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Edição 1 779 - 27 de novembro de 2002
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Luiz Felipe de Alencastro

Eleições na China,
nos EUA e no Brasil

"As eleições de outubro configuraram
um marco histórico. Pela transparência
da campanha eleitoral, pela civilidade
da transição presidencial, por causa
da biografia do presidente eleito ou
da novidade
representada pelo PT"


Ilustração Ale Setti


Nas últimas semanas ocorreram eleições decisivas na China, nos Estados Unidos e no Brasil. No evento mais recente, na China, o vice-presidente Hu Jintao sucedeu a Jiang Zemin na liderança do Partido Comunista e deverá assumir a Presidência do país no próximo mês de março. Pela primeira vez em décadas, não houve expurgos nem matança de opositores políticos. A China tem 1,3 bilhão de habitantes com 196 milhões de telefones celulares controlados por um Partido Comunista com 66 milhões de membros e 2.114 representantes partidários. Não obstante, todas as decisões saem das mãos de sete ou oito dirigentes. Sobretudo das mãos brutas de Jiang Zemin, que subiu ao poder em 1989, apoiando o massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim, quando foram assassinadas dezenas de estudantes reunidos pacificamente contra a ditadura. Zemin mantém o controle do aparelho militar, e seu grupo continuará agindo junto com Hu Jintao. A política chinesa não mudará: arrocho nas liberdades públicas e ampliação da economia de mercado. O setor privado, inexistente em 1980, representa atualmente um terço do PIB chinês. O paradoxo da situação levou um articulista do The New York Times a definir a China como "a última grande ditadura de direita do mundo".

Nos Estados Unidos, as eleições também tiveram grande destaque. Bush e os republicanos reforçaram a maioria na Câmara e reconquistaram a maioria no Senado. Tal performance, realizada em eleições de permeio ao mandato presidencial, só acontecera nas legislativas de 1934, consagrando a vitória dos democratas sob a Presidência de Franklin Roosevelt. Mas a comparação pára por aqui. Roosevelt também venceu a batalha das idéias e forjou uma nova identidade partidária. Intervindo na economia, ele reduziu o desemprego, reorganizou a indústria e deslanchou reformas sociais. O Partido Democrata ganhou novos e fiéis eleitores entre os assalariados urbanos, os trabalhadores, os imigrantes, os negros do Sul (antes eleitores do Partido Republicano, a agremiação de Lincoln). Em contraste, os republicanos apareciam ligados aos interesses empresariais e quejandos. Como o demonstram os cientistas políticos D. Green e E. Schickler numa penetrante análise (The New York Times, 12 de novembro), esses padrões identitários ainda perduram. Sondagem recente mostrou que 57% dos americanos acham os republicanos mais próximos das grandes empresas do que das pessoas comuns, enquanto apenas 25% fazem julgamento similar a respeito dos democratas. Mas a grande maioria associa os republicanos à defesa da segurança nacional, ao passo que os democratas são ligados a políticas de bem-estar social. Pautando a campanha eleitoral pela ofensiva militar contra o Iraque, Bush centrou o debate na questão da segurança nacional e ganhou as eleições. Contudo, como observam os pesquisadores citados acima, os republicanos nada mais fizeram que se conformar à sua imagem tradicional, sem conseguir arrebanhar novos eleitores nem modificar o perfil de seu partido.

No Brasil, as eleições de outubro configuraram um marco histórico. Pela transparência da campanha eleitoral, pela civilidade da transição presidencial, por causa da biografia do presidente eleito ou da novidade representada pelo PT no Brasil e na América Latina, a maior parte da imprensa nacional e estrangeira reconheceu o caráter excepcional do evento.

Na China, as eleições confirmam um governo autocrático que remete o país à tradição de seus imperadores de outrora. Nos Estados Unidos, as eleições ratificam padrões partidários inaugurados há quase setenta anos. Nas eleições brasileiras, muitos se entregaram a previsões catastróficas a respeito do presidente eleito; outros avaliam que, no final das contas, predominará a pasmaceira partidária de sempre (Otavio Frias Filho, "Mais do mesmo", Folha de S.Paulo, 14 de novembro). Espera-se que ambas as opiniões estejam equivocadas. Nem tanto, nem tão pouco!

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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