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Livros
Maria Antonieta, a virtuosa
Uma biografia para restaurar a
reputação da rainha que perdeu
a cabeça na Revolução Francesa

Jerônimo Teixeira
Ao ser informada de que o povo
francês estava faminto, Maria Antonieta, com o desdém
conjugado das dinastias que representava os Bourbon e os
Habsburgo , respondeu com a tirada famosa: "Se não
têm pão, que comam brioches". Ou assim reza a lenda.
A historiadora inglesa Antonia Fraser, biógrafa da rainha,
diz que a frase jamais foi pronunciada por sua personagem. A mesma
sentença já havia sido atribuída a uma princesa
espanhola que se casou com Luís XIV, cerca de um século
antes de Maria Antonieta pisar em Versalhes. E continuaria sendo
atribuída a várias princesas nos 100 anos seguintes
até finalmente "colar" na nobre de origem austríaca,
provavelmente por força da propaganda dos revolucionários
que a levaram à guilhotina em 1793. É significativo
que esse esclarecimento seja feito logo na primeira página
de Maria Antonieta (tradução de Maria
Beatriz de Medina; Record; 574 páginas; 67,90 reais)
livro que inspirou um exuberante filme de Sofia Coppola, ainda inédito
no Brasil. De saída, Antonia Fraser deixa claro seu propósito
fundamental: recuperar a imagem da rainha. A autora consegue sustentar
essa revisão histórica com consistência e alguma
graça narrativa ainda que, em alguns momentos, cruze
a fronteira que separa a biografia da hagiografia.
No ardor republicano que queimou
a partir de 1792 na França revolucionária, Maria Antonieta
tornou-se um símbolo da velha ordem que estava ruindo. A
devassidão moral e a dissipação financeira
da corte encontraram seu emblema na estrangeira que supostamente
sangrava o tesouro francês em vestidos, jóias e bacanais.
Na verdade, ela nunca foi esse monstro hedonista. Nascida em Viena,
em 1755, Maria Antonieta era uma adolescente magra, de tez muito
clara e quase desprovida de busto quando chegou à França
como prometida do futuro rei. Tinha o queixo prognata que os Habsburgo
carregavam como um estigma mas não era desprovida
de graça. O futuro Luís XVI, ao contrário,
era um rapaz desajeitado. Já mostrava os primeiros sinais
da obesidade que se tornaria quase escandalosa nos anos seguintes.
A consumação física do casamento demorou nada
menos do que sete anos para se realizar ao que parece, o
senso de profunda inadequação física do jovem
herdeiro travava suas obrigações conjugais.
Os panfletos pornográficos
que abundavam no século XVIII retratavam Maria Antonieta
como uma ninfomaníaca enlouquecida. Antonia Fraser desmente
essas versões. Sim, a rainha teve ligações
muito íntimas com algumas damas da corte, mas esse "apego"
era, segundo a biógrafa, "mais emocional do que físico".
O único caso documentado de Maria Antonieta, com o conde
sueco Fersen, foi conduzido com a máxima discrição,
comportamento raro em meio à promiscuidade de Versalhes.
A suposta insensibilidade social da rainha também é
contestada mas é nesse ponto que Antonia idealiza
sua biografada. O episódio em que Maria Antonieta manda parar
sua carruagem para socorrer um camponês ferido ganha uma importância
desproporcional na narrativa. Antonia também insiste na modéstia
de Maria Antonieta. Ela seria uma mulher à frente do seu
tempo, uma rainha simples e caridosa que "se encaixaria com facilidade
nas futuras monarquias apolíticas" afirma a autora,
numa frase em que está subentendida a idéia de que
Maria Antonieta foi uma espécie de Lady Di do século
XVIII.
Casada com o dramaturgo Harold
Pinter, Antonia Fraser é uma historiadora popular da realeza
européia. Seus livros anteriores voltavam-se para figuras
da história britânica, como Mary Stuart e Henrique
VIII. Nas últimas décadas, historiadores como o francês
François Furet e o inglês Simon Schama têm revisado
a Revolução Francesa. Considerando que outras monarquias
chegaram a um quadro democrático e liberal sem banhos de
sangue, será que o Terror foi mesmo necessário para
afirmar os decantados ideais de Liberdade, Igualdade, Fraternidade?
Embora Antonia não se preocupe com os problemas da filosofia
da história, sua biografia chega perto de sugerir que Maria
Antonieta poderia ter sido uma figura de transição
entre o absolutismo e alguma forma de monarquia constitucional.
Vive la Reine!, diz a autora na introdução
do livro. Bem diferente daquilo que o povo gritava em 1793 enquanto
a carroça conduzia a rainha para a guilhotina
da Praça da Concórdia.
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Pobres princesas ricas
Ao dizer que Maria Antonieta "se encaixaria
com facilidade" nas monarquias atuais, a historiadora
Antonia Fraser sugere uma comparação com
a inglesa Lady Di. Veja as semelhanças entre
as duas:
Lady Di
VIDA PRIVADA
Lady Di achou que estava
fazendo o casamento dos sonhos, mas tomou um banho de
água fria. O príncipe Charles nunca escondeu
sua paixão pela antiga namorada Camilla Parker
Bowles. Uma conversa telefônica entre os amantes
veio a público e resumiu bem a humilhação:
nela, Charles dizia a Camilla que gostaria de ser o
seu absorvente íntimo
PODER POP
Diana foi um ícone da moda: seu penteado
foi copiado em todo o mundo e seus vestidos tinham espaço
garantido na primeira página dos tablóides.
Consagrada como "princesa do povo", engajou-se em causas
sociais e humanitárias, como o combate às
minas terrestres
MORTE ICÔNICA
Depois de dar depoimentos explosivos sobre a infelicidade
de seu casamento com Charles e as traições
de parte a parte, Diana morreu de forma trágica.
O motorista embriagado de seu automóvel tentou
fugir dos paparazzi que a perseguiam e provocou um acidente
fatal
Maria Antonieta
VIDA PRIVADA
Maria Antonieta foi sempre
descartada pela corte francesa como uma tola. Sua humilhação
suprema: Luís XVI demorou sete anos para consumar
o casamento o que era de conhecimento público
PODER POP
Jovem demais e uma estranha entre os franceses,
a austríaca Maria Antonieta consolou-se no dom
para ditar moda. Os vestidos elaborados e os exóticos
penteados pouf eram imitados por toda a aristocracia.
Consta que também não era o monstro de
indiferença que se pintou: ensinava caridade
aos filhos e socorria camponeses feridos
MORTE ICÔNICA
Maria Antonieta foi emblema do excesso e da exploração
da monarquia francesa. Em companhia do rei, Maria Antonieta
tentou fugir da França revolucionária
em 1791. Os dois foram capturados e acabaram perdendo
a cabeça na guilhotina
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