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Artigo: Reinaldo
Azevedo
Sou "doente" mas sou feliz
"A acusação de antipetismo
vem sempre acompanhada de manifestações inequívocas
de ódio e até da promessa de algum sopapo: 'Se te
encontro na rua, seu careca cheio de tumores...'. A suposição
subjacente é a de que, não fosse um estado mórbido,
físico ou espiritual, eu estaria com eles. O dissenso é
visto como uma invasão tumoral"
Quando me acusam de "antipetista",
jamais me defendo. De certo modo, é verdade. Mas só
de certo modo e à medida que reajo à tentativa do
petismo de se afirmar como um novo humanismo, uma versão
totalizante do homem e da sociedade aplicável a todos os
campos do conhecimento e da experiência. Mas chego a esse
ponto daqui a pouco depois de uma digressão, que segue
nos três parágrafos seguintes.
A acusação de antipetismo,
especialmente nos comentários do blog, vem sempre acompanhada
de manifestações inequívocas de ódio,
de fúria e até da promessa de alguns sopapos: "Se
te encontro na rua, seu careca cheio de tumores...". Já não
os tenho mais, até onde sei. Pouco importa. A evocação
da doença como metonímia a parte que é
todo é um rito que exorciza o demônio da crítica
e expulsa a diferença do convívio social. A suposição
subjacente é a de que, não fosse um estado mórbido,
físico ou espiritual, eu estaria com eles. O dissenso é
visto como uma invasão tumoral com intenções
finalistas: "dar um golpe", "voltar ao poder", "destruir o governo"
o agente da salubridade. As tiranias sempre se excedem nos
símbolos de limpeza, pureza, assepsia e retidão morais.
Comunismo e fascismo combateram,
por exemplo, a "arte decadente", propondo em seu lugar uma estética
moral. Os soviéticos escolheram a ditadura do futuro, com
os operários e camponeses severos, cheios de fé, do
Realismo Socialista. Já os nazistas optaram pela ditadura
do passado, com um retorno às formas perfeitas, "saudáveis",
uma espécie de neoclassicismo de Estado, um tanto melancólico
até, mas sempre aspirante a uma inumana serenidade ou gravidade
atemporal. Em qualquer dos casos, tratava-se de um escapismo imposto
ou pelo terror revolucionário ou pelo terror reacionário.
Só as sociedades livres,
plurais, democráticas, de mercado se dedicam a uma ética
e a uma estética, digamos, "sujas", internacionalistas, precárias,
contaminadas de presente, voltadas para a indagação
de questões existenciais, individuais, não programáticas,
que não cabem nos anseios de retorno a um homem pré-industrial,
pré-urbano, anterior à queda, ou nas escatologias
pós-capitalistas, rumo ao fim da história.
Se não me defendo da acusação
de antipetismo, também aceito, nos termos dados acima, a
suposição de que possa padecer mesmo de uma doença
do espírito, metáfora dos tumores físicos,
que me torna incompatível com a metafísica influente
destes dias. Nem aposto em amanhãs que cantam nem busco restaurar
a Idade do Ouro. Em suma, não acredito em petismos: nem no
reacionário (fascista e restaurador) nem no revolucionário
(bolchevique e mudancista). Estou preso, vejam vocês, neste
limiar de 2007, ao ano que rompe. A realidade me basta.
À diferença do
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), até
consigo antever o crescimento da economia com uns seis meses de
antecedência, embora, no meu ofício, o único
desafio fascinante seja entender a natureza dos verbos, dos substantivos,
dos advérbios. Há mais civilização contida
na regência de um verbo do que em qualquer porcaria produzida
por utopistas para nos "libertar". Repudio, por embusteiros, os
libertadores. Como num poema do português Fernando Pessoa,
Lisbon Revisited (1923): "Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço." Ou ainda: "Vão
para o diabo sem mim, / Ou deixem-me ir sozinho para o diabo! /
Para que havemos de ir juntos?". É a minha resposta aos que
me convocam para guerras santas ou justas.
