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Especial O
sublime milagre da vida  Marcelo
Bortoloti Fotos
Ernani d'Almeida
 | | Arthur
Teixeira nasceu em 3 de dezembro, com 32 semanas e 575 gramas – 190 gramas a mais
do que pesava o menor bebê já nascido no Brasil, por coincidência seu xará. Ele
e sua irmã gêmea, Giovana, estão em franca recuperação |
A fisioterapeuta
carioca Ana Paula, de 29 anos, não tinha motivo para suspeitar que sua
gravidez corria algum tipo de risco. Todos os exames estavam absolutamente normais
até a 21ª semana de gestação. Em agosto deste ano, durante
uma consulta de rotina, soou o alerta. O feto parou de se desenvolver no útero
e a mãe apresentava ligeira alta de pressão, sintomas de uma complicação
chamada pré-eclampsia, que atinge 10% das mulheres grávidas. Era
preciso uma intervenção rápida para que o quadro não
se agravasse o que poderia resultar na perda do filho ou até na
morte da mãe. Ana Paula ainda estava planejando o enxoval do bebê
quando foi internada na clínica Perinatal, no Rio de Janeiro, sem se dar
conta da urgência da situação. No dia seguinte seus sintomas
pioraram, e o filho teve de vir ao mundo às pressas, depois de apenas seis
meses e uma semana de gravidez. O pequeno Arthur pesava 385 gramas, um décimo
do peso de um recém-nascido normal. Era o menor bebê já nascido
vivo no Brasil e o quinto menor do mundo. Ele saiu do parto sem respirar, e foi
ressuscitado em seguida pela junta médica com massagens cardíacas.
Depois disso, foi encaminhado a uma UTI neonatal, onde chegou a pesar míseros
282 gramas, sob o olhar assustado dos pais. Contudo, exatamente quatro meses e
três dias mais tarde, o bebê recebia alta com 2 quilos, 110 gramas
e uma vida normal pela frente. Uma surpresa até para a equipe do hospital.
Um feito miraculoso da medicina, um comovente simbolismo do constante renascer
de Cristo no Natal. Quando nasceu,
Arthur tinha 23 centímetros de altura. Cabia na palma da mão de
um adulto. Todo sangue que corria em suas veias caberia em meia xícara
de café. O pé de um bebê normal mede cerca de 9 centímetros.
O de Arthur tinha 3,7 centímetros, coisa de um clipe de papel, uma moeda...
O diâmetro de uma artéria coronariana de um adulto tem entre 6 e
8 milímetros; o de um bebê normal, entre 2 e 2,5 milímetros;
e o do prematuro, entre 1 e 1,2 milímetro. No entanto, os vasos capilares,
aqueles que alimentam as veias e artérias pelo lado de fora, têm
o mesmo calibre em um prematuro e em um adulto normal. Obviamente, as células
têm também o mesmo tamanho, embora as quantidades variem de acordo
com o tamanho dos indivíduos. Um bebê prematuro, portanto, não
é apenas um ser humano miniaturizado. É um organismo bem mais complexo.
 | | Impressão
do pé de Arthur, o menor bebê do Brasil, ao nascer: 3,7 centímetros de comprimento,
pouco maior que o diâmetro da moeda de 1 real |
Com a chegada de Arthur, Ana Paula e seu marido, Paulo, um representante comercial
de 33 anos, passaram a ser personagens de um milagre da medicina. O grande prodígio
do bebê foi ter conseguido sobreviver sem carregar no corpo nenhuma seqüela.
A seu favor estava uma ciência relativamente nova, a neonatologia, cujos
avanços em pesquisa e tecnologia cresceram de forma notável nos
últimos vinte anos. Algumas
conquistas foram fundamentais para que Arthur e outros prematuros tivessem chance
de sobrevida: • A cardiologia neonatal
evoluiu admiravelmente e hoje permite operar o coração de um bebê
em uma cirurgia de apenas 45 minutos. Antes disso, prematuros que não estavam
com o coração totalmente pronto para funcionar não tinham
chance de sobreviver. • A partir da
década de 80 foi possível produzir em laboratório uma substância
chamada surfactante, secretada pelo organismo e que permite a expansão
dos pulmões. Pela falta dela, a grande maioria dos prematuros morria asfixiada.
