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André
Petry
Estado de orfandade
"Deve ser um horror
trocar jantares
em Nova York por excursões
pela lama
e pela violência do Jardim Ângela,
na periferia de São Paulo"
A vitória da sociedade
sobre a ganância salarial dos parlamentares é bonita,
mas esconde uma cara feia esconde que a sociedade brasileira,
que nunca teve canais muito potentes de expressão, está
perdendo o pouco que tinha. Sim, alguns brasileiros se mexeram,
foram às ruas, ergueram faixas e bandeiras, picharam asfalto,
distribuíram frascos de óleo de peroba, mas tudo em
focos de mobilização espontânea, tudo meio caótico,
errático, voluntarioso, meio sem eira nem beira, tudo sob
um certo tom de desespero para não falar do aposentado
que acorrenta a si próprio ou, muito pior que isso, da baiana
que esfaqueia um deputado.
As manifestações
desajeitadas são o dado mais revelador do estado de afonia
social. Onde estão as passeatas dos sindicatos? Onde estão
os protestos irreverentes dos estudantes? Ora, as entidades que
habitualmente canalizam e organizam a expressão popular,
como CUT ou UNE, estão confortavelmente acomodadas nos braços
do estatismo petista. Alguém poderia dizer que tais entidades
estão paradas porque nunca-na-história-deste-país
os trabalhadores e estudantes foram tão bem tratados. Como
é patente que isso não corresponde à realidade,
a explicação é outra: tais entidades estão
cooptadas, aparelhadas e apelegadas.
O voluntarismo e a desorganização
também podem ser explicados pela mutação do
próprio PT, que cumpria bem seu papel de agitador das massas,
mas saiu de cena. Enredado em seus interesses eleitorais, enfronhado
na máquina pública, tomado pela casta de barnabés,
está deixando de ser um instrumento de expressão popular.
Na melhor das hipóteses, consegue colocar na rua sua massa
cativa, mas sem o brilho de outrora. Porque o brilho de uma manifestação
popular é a antítese do cabresto. Tudo o que é
controlado pelo patronato ocasional perde a espontaneidade popular.
O que, então, entrará
no lugar do PT que se apelegou e de sua turma? Quem vai ocupar o
espaço de canal das massas? Eis o desafio central, que ficou
tão evidente na semana passada, e a resposta soa óbvia:
deveria ser a oposição. Mas a oposição,
coitada, não tem nenhuma inserção popular,
não tem nenhuma penetração na organização
de trabalhadores, não entra na periferia das grandes cidades,
não dialoga com os segmentos populares, não conhece
a realidade dura, feia e malcheirosa da maioria dos brasileiros.
Claro que tal tarefa não
será cumprida pelos barões do pefelismo. Restariam,
como opção, os emplumados do PSDB. Fernando Henrique
já enxergou isso, e recentemente até conclamou os
tucanos a colocar o pé na periferia. Aparentemente, não
lhe deram ouvidos. Compreende-se. Deve ser um horror trocar jantares
em Nova York por excursões pela lama e pela violência
do Jardim Ângela, na periferia de São Paulo. Para Fernando
Henrique, esse banho de povo também não foi fácil.
Certa vez, confessou que, quando era cercado pelo povaréu
durante a campanha eleitoral, não gostava que o tocassem
e tinha medo de que alguém lhe surrupiasse o relógio
de pulso...
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