Eu já era antipetista
antes de o petismo existir. Minha agenda não é negativa
em relação a essa legenda, mas positiva na aceitação
de alguns marcos que já tinham história quando o partido
veio ao mundo. Digo "sim" à liberdade de imprensa; o PT é
que diz "não". Digo "sim" ao indivíduo; o PT é
que diz "não". Digo "sim" à sociedade civil, livre,
até onde for possível, da sombra do Estado; o PT é
que diz "não". Digo "sim" à cultura capitalista; o
PT é que diz "não". Digo "sim" à punição
dos que transgridem as leis democráticas em nome de uma causa;
o PT é que diz "não". Digo "sim" à profissionalização
das carreiras públicas; o PT é que diz não.
Digo "sim" à venda de estatais; o PT é que diz "não".
Digo "sim" (supremo pecado!) ao imperialismo americano. O PT é
que prefere ser conduzido por fanáticos bolivianos. De fato,
como se vê, não sou antipetista. O PT é que
é antidemocrático e antiliberal e tenta, na prática,
mudar a natureza das conquistas que, entendo, me fazem livre, nos
fazem livres.
Isso vai mudar nos quatro anos
que se aproximam? Não vai. Os reiterados escândalos
me levam a evocar a frase com que o diplomata e político
francês Talleyrand (1754-1838) resumiu o destino dos Bourbon,
a família real francesa: "Não aprenderam nada; não
esqueceram nada". Ela expressa a disposição do PT
para lidar com o presente. Ora, se o partido acredita ter a forma
do futuro, sendo o verdadeiro "sujeito histórico" (esquerdistas
acreditam na história como sujeito e no sujeito como objeto)
das mudanças, os que não estão com ele ou padecem
de malformação seres tumorais, patológicos
ou são inaptos, regressivos, tardios, já vencidos
pela linha evolutiva da política, de que o partido é
a verdadeira voz ativa e o ponto de chegada. Na fantasia do petismo,
o destino de todo delfim é se render aos sans-culottes.
Os petistas se esforçam
para fingir uma agenda aberta, como se pudessem fundir aqueles "sins"
e aqueles "nãos" numa moderna escolástica política,
juntando a herança racionalista do capitalismo que repudiavam
com o misticismo socialista a que ainda não renunciaram.
De fato, preservado o princípio de que o partido é
o imperativo categórico, dotado de uma moralidade intrínseca
e infalível, seu conteúdo é taticamente lábil,
elástico, móvel. Ele transita da esquerda para a direita
e desta para aquela a depender da necessidade, ora afirmando a morte
das ideologias, para cooptar os "conservadores" úteis, ora
reafirmando as identidades: "nós" (que são eles) contra
"eles" (que somos nós). O resultado é pior do que
a inércia. O país sai da campanha eleitoral, por exemplo,
inimigo das privatizações. É como se a maioria
tivesse preferido o estatismo ineficiente, mas nativo, ao capitalismo
eficiente porque globalizado. Quem propõe tal escolha a uma
nação segue a trilha de uma impostura.
A mesma impostura que está
dada, entendo, pela "estagnabilidade", que é como defino
o modelo econômico petista: a soma de estabilidade com estagnação,
caracterizada por baixo crescimento e assistencialismo agressivo,
produzido à custa do esmagamento da classe média e
de uma repulsa ao que a economia de mercado tem de mais virtuoso
a competição, o individualismo, o espírito
empreendedor. O petismo transforma o brasileiro num subordinado
mental do Estado, pouco importa sua classe social. O horizonte do
partido não é mais uma sociedade sem classes, mas
classes que não encontrem outra forma de representação
política fora do partido.
Não estou entre aqueles
que acham a coerência uma virtude absoluta. O sujeito coerente
ao extremo pode é estar errando duas vezes. Se o PT tivesse,
de fato, mudado seu ideário, talvez eu o aplaudisse. O partido
que, no primeiro mandato, pregou uma coisa e praticou outra promete
se emendar no segundo: agora vai fazer o contrário... Prometo
continuar "doente". E contente a exemplo, segundo o Ibope,
de 83% dos brasileiros. Feliz Ano-Novo!
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