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Luiz
Felipe de Alencastro
Eleições
na China,
nos EUA e no Brasil
"As
eleições de outubro configuraram
um marco histórico. Pela transparência
da campanha eleitoral, pela civilidade
da transição presidencial, por causa
da biografia do presidente eleito ou
da novidade representada pelo PT"
Ilustração Ale Setti
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Nas últimas semanas ocorreram eleições decisivas
na China, nos Estados Unidos e no Brasil. No evento mais recente, na China,
o vice-presidente Hu Jintao sucedeu a Jiang Zemin na liderança
do Partido Comunista e deverá assumir a Presidência do país
no próximo mês de março. Pela primeira vez em décadas,
não houve expurgos nem matança de opositores políticos.
A China tem 1,3 bilhão de habitantes com 196 milhões de
telefones celulares controlados por um Partido Comunista com 66 milhões
de membros e 2.114 representantes partidários.
Não obstante, todas as decisões saem das mãos de
sete ou oito dirigentes. Sobretudo das mãos brutas de Jiang Zemin,
que subiu ao poder em 1989, apoiando o massacre da Praça da Paz
Celestial, em Pequim, quando foram assassinadas dezenas de estudantes
reunidos pacificamente contra a ditadura. Zemin mantém o controle
do aparelho militar, e seu grupo continuará agindo junto com Hu
Jintao. A política chinesa não mudará: arrocho nas
liberdades públicas e ampliação da economia de mercado.
O setor privado, inexistente em 1980, representa atualmente um terço
do PIB chinês. O paradoxo da situação levou um articulista
do The New York Times a definir a China como "a última grande
ditadura de direita do mundo".
Nos Estados
Unidos, as eleições também tiveram grande destaque.
Bush e os republicanos reforçaram a maioria na Câmara e reconquistaram
a maioria no Senado. Tal performance, realizada em eleições
de permeio ao mandato presidencial, só acontecera nas legislativas
de 1934, consagrando a vitória dos democratas sob a Presidência
de Franklin Roosevelt. Mas a comparação pára por
aqui. Roosevelt também venceu a batalha das idéias e forjou
uma nova identidade partidária. Intervindo na economia, ele reduziu
o desemprego, reorganizou a indústria e deslanchou reformas sociais.
O Partido Democrata ganhou novos e fiéis eleitores entre os assalariados
urbanos, os trabalhadores, os imigrantes, os negros do Sul (antes eleitores
do Partido Republicano, a agremiação de Lincoln). Em contraste,
os republicanos apareciam ligados aos interesses empresariais e quejandos.
Como o demonstram os cientistas políticos D. Green e E. Schickler
numa penetrante análise (The New York Times, 12 de novembro),
esses padrões identitários ainda perduram. Sondagem recente
mostrou que 57% dos americanos acham os republicanos mais próximos
das grandes empresas do que das pessoas comuns, enquanto apenas 25% fazem
julgamento similar a respeito dos democratas. Mas a grande maioria associa
os republicanos à defesa da segurança nacional, ao passo
que os democratas são ligados a políticas de bem-estar social.
Pautando a campanha eleitoral pela ofensiva militar contra o Iraque, Bush
centrou o debate na questão da segurança nacional e ganhou
as eleições. Contudo, como observam os pesquisadores citados
acima, os republicanos nada mais fizeram que se conformar à sua
imagem tradicional, sem conseguir arrebanhar novos eleitores nem modificar
o perfil de seu partido.
No Brasil,
as eleições de outubro configuraram um marco histórico.
Pela transparência da campanha eleitoral, pela civilidade da transição
presidencial, por causa da biografia do presidente eleito ou da novidade
representada pelo PT no Brasil e na América Latina, a maior parte
da imprensa nacional e estrangeira reconheceu o caráter excepcional
do evento.
Na China,
as eleições confirmam um governo autocrático que
remete o país à tradição de seus imperadores
de outrora. Nos Estados Unidos, as eleições ratificam padrões
partidários inaugurados há quase setenta anos. Nas eleições
brasileiras, muitos se entregaram a previsões catastróficas
a respeito do presidente eleito; outros avaliam que, no final das contas,
predominará a pasmaceira partidária de sempre (Otavio Frias
Filho, "Mais do mesmo", Folha de S.Paulo, 14 de novembro). Espera-se
que ambas as opiniões estejam equivocadas. Nem tanto, nem tão
pouco!
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor
titular da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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