo é o único artigo que existe em abundância. Como é hábito em se tratando de desenhos animados, o lançamento vem repleto de extras que mostram a criatividade e o trabalho insano exigido dos animadores. A jóia da coroa, porém, é o curta One Man Band, em que dois homens-banda disputam a esmola de uma garotinha incrivelmente brava.

Chris Large/AP
Rastro Perdido: choque cultural no Velho Oeste


Rastro Perdido
(Broken Trail,
Canadá, 2006. Sony) – Na década de 1890, dois vaqueiros, tio e sobrinho (Robert Duvall e Thomas Haden Church), empenham tudo o que têm para atravessar o Oeste levando uma manada de cavalos. Mal se põem na trilha, eles se vêem transformados nos galantes (e involuntários) salvadores de cinco moças chinesas compradas para trabalhar como prostitutas. Elas não falam uma palavra de inglês, e eles, obviamente, também não entendem uma palavra de chinês. Desse entrecho, o diretor Walter Hill, infelizmente um dos últimos entusiastas do faroeste, tira um filme excelente – forte na compreensão da violência, belo na admiração pela natureza e delicado no trato com as diferenças entre os americanos rudes e suas protegidas.

Coleção Marlon Brando (Warner) – O discurso de Marco Antônio aos pés do recém-assassinado imperador é o ponto alto do Júlio César de William Shakespeare – e não é pouca coisa, então, que Marlon Brando faça jus a ele sílaba por sílaba. Só um momento como esse, registrado na adaptação cinematográfica do diretor Joseph L. Mankiewicz, já valeria uma coleção inteira. Essa caixa com três DVDs, entretanto, inclui ainda outro trabalho soberbo de Brando. Em O Pecado de Todos Nós, dirigido por John Huston em 1967, ele faz um militar que sai dos trilhos à medida que sua homossexualidade aflora. Completa a coleção uma daquelas extravagâncias dramáticas de Brando – um pequeno papel como um tenebroso magnata do petróleo em A Fórmula, um thriller decente, mas não exatamente memorável.

Terry O'Neill/Hulton Archive/Getty Images
Stones: glória e embaraços


The Rolling Stones Truth and Lies
(Estados Unidos, 2005. ST2) – O quarteto liderado pelo vocalista Mick Jagger e pelo guitarrista Keith Richards possui memória seletiva. A dupla se lembra de cada momento de glória dos Rolling Stones, mas encontra dificuldade em recordar as situações embaraçosas de sua carreira. O mérito dessa biografia não autorizada é trazer uma história detalhada do grupo: de sua criação, em 1963, à turnê Four Licks, de 2003. Jagger e Richards não liberaram o uso das canções dos Rolling Stones, mas essa lacuna não chega a prejudicar o documentário. Há fartas cenas de arquivo – as melhores são as entrevistas coletivas, em que Jagger destila sua ironia –, uma explicação minuciosa do impacto que eles causaram e uma recapitulação das numerosas confusões do grupo com a lei.

Herman Leonard/Getty Images
Art Blakey: cenas raras de mestres do jazz


Jazz Icons,
vários intérpretes (Estados Unidos, 2006. TDK Video) – O grupo liderado pelo baterista Art Blakey executa Moanin' logo depois de tê-la gravado em estúdio; Thelonious Monk, um dos pais do bebop, mostra seu poder de improvisação em duas versões de Lulu's Back in Town; o baterista Buddy Rich quebra tudo no solo de Channel One Suite. Essas e outras imagens raras são o atrativo de Jazz Icons, coleção de nove DVDs importados, que podem ser adquiridos separadamente ou numa caixa especial. O desfile de astros do gênero, que inclui também nomes como Ella Fitzgerald e Chet Baker, torna-se ainda mais saboroso graças à boa qualidade das imagens e ao cuidado com a edição.

 

DISCOS

 
Erich Auerbach/Getty Images
Pedro Rubens
Haitink: segredo bem guardado

Beethoven: Symphonies 1-9, Bernard Haitink e Orquestra Sinfônica de Londres (LSO Live) – O regente holandês Bernard Haitink é um dos segredos mais bem guardados da música erudita. Ele não tem o dom para o marketing de Lorin Maazel (atual diretor artístico da Filarmônica de Nova York) nem a vaidade de um Riccardo Muti (ex-Scala de Milão). Mas sabe como poucos acertar uma orquestra. É o que se verifica nesse ciclo de sinfonias de Beethoven, gravado com a Sinfônica de Londres. O maestro consegue imprimir seu estilo ao grupo – como na Sexta Sinfonia (também conhecida como Pastoral), em que o andamento cadenciado faz com que o ouvinte perceba cada detalhe da natureza imaginada por Beethoven – e também dá atenção devotada a obras menos badaladas, como a Quarta e a Oitava sinfonias.

Choro Carioca: Música do Brasil, vários intérpretes (Acari Records) – A caixa de nove CDs dá continuidade ao projeto Princípios do Choro, lançado cinco anos atrás. O trabalho anterior continha quinze CDs, com músicas de compositores nascidos entre 1830 e 1880. Já Choro Carioca traz 74 músicas de autores nascidos até 1910. Um grupo encabeçado pelos instrumentistas Mauricio Carrilho e Luciana Rabello, também mentores do projeto, recuperou as partituras originais e registrou-as em estúdio. O que chama atenção na caixa é a mudança gradual do choro para o que mais tarde se tornaria conhecido como samba – não é à toa que Donga, autor do primeiro samba da história, comparece com três composições.

