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Brasil
Triunfo da voz das ruas
Estudantes, donas-de-casa, sindicalistas,
padres... Eles foram às ruas protestar
contra o aumento de 91% do Congresso
e conseguiram barrar o disparate

Diego Escosteguy e Ricardo Brito
Jonne Roriz/AE
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Roberto Jayme/AE
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| Protesto da Força Sindical em
São Paulo e reunião dos deputados e senadores: eles levaram
pito até do arcebispo de Brasília |
A sociedade brasileira vinha dando
sinais de cansaço diante das bandalheiras em Brasília.
Pouco ou nada reagiu quando o último mensaleiro foi absolvido,
o deputado José Janene, acusado de sacar mais de 4 milhões
de reais do valerioduto. Quase nada fez diante da absolvição
dos primeiros sanguessugas julgados no Senado. Na semana passada,
no entanto, os deputados e senadores, ao se autoconcederem um aumento
salarial de 91%, conseguiram fazer com que uma parte dos brasileiros
voltasse a reagir e, com manifestações de pequeno
porte mas eficazes, acabasse colhendo uma vitória sonora.
Houve manifestação em Brasília, reunindo estudantes,
sindicalistas e mulheres de militares. Houve protestos em São
Paulo, com 100 pessoas fazendo uma passeata no centro da cidade.
Em Curitiba, um grupo de cinqüenta estudantes vaiou a diplomação
dos deputados. No Rio de Janeiro, o asfalto do Leblon amanheceu
pichado com palavras de repúdio ao aumento. Nada grandioso,
tudo meio errático, mas o resultado é saudável:
o aumento de 91% pode até vir a sair, mas, neste ano, nem
pensar.
O triunfo da sociedade sobre
o desatino dos políticos começou na terça-feira,
quando o Supremo Tribunal Federal, por unanimidade, decidiu que
o aumento salarial tinha de ser votado em plenário. Assim,
o aumento, que fora aprovado por apenas 26 deputados e senadores
numa reunião realizada na semana anterior, estava anulado.
O assunto tinha de ir a plenário e aí a voz
das ruas começou a surtir seu efeito. Alguns dos que haviam
aprovado antes o aumento de 91%, que elevaria seus salários
para 24.500 reais, recuaram. Outros defendiam que o aumento fosse
de 28%, o que corresponde à inflação dos últimos
quatro anos e elevaria os salários para 16.500 reais. Houve
quem defendesse manter os salários nos atuais 12.800 reais,
sem aumento algum. Com tantas propostas diferentes, nenhuma foi
a plenário. O Congresso, sob pressão, deixou o assunto
para a nova legislatura, que toma posse em fevereiro do ano que
vem. "Foi um tapa na cara dessa casta de parlamentares que acreditam
poder tudo", comemorou o deputado Fernando Gabeira, do PV do Rio,
integrante do grupo que pediu ao Supremo Tribunal Federal que barrasse
o aumento.
Evarisro Sa/AFP
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| Um grupo de deputados entrega ação no STF:
tapa na cara |
O presidente da Câmara e
candidato à reeleição, Aldo Rebelo, foi obrigado
a receber o tapa em público. "Não vejo problema em
reconhecer erros. O problema é quando você erra e persiste
no erro", disse. Houve protestos exóticos, como o do aposentado
William Carvalho, cientista político, que se acorrentou a
uma pilastra do Senado em frente ao gabinete de Renan Calheiros,
um dos artífices do superaumento. Em Salvador, numa reação
condenável, uma eleitora agrediu a faca o deputado ACM Neto,
que levou três pontos nas costas. Muitos eleitores protestaram
pela internet, entupindo as caixas de e-mail dos parlamentares com
textos de repúdio à decisão. Houve, também,
os protestos de entidades. A Ordem dos Advogados do Brasil disse
que o aumento era "imoral". A Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil pediu que os padres condenassem o aumento nas missas.
