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Carta ao leitor
Vitória da sociedade
Edmildo Cirilo dos Santos/AE  |
| O aposentado William Carvalho: seu protesto ajudou |
Nos últimos tempos, com a reeleição
de boa parte dos mensaleiros seguida pelo silêncio diante da absolvição
de sanguessugas, parecia que a sociedade brasileira havia sucumbido à desfaçatez
parlamentar e renunciado ao seu poder de protestar e pressionar. Parecia indiferente,
anestesiada, diante da maré montante de escândalos e pilantragens.
Mas na semana passada, ainda que de forma espontânea e desorganizada, a
sociedade reagiu com indignação ao aumento de 91% que deputados
e senadores pretendiam aplicar em seus próprios salários
e forçou-os a dar um passo atrás. Houve protestos pelo país
afora. Houve reações exóticas, como a do aposentado William
Carvalho, que se acorrentou a uma pilastra do Senado e também reações
deploráveis, como a da baiana que feriu a faca o deputado ACM Neto. Mas
a voz da sociedade se fez ouvir. Eis aí uma boa notícia.
As grandes democracias não são
países monolíticos ou politicamente estanques, nem hospedam povos
bovinamente submetidos às decisões das autoridades. É exatamente
o contrário. A democracia é o regime que reúne as melhores
condições para que as manifestações da sociedade sejam
externadas e possam ser devidamente ouvidas, produzindo resultados concretos.
Nem sempre a vontade popular aponta na direção correta, mas é
apenas nos marcos da democracia que se exerce na plenitude o jogo em que ora se
perde, ora se ganha legitimamente. É assim na França, forçada
a voltar atrás na legislação sobre o primeiro emprego depois
que os jovens tomaram as ruas de Paris no início deste ano. É assim
nos Estados Unidos, cuja opinião pública tem longo histórico
de pressão sobre o governo, conduzindo-o sobretudo quando o assunto é
algum conflito bélico como, agora, no caso do Iraque.
A reação da semana passada é especialmente significativa
no Brasil, onde se vive a conjugação de um presidente carismático
como Luiz Inácio Lula da Silva com uma massa seguidora e aquiescente. A
vitória da sociedade mostra que a paciência e a tolerância
das pessoas são amplas mas têm limites. Se o exemplo prosperar e,
com ele, os mecanismos de alerta e reação da sociedade ficarem cada
vez mais sensíveis, o Brasil só terá a ganhar. |