|
|
Especial O
homem que compreende Judas  Isabela
Boscov
Divulgação
 | Marvin
Meyer, um dos especialistas que estudaram o Evangelho de Judas: entender o que
pensavam os primeiros cristãos e rever dogmas pode ser essencial para a
sobrevivência da Igreja |
| |
Treze folhas, escritas na frente e no verso, de
um papiro fragilíssimo: descoberto na década de 70, no Egito, o
texto que viria a ser autenticado como o Evangelho de Judas (originalmente escrito
por seus seguidores em meados do século II) é um dos achados mais
relevantes das últimas décadas para historiadores e teólogos.
Talvez só comporte comparação, nesse sentido, com o Evangelho
de Tomé, encontrado também no Egito, nos anos 40. No que toca à
sua capacidade de polarizar opiniões, entretanto, ele não tem rival.
Na tradição cristã, Judas Iscariotes é o emblema máximo
da traição o apóstolo que, com um beijo e em troca
de trinta moedas, identificou Jesus para as autoridades romanas, que então
o aprisionaram, martirizaram e crucificaram. O papiro de cerca de 1 700 anos de
idade passou por um périplo nas décadas seguintes à sua descoberta,
até chegar, no início desta década, às mãos
da National Geographic Society americana, que mobilizou um time de especialistas
para restaurá-lo, traduzi-lo, interpretá-lo e por fim publicá-lo
o que aconteceu com grande alarde no começo deste ano. Um desses
especialistas é o americano Marvin Meyer, de 58 anos, catedrático
de estudos cristãos e da Bíblia na Universidade Chapman,
da Califórnia, além de profundo conhecedor de línguas da
Antiguidade e arqueólogo experiente, com participação nas
escavações de Nag Hammadi, no Egito, de onde saíram alguns
dos mais significativos textos referentes ao cristianismo primitivo. Afável
e expansivo, o presbiteriano Meyer tem uma história diferente para contar
sobre Judas e os primeiros seguidores de Cristo: a história de uma religião
nascente, repleta de vibração e capaz ainda de abarcar múltiplos
pontos de vista sobre seu Messias. Antes de rejeitar o Evangelho de Judas ou qualquer
outro desses textos, é preciso ouvir o que eles têm a dizer, defende
Meyer que conversou com VEJA também sobre dogma, fundamentalismo
e a importância espiritual das religiões.
PODE-SE TOMAR O EVANGELHO DE JUDAS COMO UM RELATO HISTÓRICO? Ele
é a tradução de um texto que remonta a meados do século
II e é um evangelho muito diferente dos canônicos. Mas foi escrito
por cristãos sinceros, e pode-se afirmar que é tão verdadeiro
quanto qualquer outro apenas representa uma visão diversa daquela
religião que surgia. Esse é o fato mais importante que ele traz
à luz: o de que, no princípio, a Igreja estava aberta a diferentes
pontos de vista sobre Jesus e a diferentes maneiras de professar a fé nele.
COMO O SENHOR AVALIA A RECEPÇÃO
AO TEXTO? Ao contrário do que possa parecer, ela tem sido das mais
entusiásticas, mesmo entre membros individuais da Igreja. Como historiadores
e teólogos, a questão entre nós é estarmos abertos
a examinar o texto legado por Judas e ouvir o que ele tem a dizer algo
a que um número surpreendente de religiosos se dispõe. É
claro que as lideranças cristãs o rejeitam por completo. Judas Iscariotes
era um herege antes e, para efeitos oficiais, continuará a sê-lo.
Isso é esperado. Muito do poder da Igreja vem do controle que ela exerce
sobre seus dogmas e símbolos. Daí sua relutância em revê-los.
POR QUE O EVANGELHO DE JUDAS CHOCA TANTO ALGUNS
CRISTÃOS? A palavra evangelho quer dizer "boa-nova". Para muitos,
então, associar "boa-nova" ao nome do traidor de Jesus soa profundamente
herético. Que boas-novas Judas Iscariotes poderia trazer, eles se perguntam,
se esse é o homem que traiu Jesus? O próprio título já
sugere que é necessária alguma disposição para reabilitar
Judas ou até abraçá-lo como um bom discípulo.