Na quarta-feira, o arcebispo de Brasília, dom João
Braz de Aviz, ao rezar a missa para uma platéia com parlamentares,
passou-lhes um sermão. "Como aceitar que um parlamentar brasileiro
receba mais de 800 reais por dia quando uma boa parte das pessoas
que representa é obrigada a viver com 12 reais por dia?",
indagou.
A sociedade, mesmo quando se
mobiliza, nem sempre conquista o recuo das autoridades, mas exemplos
recentes mostram que as mobilizações populares surtem
efeito de vez em quando (veja
quadro). É assim que funcionam as democracias
mais avançadas, onde é comum a opinião pública
pressionar os governantes. Em abril passado, por exemplo, o primeiro-ministro
francês, Dominique de Villepin, diante das manifestações
dos estudantes que se espalharam pelo país, acabou forçado
a revogar uma medida que permitia ao empregador demitir jovens sem
justa causa durante os dois primeiros anos de trabalho. Em junho
passado, em outro exemplo, o presidente George W. Bush enviou ao
Congresso americano uma emenda constitucional que previa a proibição
do casamento entre homossexuais. Como os republicanos compunham
a maioria parlamentar, parecia fácil. Mas os movimentos de
defesa dos direitos civis reagiram, chiaram e a tal maioria
republicana ruiu e a proposta foi derrubada. Nesse ambiente de confronto
pacífico entre sociedade e governo, o jogo de pressão
apenas reforça o vigor do regime democrático.
Rafael Neddermeyer/CBPress
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Custodio Coimbra/Ag. O Globo
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| Manifestação em
Brasília, rua pichada em calçadão no Rio,
protesto de estudantes em Salvador e vaias a deputados em Curitiba:
atos de indignação multiplicaram-se nas grandes
cidades |
Xandop.Ag. A Tarde/Folha Imagem
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Jonas Oliveira/Folha Imagem
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O caso do aumento dos parlamentares
brasileiros, no entanto, chama atenção pelo profundo
desequilíbrio entre a sociedade e o Congresso. Eles realmente
acreditaram que o aumento passaria em branco? Eles, de fato, imaginaram
que a sociedade toleraria uma medida assim tão acintosa?
"O caso do aumento salarial e o das absolvições em
massa mostram que o divórcio entre a opinião pública
e o Congresso pode estar chegando a um ponto crítico", analisa
o sociólogo Luiz Werneck Vianna, do Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro. Uma das razões para isso
pode ser a própria ausência do PT no campo da oposição.
"Demagogicamente ou não, o PT se comportava como a consciência
crítica do Congresso e funcionava como anteparo para as bandalheiras
que sempre se promoveram no Parlamento", afirma o cientista político
Octaciano Nogueira, da UnB. "Sem ter o PT como partido disposto
a fazer política de forma decente, o Congresso nivelou-se
por baixo. Infelizmente, agora vale tudo."
O vale-tudo inclui, naturalmente,
a busca obstinada por sucessivas regalias como demonstra
o caso dos aumentos salariais. Essas excessivas sinecuras, por sua
vez, contribuem ainda mais para distanciar os eleitores do Parlamento.
"A maioria dos deputados recebe sem trabalhar e não pára
de acumular vantagens. Eles se consideram exteriores, se percebem
quase como uma casta", diz o filósofo Roberto Romano, da
Universidade Estadual de Campinas. "Como o brasileiro médio,
que mal ganha o suficiente para se sustentar, pode imaginar ou compreender
esse mundo de fantasia?" O efeito mais nefasto desse distanciamento
é a apatia política que costuma causar nos cidadãos
o que, evidentemente, não é um problema exclusivo
do Brasil. Essa conseqüência perversa já era apontada
no século XVIII pelo filósofo francês Jean-Jacques
Rousseau, na obra seminal O Contrato Social. Nas palavras
de Rousseau: "Quando alguém diz, referindo-se aos negócios
do Estado: que me importa?, pode-se ter certeza de que o Estado
está perdido". Na semana passada, a sociedade brasileira
mostrou que, por enquanto, nem tudo está perdido.
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