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infância não, a infância dura pouco. A juventude não,
a juventude é passageira. A velhice sim. Quando um cara fica velho é
pro resto da vida. E cada dia fica mais velho. |
A
QUANTAS ANDAMOS AONDE CHEGAMOS Neste
momento em que, afinal, aparecem algumas mulheres defendendo a preservação
das rugas, e repudiam botoquicis e cirurgias deformantes, repito a minha posição
desde os 20 anos de idade, quando comecei a envelhecer. Defendi isso, entre outros
lugares, no belo livro do fotógrafo gaúcho Robinson ACHUTTI e no
roteiro Últimos Diálogos, que escrevi para Walter SALLES.
Prefácio
para FOTOGRAFIA, de Robinson Achutti Mas
olho, com ternura e profunda identificação, essa cara. E ela me
olha, essa cara, não com a cara que tem quando anda pelas ruas, mas com
a cara que a sensibilidade do dedo, do olho, do psíquico?
do fotógrafo fixou. Com um pouco da crueldade de Lucien Freud no ato de
apunhalar personalidades, muito do sentimento de Cartier-Bresson diante do trabalho
de Munkacsi: "Me mostrou que o instante é a eternidade".
Mas sinto também, nesta foto, condolência e admiração,
uma percepção reservada a muito poucos, a revelação
do negativo da beleza. Olho nesses olhos que são os meus, e é como
se eles me dissessem: "Qualquer idiota pode ser jovem. Em poucos anos se consegue
isso. Mas caras jovens são fotograficamente aflitivas. Não têm
biografia. Chapas sem emulsão. Lisas. Pois é preciso muito tempo
para envelhecer. E muito talento. O supremo talento da sobrevivência".
Esta cara, vejam, olhem bem o vendaval da vida passou por ela. A história
da vida está toda escrita nas sombras e reentrâncias desta fisionomia.
Não é só uma foto. É uma epopéia fisionômica.
Cara sulcada. Marcada pelo feliz sofrimento
de continuar existindo. Do
roteiro Últimos Diálogos: GONZAGA
Fui descobrindo uma forma de viver dentro e fora do viver normal. Descobri
o Não. Que não precisava gostar de gato nem de cachorro (pega Cátia
no colo), embora goste muito de Cátia, nem de celtas, escandinavos, políticos,
gringos, negros e mulatos. Nem de mulatas, por falar nisso. Eu gostava, meu orgasmo!,
era observar a servidão das pessoas à ditadura do gostar. Por que
gostar? O que é gostar? Eu detestava detesto! classes, gregos,
troianos, assírios, sergipanos, grã-finos, militares, acadêmicos
e, mais que tudo, intelectuais. E não falo de falsos intelectuais. Falo
dos de verdade. Inteligentes, finos, perspicazes, criativos. Falo dos mais admiráveis
que saco! São os piores. Quando não têm drama eles
arranjam, os antigos eles conservam, relembram sempre, os que existem, ampliam,
esmiúçam. A humanidade
é muito mais feliz do que os intelectuais descrevem. A tragédia
é apenas um ou outro momento da história, em um ou outro pedaço
da geografia. Tem gente que nasce, vive 70 anos, e morre sem o gozo e a glória
de um instante dramático. MARÍLIA
Morre feliz? GONZAGA
Por aí. Só não consegui me libertar de gostar... dos velhos.
Não consegui me livrar dos velhos. (Aponta, num canto, um pôster
de Bertrand Russell.) Aos poucos, com o passar dos anos, eles vieram vindo. Começaram
a me atrair, me atraem, estão em mim mesmo. Agora, coisa que não
acontecia antes, gosto de mim. (CLOSE. Olha fixo na câmera, um tempo, como
se estivesse se olhando num espelho.) Jamais me passaria dizer como aquele escritor,
medíocre, aliás, esqueci o nome, que escreveu aquele romance...
Esqueci também. (Bate na testa.) Como é mesmo o nome dele?
MARÍLIA Com esses dados é impossível
saber. GONZAGA Somerset
Magoam! Aos 90 anos disse: "Tenho horror de olhar no espelho essa minha cara chinesa".
O coitado não aprendeu nada. Qualquer idiota consegue ser jovem. É
preciso muito talento pra envelhecer. Tudo que viveram está escrito nas
sombras e desvãos das velhas fisionomias. Pessoas de 70, 80 anos, são
epopéias fisionômicas. Caras jovens são aflitivas. Lisas.
Não guardam nada. Que saco Henry Fonda moço, John Wayne moço,
como a gente vê agora a toda hora na televisão, mostrando a sua fugidia
juventude. Eu me amo, agora. (Absolutamente frio.) E eu te amo agora, mais do
que naquele momento em que, vendo você partir, descobri isso. |