O QUE PREGA O TEXTO? Ele é um
bocado místico e professa que o verdadeiro Jesus é o Jesus interior.
Essa sugestão é típica dos gnósticos, membros das
seitas cristãs que viam no conhecimento (em grego, gnosis) a chave
para a fé e às quais Judas pertencia: o espírito é
uma centelha divina, e por meio dele Deus pode viver no coração
de qualquer ser humano. O corpo não é o invólucro mortal
do espírito, como na visão tradicional é a sua prisão,
da qual é desejável libertar-se. A revelação que Jesus
teria feito a Judas é que qualquer um de nós poderia se tornar um
só com Deus, por meio do conhecimento do nosso espírito. COMO
A COMUNIDADE JUDAICA TEM REAGIDO AO EVANGELHO DE JUDAS? Na tradição
cristã, Judas Iscariotes é até hoje a imagem do judeu maldoso,
e se tornou um dos esteios da estrutura odiosa do anti-semitismo. Para muitos
judeus, a idéia de que existem subsídios históricos para
que se veja Judas sob uma luz diferente equivale a demolir um dos pilares do anti-semitismo.
QUAL O MAIOR ENIGMA QUE AINDA RESTA POR SER EXPLICADO
SOBRE A VIDA DO JESUS HISTÓRICO? SERIAM OS "ANOS PERDIDOS" DE SUA JUVENTUDE,
SOBRE OS QUAIS NÃO EXISTEM RELATOS CONHECIDOS? Nem Jesus se perdeu
em algum ponto de sua vida, nem ela tem "anos perdidos". As escolhas literárias
dos evangelistas do Novo Testamento é que deixam nos seus leitores mais
entusiasmados a impressão de que há duas lacunas na vida de Jesus
da infância aos 12 anos e dos 12 anos até mais ou menos os
30. A natureza abomina o vácuo, e o mesmo se pode dizer de alguns estudiosos
da Bíblia. Por isso se criaram hipóteses fantasiosas sobre
Jesus cruzando o mundo para socializar-se com pessoas ilustres ou sábios
hindus. Arrisco dizer que, nesse período em que suas atividades são
ignoradas, ele estava com mamãe e papai em Nazaré, trabalhando como
carpinteiro ou algo do gênero, até o momento em que teve sua experiência
religiosa com João Batista e iniciou a trajetória que conhecemos.
QUE TIPO DE GENTE ERAM OS GNÓSTICOS? Provavelmente
eram tão variados entre si quanto os outros cristãos. Mas imagina-se
que pelo menos alguns fossem pessoas instruídas, que circulavam nos meios
filosóficos. DIZ-SE QUE OS GNÓSTICOS
FORAM EXCLUÍDOS DA IGREJA PORQUE NÃO ACREDITAVAM NA NECESSIDADE
DE INTERMEDIÁRIOS ENTRE DEUS E OS HOMENS DE SACERDOTES, ENFIM. MAS
O EVANGELHO DE JUDAS NÃO SUGERE TAMBÉM OUTRA IDÉIA EXPLOSIVA,
A DE QUE JESUS PRECISOU DE JUDAS PARA CUMPRIR O DESTINO DE MORRER NA CRUZ? Se
você acreditasse que para encontrar a centelha divina basta viajar para
dentro de si, então de fato prescindiria de sacerdotes. E, claro, essa
não era uma idéia popular entre os já numerosos padres e
bispos da época. Além disso, os gnósticos passavam muito
mais tempo meditando do que fazendo política e a Igreja era um ambiente
altamente político. Mas, para além dessas maquinações,
o Evangelho de Judas certamente mexe com essa questão delicadíssima:
a da força de Jesus na cruz e a maneira como ele aceita sua morte. Se supusermos
que Judas não traiu Jesus, mas ajudou-o ao facilitar sua morte, como diz
seu evangelho, então o texto não muda apenas o papel tradicional
de Iscariotes ele sugere que Jesus precisou de ajuda, uma idéia
que, para alguns, é irreconciliável com a da dimensão divina
de Jesus. SERÁ QUE OS CRISTÃOS
DE HOJE PENSARIAM MENOS DE UM JESUS QUE DEMONSTRASSE MEDO E FALIBILIDADE HUMANOS
DIANTE DA PRÓPRIA MORTE? Acho que pelo menos alguns cristãos,
entre os quais eu mesmo, pensariam que um Jesus tão humano é uma
figura com a qual é possível se identificar de forma ainda mais
completa. Acredito que, se pudermos abraçar Cristo em toda a sua humanidade,
então sua vida, sua mensagem e sua morte se tornam ainda mais poderosas.
