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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Papai
Noel: as questões mais delicadas
Revelações
sobre a vida, os sonhos,
o trabalho, as dúvidas e as angústias
do bom velhinho
Papai Noel sempre foi velho?
Não. O período de sua mocidade há muito é matéria
aberta a especulações. Segundo uma delas, ele teria tido uma existência
dissipada, recheada de bebidas, mulheres e aventuras irresponsáveis. Outra,
pior, lhe atribui um crime hediondo, em virtude do qual teria optado, como purgação,
por uma vida de entrega aos semelhantes. O fato de sua vida pregressa ser desconhecida
estimula toda sorte de fantasias. Pode-se afiançar, no entanto, que P.N.
foi um moço bom. Desde a mais tenra idade se deixou impregnar pelo idealismo
dos que têm como maior fonte de felicidade a promoção da felicidade
alheia. Fixou-se como objetivo fazer o bem.
Por que então só começou a agir depois de velho?
Por dois motivos. Primeiro, porque seu projeto exigia
longa maturação. Segundo, porque a estampa de velho lhe traria mais
credibilidade. Certa ou errada, é crença universal que os velhos
têm o espírito mais apaziguado, mais resistente às tentações
deste mundo, e guardam mais bondade no coração.
Ele sempre foi gordo?
Não. P.N. foi um menino franzino e um jovem de peso mediano. A gordura
consistiu num objetivo a atingir, tão logo se apercebeu de que, assim como
a velhice, transmite a idéia de uma bondade bonachona. Hoje em dia a vida
é dura para os gordos. À estética da magreza somam-se os
alertas médicos contra os riscos da obesidade. Caso P.N. optasse por emagrecer,
poderia até ficar milionário, vendendo depois "A dieta do Papai
Noel". Ocorre que P.N. é um tipo generoso, mas não é bobo.
Calculou milimetricamente sua operação. E chegou à conclusão
de que se apresentar velho e gordo era a combinação ideal para alguém
que pretendia não apenas ser, mas parecer bom.
Como P.N., com seus rústicos meios, entre os
quais o trenó, as renas e as cartinhas com os pedidos, consegue desempenhar
suas funções num mundo de economia cada vez mais complexa e sucessivos
avanços tecnológicos?
P.N. já recebe mensagens por e-mail. Estuda sugestões de contratar
call centers na Índia, para os pedidos, de terceirizar a fabricação
de brinquedos, entregando-a a empresas chinesas, e de contratar motoboys para
sua distribuição, mas teme o efeito de semelhantes inovações
em sua imagem. Não seria
impróprio, da parte de P.N., apresentar-se nesses trajes de inverno no
Brasil, um país tropical e onde, ainda por cima, no Natal é verão?
Seria fácil, embora
de início chocante, apresentar-se de tanga e de chapéu de Carmen
Miranda nas visitas ao Brasil, mas seria um erro. Neve e frio gozam no Brasil
de prestígio maior do que na Islândia. Um toque estrangeiro também
sempre vai bem no país, como o comprova o próprio nome Papai Noel,
adotado do francês Père Noel. Aqui, ao contrário dos irmãos
portugueses, que designam o bom velhinho por Pai Natal, a expressão foi
traduzida só pela metade.
P.N. tem família? Não.
Prestigiar a família está na essência de suas funções,
mas ele próprio não tem uma. A Mãe Noel que às vezes
lhe atribuem como companheira é um adendo tolo à sua história.
E, antes que venha a pergunta, a inexistência de uma vida sexual não
lhe causa tormento. Ele vive bem com seu trenó e suas renas.
P.N. é feliz?
A questão é delicada. Coloquemos da seguinte maneira: ele já
foi mais feliz. O que o incomoda?
As críticas, abertas
ou veladas. Acusam-no, por exemplo, de usurpar no Natal o lugar central que deveria
ser ocupado por certo Menino. O fato de a mesma festa ter dois protagonistas causa
mesmo mal-entendidos. Um autor americano conta que um japonês certa vez
representou o Natal com um Papai Noel crucificado. De formação budista
e taoísta, ele não entendera o espírito da coisa. Acusam
P.N. também de incentivar o fenômeno a que se dá o nome de
consumismo, e de ser agente do "imperialismo", com seus trajes de cores como as
da Coca-Cola. E às acusações acrescenta-se a ofensa quando
usam seu nome em expressões como "P.N. foi pródigo com os deputados
e senadores", como se, convertido em velho espertalhão, fosse o responsável
pela doação de vantagens indevidas. Tudo isso dói. Ele, que
na vida só pensou em fazer o bem, se vê denunciado como fonte de
diferentes encarnações do mal. Ainda não surgiu um movimento
acusando-o de ser homem e branco. Mas, na certeza de que, mais dia, menos dia,
isso ocorrerá, P.N. vive perseguido por pesadelos em que minorias furiosas
levantam tais bandeiras. Seria
correto dizer que P.N. virou uma criatura angustiada?
Tudo indica que sim. Como fazer o bem? É raro
encontrar duas pessoas com a mesma resposta. Os tempos são tão confusos
que ficou difícil distinguir o bem do mal. Como fazer as pessoas felizes?
Antes parecia tão simples era só dar um presente. P.N. é
um ser que, como uma criança ao crescer, começa a desacreditar de
P.N. |