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Roberto
Pompeu de Toledo
Em
defesa de
duas instituições
A
Lula cabe honrar
o
Palácio
da
Alvorada; a
FHC, trazer
à vida
a ex-Presidência
Se tudo der certo, na atual transição de governo, teremos
ao final, além de uma troca de guarda sem sobressaltos, o reforço
de duas instituições republicanas: o palácio presidencial
e a ex-Presidência. Como?!, estranhará o leitor. O palácio
presidencial, uma instituição? Mais estranho ainda lhe parecerá
falar em "ex-Presidência" como se fosse algo que existisse no mundo
das coisas, dotado de substância, caracterizado por elementos equivalentes
ao de um organismo vivo, e, mais ainda, convertido em peça com
alguma função no repertório das instituições
de uma democracia. Pois aqui se quer provar que tanto o palácio
como a ex-Presidência merecem sim o tratamento de "instituições",
e instituições às quais a atual transição
oferece a oportunidade de se fixarem de forma mais firme, quem sabe definitiva,
na paisagem política nacional.
Depois de um período de hesitação, o presidente eleito
Luiz Inácio Lula da Silva parece ter decidido que morará
mesmo no Palácio da Alvorada. Ainda é bom dizer "parece"
porque a decisão não está sacramentada. Mas, entre
o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto, que encantou o presidente
eleito pelo ambiente rústico e isolado, a churrasqueira e o campinho
de futebol, a decisão parece ser a de eleger o Alvorada como residência
principal e o Torto como refúgio de fim de semana. É a melhor
solução, senão para a família Lula da Silva,
com certeza para o Brasil. Há aspectos práticos que desaconselham
o Torto, que vão da falta de estrutura como a já implantada
no Alvorada às dificuldades de trânsito no caminho que o
liga ao Palácio do Planalto, mas não é disso que
se trata. Não se está aqui querendo repisar em questões
práticas. A questão de fundo é: o Palácio
da Alvorada é a residência do presidente da República
Federativa do Brasil e ponto final. Está intimamente ligado à
figura do presidente. Preteri-lo faz mal aos dois ao palácio
e ao presidente. O palácio rebaixa-se à condição
de fachada sem alma. O presidente fica menos presidente. Exagerando um
pouco, mas só um pouco, é como se abrisse mão da
faixa. Sobretudo, preteri-lo faz mal aos brasileiros em geral, dos quais
se amputa uma referência da Presidência.
Dito de outra forma, se até agora ainda não se foi claro:
alguém imagina a Presidência americana sem a Casa Branca?
Ou a chefia do gabinete britânico sem o número 10 da Downing
Street? Nesses casos, a casa é o cargo, e o cargo é a casa.
No Brasil, pode-se contra-argumentar, nem sempre os presidentes moraram
no palácio presidencial. Dois joões, Goulart e Figueiredo,
preferiram o Torto. Fernando Collor, ignobilmente, continuou na própria
casa, para a qual foi transferido um complexo e custoso aparato de segurança
e comunicações. E Itamar Franco flutuou entre o Palácio
do Jaburu, da Vice-Presidência, e uma residência na Península
dos Ministros. Exatamente porque já houve tais casos, no entanto,
é que não deve haver mais. Hoje vivemos uma transição
dentro da normalidade. Pela primeira vez, desde 1961, um presidente eleito
passará o poder a outro presidente eleito. É hora de se
assentarem as coisas, inclusive no plano da moradia. Ajuda a dar idéia
de uma república já não tão instável
e cambiante, não tão sujeita aos caprichos pessoais.
Quanto à outra instituição referida, a da ex-Presidência,
cabe ao presidente Fernando Henrique Cardoso, mais ainda do que reforçá-la
ou consolidá-la, construí-la. O padrão de comportamento
dos presidentes brasileiros, ao encerrar os mandatos, tem sido o de relançar-se
de imediato à liça, engalfinhando-se de novo no corpo-a-corpo
por um governo de Estado ou cadeira no Senado, um mandato de deputado
ou, mesmo, uma prefeitura. Rebaixam-se com isso à pequenez da luta
partidária, numa descida durante a qual perdem o status e a dignidade
que a condição de antigo ocupante da suprema magistratura
lhes deveria conferir. Se se tratasse apenas de desrespeito consigo próprios,
o problema seria só deles. Mas o desrespeito é para com
a Presidência, desqualificada como apenas um cargo entre tantos,
só um a mais entre os muitos a que se pode aspirar na vida, e depois
do qual se pode empreender o caminho de volta a partir de não importa
qual outro patamar.
Fernando Henrique Cardoso, pelo que tem dito, e pelo que se sabe dele,
não se permitirá correr atrás de governo de Estado
ou de lugar no Congresso. Talvez, como dizem, não despreze uma
oportunidade de volta à Presidência. É menos grave,
mas o ideal mesmo é que se conforme à plena e cabal condição
de ex-presidente. Um ex-presidente bem resolvido é reserva moral
e fonte de sabedoria. Veja-se o exemplo de Jimmy Carter, que acaba de
ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Como o avô para uma família,
representa, para a nação, o triunfo do sossego sobre a fúria,
da temperança sobre a paixão. Se Fernando Henrique Cardoso
assumir a tarefa de estabelecer entre nós a instituição
da ex-Presidência, terá contribuído para a edificação
de mais um esteio da convivência democrática e da dignidade
da vida pública.
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