Agora é possível injetar o agente diretamente nos pulmões
do recém-nascido. • Houve uma
grande proliferação de equipamentos modernos, como o saturímetro,
que possibilita medir a oxigenação sanguínea através
de um sensor conectado na pele do bebê. Isso fez com que se diminuísse
a quantidade de sangue retirada do prematuro para exames.
• Ocorreu uma mudança no tipo de contato com os bebês,
que agora são manuseados o menos possível e mantidos num ambiente
escuro e silencioso. No passado, eles morriam de stress ou tinham vasos sanguíneos
rompidos por causa da agitação. •
Popularizou-se o uso da nutrição parenteral, um composto de soro
com glicose, eletrólitos, gordura e proteína, que entra no organismo
através de alguma veia. Antes os prematuros que não podiam comer
freqüentemente morriam de inanição.
Parece uma inversão de cenários o início da vida acontecer
logo num ambiente quase sempre destinado a doentes terminais. Mas, para criar
condições de sobrevivência fora do útero a uma criaturazinha
que não é mais do que um feto em desenvolvimento, toda essa parafernália
é vital. Numa UTI neonatal, bebês minúsculos de até
30 centímetros ficam espalhados dentro de incubadoras que aquecem e são
conectadas a uma série de fios e aparelhos. Dois tubos entram pela boca
do bebê para fornecer oxigênio e alimento. Duas agulhas perfuram seu
cordão umbilical. Um monitor ligado ao pequeno tórax acompanha os
batimentos cardíacos. A numerosa equipe de médicos e enfermeiros
chega a fazer vinte procedimentos por dia num recém-nascido, trocando soro,
ministrando antibióticos, coletando fezes. Bebês nus, muitas vezes
inertes, passam o dia olhando para o teto com uma cara de quem ainda não
nasceu. "Foi um período muito difícil, principalmente por ter de
conviver com o drama dos outros. Nesse tempo deparamos com cinco ou seis falecimentos
na UTI", diz Ana Paula. "Além da tristeza, havia o cansaço de enfrentar
aquela rotina diariamente. Às vezes eu saía da sala e chorava de
desespero. Mas nunca perdemos a esperança." Mesmo que inicialmente pareça
chocante, esse quadro é fruto da evolução da ciência
nestas últimas décadas. Há quinze anos, bebês que nasciam
com peso abaixo de 1 quilo só em raros casos podiam ser salvos pela medicina.
No fim da década de 90, o limite caiu para 750 gramas. Hoje, bebês
com menos de 500 gramas, como Arthur, já têm chance de sobreviver
sem complicações posteriores. O mesmo é válido para
o tempo de gestação. Se no passado sete meses era o limite da prematuridade,
atualmente é justificável investir num ser humano que nasça
com até cinco meses e três semanas.
Foi uma longa trajetória até atingir esse estágio de desenvolvimento.
No início do século XX, bebês muito pequenos o que
na época significava dizer com menos de 2 quilos ficavam numa ala
específica dos hospitais à espera da morte. O médico alemão
Martin Couney foi um dos primeiros a se interessar por esses prematuros com poucas
chances de vida. Com métodos simples, como provê-los de nutrição
e aquecimento, ele chegou a resultados invejáveis para a época.