QUE FEIÇÕES TERIA A CRISTANDADE
HOJE SE OS GNÓSTICOS TIVESSEM PREVALECIDO? É difícil
imaginar que, com sua indiferença para com a política e sua falta
de traquejo, os gnósticos pudessem ter se organizado o suficiente para
competir no mercado das idéias religiosas e trabalhar junto com o Império
Romano. Mas, supondo que eles tivessem juntado tanto espírito prático,
é possível que a Igreja cristã fosse hoje uma organização
mais abertamente mística e muito menos hierarquizada. Eu diria também
que a capacidade de aceitar várias verdades, ou uma verdade multifacetada,
seria central nessa igreja, porque o era para os gnósticos. A sanha anti-herética
da Santa Inquisição, por exemplo, não teria acontecido. Outra
coisa: entre os gnósticos, as mulheres e os homens trabalhavam ombro a
ombro. É provável que hoje elas tivessem um papel tão crucial
quanto o dos homens dentro da instituição. MARIA
MADALENA, ENTÃO, ESTARIA ENTRE OS APÓSTOLOS? Sim. Se nos
ativermos ao que se sabe sobre o Jesus histórico, será preciso rever
toda a tradição dos discípulos. É provável,
por exemplo, que eles fossem extremamente jovens adolescentes, até.
Não seriam doze, porque isso é uma criação da Igreja
para referenciar as doze tribos de Israel. Eles seriam cinco, treze ou quinze,
mas não precisamente doze. E haveria mulheres nesse círculo íntimo,
como Maria Madalena. Os gnósticos, com sua independência, não
tiveram medo de reconhecê-la entre os seguidores favoritos de Jesus. É
ISSO QUE TORNA AS DESCOBERTAS RECENTES SOBRE OS PRIMÓRDIOS DO CRISTIANISMO,
COMO OS EVANGELHOS DE MARIA MADALENA, TOMÉ E JUDAS, TÃO FASCINANTES
PARA OS CIDADÃOS DE HOJE SEU PENSAMENTO "MODERNO"? A época
em que essas descobertas vieram à luz, de sessenta ou setenta anos para
cá, é muito propícia à curiosidade que elas têm
despertado. Essa é uma época de transformações sociais
sem precedentes, e as idéias contidas nesses textos de igualdade
entre os sexos, de busca espiritual interior, de tolerância para com opiniões
diferentes encontram hoje muito espaço no qual ecoar. AS
RELIGIÕES TEM UM PRAZO DE VALIDADE, POR ASSIM DIZER? Na cristandade
atual existem igrejas que estão perdendo membros e popularidade. É
o caso do catolicismo romano. Outras igrejas, como as evangélicas, atraem
rebanhos cada vez mais numerosos e entusiásticos talvez até
entusiásticos demais. Este é um tempo em que quase tudo na vida
humana está secularizado e pode ser explicado pelas ciências sociais.
Um tempo, também, em que tudo parece ser relativo e em que os valores que
pareciam eternos estão como que fugindo de nós. Muitas pessoas,
portanto, sentem de forma aguda a falta de algo que seja certo, seguro e eterno.
