Pacote do bem
Economia
do país coleciona série
de bons números
Betina
Moura e João Luiz Guimarães
O
tradicional aumento no volume de compras que ocorre no período
de Natal muitas vezes desorienta quem pretende analisar o desempenho
da economia de um país. A movimentação do mercado
pode levar os mais otimistas a prever uma retomada no crescimento
que mais tarde não se confirma. Pela primeira vez em muitos
anos, os bons indicadores ligados ao Natal fazem parte de um pacote
de boas notícias no campo do crescimento. A agricultura prepara-se
para colher uma supersafra no próximo ano. A indústria
trabalha perto de sua capacidade máxima. As montadoras estão
recontratando. As multinacionais despejam dinheiro no Brasil como
nunca fizeram. E os juros? Na semana passada, o Banco Central anunciou
uma redução da taxa de juros anuais de 16,5% para
15,7%. Considerando que a inflação se situa na casa
dos 6%, pode-se falar numa taxa real da ordem de 10%.
Há
tempos o país vem tentando retomar o desenvolvimento depois
do bem-sucedido programa de estabilização. Desde que
o real foi criado, o Brasil enfrentou dois baques internacionais
ligados à crise na Ásia e na Rússia. A confiança
dos investidores nos países emergentes diminuiu e os recursos
internacionais secaram por um bom tempo. Em função
dessas dificuldades, Brasília ficou impossibilitada de tentar
repetir alguns feitos econômicos fabulosos. Um deles é
o ajuste chileno, ocorrido no final dos anos 70, que levou o país
a crescer entre 6% e 7% durante uma década. O resultado disso
é que uma massa de 1,5 milhão de chilenos, o equivalente
a 10% da população atual, deixou de ser pobre em dez
anos. É fato que o crescimento se deu no Chile de Augusto
Pinochet, quando as leis não eram consideradas inconstitucionais
e os deputados não derrubavam projetos do governo. No caso
do Brasil, onde a democracia é uma conquista definitiva,
a tarefa é mais complexa, pois o processo precisa ocorrer
dentro de regras claras.
Outro
desafio doméstico é conseguir avanços nas áreas
em que o país apresenta índices muito tímidos
para uma nação que pretende ser referência no
Terceiro Mundo (veja quadro ao lado). Entre outros problemas,
o Brasil possui investimentos modestos em educação,
tem uma taxa de poupança interna muito baixa e sua renda
per capita, apesar de ter aumentado nos últimos anos, ainda
está mais próxima dos padrões africanos que
dos europeus. Todos esses desafios precisam ser vencidos, e sem
eles o Brasil não terá grande futuro. "Mas é
fundamental frisar que a estabilidade econômica está
por trás das conquistas obtidas até agora", afirma
o ex-ministro Mailson da Nóbrega. "A moeda virou um ganho
defendido por toda a sociedade, independentemente da crença
ideológica de cada um", diz. Não é à
toa, portanto, que uma pesquisa realizada há duas semanas
pelo Ibope registrou uma alta taxa de otimismo entre a população
em relação ao desempenho da economia em 2001. Desta
vez, contudo, não é apenas um reflexo da festança
(e gastança) do Natal.
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