As primeiras incubadoras eram aquecidas com garrafas de água quente ou
óleo. Isso enchia o ambiente de fumaça e fazia alguns bebês
morrer por asfixia. Apesar de dificuldades assim, os avanços de Couney
começaram a chamar atenção, e ele passou a exibir os prematuros
em feiras, cobrando ingresso na porta. Até 1940, o médico rodou
vários países mostrando suas pequenas criaturas. A idéia
era divulgar os avanços da neonatologia, embora o método fosse um
tanto questionável. Após esse salto, uma nova evolução
aconteceu somente em 1963. Foi quando o presidente americano John Kennedy e sua
mulher, Jacqueline, tiveram um filho prematuro, Patrick. O caçula do casal
nasceu no sétimo mês de gestação, pesando 2,1 quilos,
mas não conseguiu sobreviver por ter sido vítima da síndrome
de membrana hialina, doença relacionada à imaturidade dos pulmões,
muito comum em bebês prematuros. A partir de então, os Estados Unidos
voltaram seus olhos para os problemas relacionados a bebês prematuros e
passaram a investir milhões por ano em pesquisa e equipamentos. Foi nessa
época que surgiram as primeiras UTIs neonatais, diferentes dos berçários
comuns. Dos anos 90 em diante, equipamentos
que ajudam a salvar vidas em UTIs neonatais tornaram-se ainda mais sofisticados.
As modernas incubadoras são capazes de detectar alterações
mínimas nos sinais vitais do bebê. Aparelhos para exames e cirurgias
foram se miniaturizando hoje, sondas, cateteres e agulhas são do
diâmetro de um fio de cabelo, desenhados para impingir o menor sofrimento
aos pequeninos. "Nos Estados Unidos foi criado até um robô que faz
a rotina da UTI e pode ser controlado de casa pelo médico", diz Luiz Eduardo
Miranda, chefe da UTI neonatal da Casa de Saúde São José,
no Rio de Janeiro. Outro avanço diz respeito à adoção
de procedimentos mais humanos, como o método canguru, em que o bebê
fica numa bolsa atada ao corpo da mãe e passa a ter contato pele a pele
com ela algumas vezes na semana. Essas novidades trouxeram resultados evidentes.
Duas décadas atrás, apenas 20% dos bebês que nasciam com menos
de 600 gramas sobreviviam. Hoje, nas melhores clínicas, esse índice
é de pelo menos 40%. Para bebês entre 750 gramas e 1 quilo, a taxa
de sobrevivência salta para 90%.
Ainda assim, o nascimento de um prematuro, e sua estada por alguns meses numa
UTI, é um evento que abala toda a família. Algumas maternidades
já possuem equipes de psicólogos voltadas especificamente para a
família do bebê. Elas ajudam os pais a enfrentar situações
como a morte de outras crianças na UTI e orientam também irmãos
e avós do bebê a lidar melhor com a situação. "Isso
causa um dos maiores índices de separação entre casais, incidência
de uso de drogas e alcoolismo", diz Manoel de Carvalho, diretor da clínica
Perinatal, onde nasceu Arthur. "Mais do que um aborto, que é um evento
pontual, conviver por cinco ou seis meses com o prematuro numa UTI é uma
barra que muitas famílias não agüentam."
Apesar disso, exemplos recentes de sucesso dão um alento aos novos pais
de prematuros. Antes de Arthur, o menor bebê do Brasil era Carlos Flores,
o Carlinhos, que nasceu pesando 450 gramas no ano de 1995. Prematuro de seis meses
de gestação, o bebê passou 43 dias na UTI, teve de operar
a retina, que ainda estava malformada, e ficou com uma miopia de 10 graus. Mas,
depois do sufoco, o bebê se desenvolveu como uma criança normal.
Hoje, com 11 anos e pesando 44 quilos, tem um apelido novo: Carlão. "Ele
nunca teve problema de saúde, nem dor de barriga. Sempre foi um menino
muito esperto e inteligente", afirma Ivonete, a mãe do garoto. "Era um
verdadeiro palito até os 5 anos de idade, não engordava de jeito
nenhum. Hoje, nem ele acredita que foi prematuro."
Atualmente, 13% dos bebês nascidos nos Estados Unidos são de parto
prematuro, um aumento de 30% em relação a duas décadas atrás.
No Brasil, estima-se que entre 7% e 9% dos partos também sejam com menos
de 37 semanas de gestação, que é o limite da gravidez normal.