Elas passam então a gravitar em torno de religiões evangelizantes
ou fundamentalistas, que se anunciam como portadoras dessas certezas. É
o que está acontecendo nos Estados Unidos de hoje, e também no mundo
islâmico: a adesão crescente ao fundamentalismo religioso. NÃO
HÁ, PORÉM, UM NÚMERO IGUALMENTE SIGNIFICATIVO DE FIÉIS
QUE TEM DIFICULDADE EM CONCILIAR AS DOUTRINAS RELIGIOSAS À SUA EXPERIÊNCIA
DA VIDA? Algumas das doutrinas cristãs têm quase 2.000 anos
de idade, e várias delas comportariam uma revisão como a
da concepção imaculada. Em quase todas as religiões pagãs
encontramos histórias de deuses que geram filhos em mulheres mortais. Maria,
porém, não era virgem apenas quando engravidou de Jesus; ela é
para todo o sempre uma virgem. Ou seja: Jesus não nasceu de nenhum ato
sexual convencional, e Maria é uma mulher melhor por ser virgem. Que visão
da sexualidade e das mulheres é essa? Devemos aceitá-la tal e qual
nos dias de hoje? Se a Igreja pretende sobreviver a longo prazo, talvez precise
adotar leituras mais saudáveis de alguns de seus dogmas.
IGREJA CATÓLICA, ENTRETANTO, NÃO COSTUMA ENCORAJAR RELEITURAS.
A ironia é que a Igreja nasceu de um homem que não era nada
menos do que um revolucionário e um pensador de vanguarda. Jesus viveu
uma vida em que não cabiam padrões tradicionais de comportamento
e andava em companhia de gente que não era exatamente bem-vista. Creio
que, se Jesus batesse à porta de nossas igrejas hoje, ele se mostraria
o mesmo agitador que foi no século I e não sei se encontraria
um lugar nessas instituições. COMO
UMA FÉ REVOLUCIONÁRIA VIRA UMA INSTITUIÇÃO EM QUE
OS DOGMAS E A HIERARQUIA ESTÃO GRAVADOS EM PEDRA? Seja qual for
a figura central de uma fé se Jesus, Maomé ou Buda ,
ela começa como um movimento profético e carismático. Mas,
para perdurar, tem de se estruturar. É preciso decidir de onde virá
o dinheiro, quem será o líder, como se nomeará o líder
seguinte. Aí se iniciam os jogos de poder. Numa religião, isso significa
decidir também qual é a verdade, e quem a controla. A Igreja cristã
é a mais bem-sucedida organização social de toda a história
da humanidade. Muito desse sucesso se deve ao fato de que ela atravessou seus
primeiros séculos lutando para sobreviver fortalecendo-se, portanto
, até que o imperador Constantino se converteu, no início
do século IV, e virou o jogo. Constantino disse ter visto "algo" nos céus.
Suspeito que esse "algo" era político: a oportunidade de fazer uso de um
movimento moderno e cheio de vibração, que, se organizado, poderia
manter unidos os pedaços em que o Império Romano estava se esfacelando.
Com o tempo, a Igreja se tornou a única instituição legal
do império. Mas esse esforço no sentido de uma verdade e um poder
únicos é um vetor dos mais conservadores. O
SENHOR FREQÜENTA A IGREJA? Minha mulher e eu pertencemos a uma igreja
presbiteriana, na qual somos muito ativos: cantamos no coro, participamos de ações
coletivas e somos leais às discussões que ocorrem ali. Sou presbítero
ordenado. Mas tenho dificuldade com quase tudo que se refira a dogma. É
a liturgia o canto, por exemplo que hoje me proporciona os momentos
de maior elevação. NA SUA OPINIÃO,
QUAL A MAIOR CONTRIBUIÇÃO QUE O EVANGELHO DE JUDAS TEM A OFERECER?
Fiz uma série de palestras no Japão, país em que
os cristãos compõem uma minoria minúscula. A maior parte
das pessoas presentes a esses seminários não era cristã e
não tinha, portanto, obstáculos religiosos à apreciação
das palavras de Judas. O que as tocou profundamente foi o sacrifício, por
assim dizer, de Judas Iscariotes: a idéia de que, por lealdade ao seu mestre,
ele se submeteu à marginalização e ao ódio e concordou
em se tornar o símbolo da traição mais torpe. |