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Edição 1988 . 27 de dezembro de 2006

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Carta ao leitor
Vitória da sociedade


Edmildo Cirilo dos Santos/AE
O aposentado William Carvalho: seu protesto ajudou

Nos últimos tempos, com a reeleição de boa parte dos mensaleiros seguida pelo silêncio diante da absolvição de sanguessugas, parecia que a sociedade brasileira havia sucumbido à desfaçatez parlamentar e renunciado ao seu poder de protestar e pressionar. Parecia indiferente, anestesiada, diante da maré montante de escândalos e pilantragens. Mas na semana passada, ainda que de forma espontânea e desorganizada, a sociedade reagiu com indignação ao aumento de 91% que deputados e senadores pretendiam aplicar em seus próprios salários – e forçou-os a dar um passo atrás. Houve protestos pelo país afora. Houve reações exóticas, como a do aposentado William Carvalho, que se acorrentou a uma pilastra do Senado – e também reações deploráveis, como a da baiana que feriu a faca o deputado ACM Neto. Mas a voz da sociedade se fez ouvir. Eis aí uma boa notícia.

As grandes democracias não são países monolíticos ou politicamente estanques, nem hospedam povos bovinamente submetidos às decisões das autoridades. É exatamente o contrário. A democracia é o regime que reúne as melhores condições para que as manifestações da sociedade sejam externadas e possam ser devidamente ouvidas, produzindo resultados concretos. Nem sempre a vontade popular aponta na direção correta, mas é apenas nos marcos da democracia que se exerce na plenitude o jogo em que ora se perde, ora se ganha – legitimamente. É assim na França, forçada a voltar atrás na legislação sobre o primeiro emprego depois que os jovens tomaram as ruas de Paris no início deste ano. É assim nos Estados Unidos, cuja opinião pública tem longo histórico de pressão sobre o governo, conduzindo-o sobretudo quando o assunto é algum conflito bélico – como, agora, no caso do Iraque.

A reação da semana passada é especialmente significativa no Brasil, onde se vive a conjugação de um presidente carismático como Luiz Inácio Lula da Silva com uma massa seguidora e aquiescente. A vitória da sociedade mostra que a paciência e a tolerância das pessoas são amplas mas têm limites. Se o exemplo prosperar e, com ele, os mecanismos de alerta e reação da sociedade ficarem cada vez mais sensíveis, o Brasil só terá a ganhar.

 
 
 
 
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