E os custos são elevadíssimos. O acompanhamento de uma criança
que nasce com menos de 600 gramas chega a custar cerca de 150.000 reais por dia
em uma clínica especializada. Por isso, o desafio agora é aprofundar
as investigações sobre as causas de partos prematuros e tentar evitar
que eles aconteçam. "Para melhorar, partindo do ponto em que estamos, é
preciso mudar o foco para as mães, em vez de focar apenas no bebê",
diz Wladimir Taborda, coordenador de ginecologia e obstetrícia do Hospital
Albert Einstein, em São Paulo. Durante a gravidez normal, atualmente é
impossível prever quais mulheres terão parto prematuro. Existem,
entretanto, alguns grupos de risco. Entre eles estão as fumantes, usuárias
de drogas, mulheres abaixo do peso, jovens demais ou com níveis altos de
stress na rotina diária. Além disso, os tratamentos contra a infertilidade,
que muitas vezes resultam na gravidez de múltiplos, ajudam a aumentar esses
índices. Uma pesquisa da universidade americana de Yale mostrou que uma
mulher grávida de um único feto tem 2% de probabilidade de dar à
luz um prematuro. No caso de gêmeos, o risco sobe para 12%, e de trigêmeos,
para 60%. Essa mudança de mentalidade na neonatologia, com foco maior na
prevenção do que na sobrevivência, é um tema que mobiliza
o meio acadêmico americano. O grande avanço e o grande milagre da
ciência passam também por aí. Não apenas garantir que
uma mãe volte para casa com seu filho saudável nascido prematuramente.
Mas também assegurar que no futuro as incubadoras supermodernas sejam com
freqüência substituídas pelo ambiente insubstituível
do útero materno.
 | | Érika
Muniz, mãe de Kaio e Karen, prematuros de 29 semanas, que estão há 42 dias na
UTI, e de Kayke, que morreu dez dias depois de nascer |
"Quando
os trigêmeos nasceram, vi que eram do tamanho de uma régua. Nessa época eu chorava
bastante. O Kayke acabou morrendo e fiquei uma semana sem conseguir ir à maternidade.
Imaginava os outros dois na mesma situação. A gente leva muitos sustos até se
acostumar com a rotina de uma UTI neonatal. Eles ficam com um sensor no pé que
apita quando a saturação do oxigênio cai. Eu ficava nervosa toda vez que isso
acontecia, saía correndo, mexia neles para que respirassem. Aos poucos entendi
que isso é normal. Mas a gente dorme e acorda com esse barulho na cabeça."
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Fabiano
Accorsi
 | | Daniela
Martins, mãe de Vinícius, hoje com 3 anos |
"Meu
filho nasceu com 31 semanas e o médico não deu esperanças. Disse que ele não tinha
tamanho, peso nem pulmão para viver fora do útero. Foram dias de sofrimento, preocupação
e muita ansiedade. Vinícius ficou na UTI e doía muito o fato de não levá-lo para
casa com a gente. Era uma agonia visitá-lo sem saber como estaria. Um dia estava
melhor, no outro piorava. Mas a essa altura eu não conseguia mais imaginar o que
seria da minha vida sem ele. Graças a Deus, aos médicos, enfermeiras e auxiliares,
ele teve alta depois de 43 dias. Foi o dia mais feliz da minha vida."
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Ernani
d'Almeida
 | | Mônica
Teixeira, mãe dos gêmeos Giovana e Arthur, há vinte dias na UTI |
"Fizemos
fertilização in vitro com dois embriões e os dois vingaram. Com 32 semanas de
gestação, nasceram o Arthur e a Giovana. Ele pesava 575 gramas, e ela, 1 720 gramas.
Depois do parto tiveram de ir direto para a UTI. Tive medo de ir vê-los no dia
seguinte, porque sabia o que me esperava. E foi um choque quando encontrei o Arthur
pela primeira vez, ele era realmente pequeno. Até hoje é muito triste vê-los assim,
cheios de agulhas e aparelhos. Mas a cada melhora, ou a cada grama que vejo ganharem,
é uma grande alegria. Tenho fé em Deus que eles vão sair daqui antes do que a
gente espera." | | Com
reportagem de Ronaldo Soares |