 
Kevork Djansezian/AP
Salonen: agora, em versão eletrônica

Deutsche Grammophon Recomposed, de Jimi Tenor (Universal Classics) – Respeitado entre os fãs de música eletrônica, o DJ finlandês Jimi Tenor embarcou num projeto ousado. Ele foi convidado a pesquisar o acervo de música moderna e contemporânea do selo alemão Deutsche Grammophon, um dos mais tradicionais do mundo erudito, e dar seu toque pessoal às composições. Tenor inseriu percussão e teclados nas obras, tornando-as propícias para a execução numa pista de dança. Se isso parece improvável, basta conferir Repóns, de Pierre Boulez, e Ionisation, tema de percussão de Edgar Varèse. O DJ, porém, não tirou o caráter inovador dessas obras. A faixa Wing on Wing, por exemplo, possui o mesmo clima etéreo imaginado por seu autor, o maestro finlandês Esa-Pekka Salonen.

 

LIVROS

Rebelião em Nova York, de Kevin Baker (tradução de Vitoria Mantovani; Record; 700 páginas; 69,90 reais) – Em 1863, Nova York foi abalada por violentos tumultos populares. A população da cidade, em especial os imigrantes irlandeses, revoltava-se contra as leis de alistamento obrigatório para a guerra civil. O episódio já foi retratado por Martin Scorsese em Gangues de Nova York, um de seus filmes mais irregulares. O dublê de historiador e romancista Kevin Baker conseguiu resultados bem melhores nesse romance. Ele se centra na perspectiva de Ruth, Deirdre e Maddy, três mulheres pobres que tentam sobreviver durante os dias da conflagração. A galeria de personagens se completa com um boxeador, um jornalista e um escravo fugitivo, para compor um retrato minucioso da Nova York do século XIX.

Alguns Poemas, de Emily Dickinson (tradução de José Lira; Iluminuras; 320 páginas; 44 reais) – Figura solitária e reclusa, a americana Emily Dickinson (1830-1886) publicou uns poucos versos anônimos em jornais da região de Boston, onde vivia. Foi só depois de sua morte que se descobriram as centenas de poemas breves e contidos que a colocaram entre os maiores nomes da poesia em língua inglesa. Essa edição bilíngüe traz uma seleção extensa dos melhores versos de Emily. "Não nos atraem os Enigmas / Que pouco nos escondem. / Nenhuma coisa está mais morta / Que a surpresa de ontem", diz um dos textos. Emily, ao contrário, é um enigma que continua a surpreender.

 
Kafka garoto, na visão de Crumb: singular

Kafka de Crumb, de Robert Crumb e David Zane Mairowitz (tradução de José Gradel; 176 páginas; 34,90 reais) – Criador de personagens como o libidinoso gato Fritz e o guru picareta Mr. Natural, o cartunista americano Robert Crumb é um herói da contracultura dos anos 60 e 70. Nesse livro, porém, ele visita o universo perturbador de um dos autores mais influentes do século XX: o checo Franz Kafka. Com texto do crítico David Zane Mairowitz, os quadrinhos de Crumb são um passeio pela vida, pela época e pela obra de Kafka. Com seu pendor para o grotesco, o traço do cartunista americano alcança excelentes traduções visuais para os clássicos kafkianos – com destaque para os desenhos da máquina de tortura de Na Colônia Penal e do inseto monstruoso de A Metamorfose.

Dicionário Amoroso da América Latina, de Mario Vargas Llosa (tradução de Wladir Dupont e Hortencia Lancastre; Ediouro; 366 páginas; 59,90 reais) – O peruano Vargas Llosa teve presença assídua nas livrarias brasileiras em 2006. Foram lançados o ensaio Cartas a um Jovem Escritor, o romance Travessuras da Menina Má e agora esse compêndio de 142 textos, escritos ao longo de décadas. O mais antigo é de 1952, o mais recente, de 2005. Tomados isoladamente, são instantâneos de pensamento. Por exemplo: o Llosa que escrevia sobre Cuba em 1976, ainda com algum apego a velhas ilusões de esquerda, não é o mesmo liberal de hoje. Em conjunto, eles dão testemunho do interesse de fato "amoroso" que o escritor dedicou à região e ajudam a traçar o perfil intelectual de um dos grandes nomes da ficção contemporânea.

Guia de Música Clássica, de John Burrows (tradução de André Telles; Jorge Zahar Editor; 512 páginas; 69 reais) – Para quem começou a se interessar por música erudita mas não consegue diferenciar Bach de Bax, esse livro vem a calhar. Editado à maneira de um guia de viagens, ele traz detalhes de cada escola musical, bem como a biografia de 300 compositores e uma análise caprichada de quarenta obras definitivas. Outro destaque está no cuidado para explicar cada termo da música erudita. O mais leigo dos leitores poderá entender o que é uma sonata, as características de uma sinfonia e as diferenças entre os períodos clássico, romântico e afins. Ah, sim. Johann Sebastian Bach foi o mestre do período barroco e ganhou uma bela biografia na página 116. Bax, por sua vez, pertence à escola nacionalista britânica e surge na página 335.

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Travessa, Argumento; Porto Alegre: Saraiva, Cultura; Brasília: Sodiler, Saraiva, Leitura; Recife: Sodiler, Saraiva, Cultura; Natal: Sodiler; Florianópolis: Livrarias Catarinense; Goiânia: Saraiva, Leitura; Fortaleza: Laselva; Curitiba: Saraiva, Livrarias Curitiba; Londrina: Livrarias Porto; Campo Grande: Leitura; Belo Horizonte: Leitura; Maceió: Sodiler; Belém: Clio; Vitória: Leitura; internet: Cultura, Laselva, Leitura, Nobel, Saraiva, Sodiler, Submarino.

 

 
 
 
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