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Edição 1 779 - 27 de novembro de 2002
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Movidos a tabaco

A Polícia Federal descobre que
presidenciáveis paraguaios estão
por trás do contrabando de cigarros

Malu Gaspar

 
Ricardo Stuckert
O general Oviedo: conversas com contrabandistas

A Polícia Federal montou o organograma de uma superestrutura de falsificação e contrabando de cigarros que funciona na fronteira do Brasil com o Paraguai. Foram identificadas 36 fábricas que mandaram para o Brasil perto de 50 bilhões de cigarros falsificados por ano. São marcas conhecidas, como Derby, Free e Marlboro, que contam com toda uma rede de distribuição clandestina em onze Estados brasileiros. A maior parte dessas fábricas empacota os cigarros em embalagens de marcas nacionais, com texto em português e até o aviso do Ministério da Saúde, com aquelas fotos de moribundos, igualzinho ao original. Calcula-se que a fraude movimente algo em torno de 2 bilhões de reais por ano. Que o Paraguai é um centro de excelência em matéria de produtos falsificados, inclusive cigarros, qualquer camelô da esquina sabe. Mas há um dado adicional que torna o caso dos cigarros mais interessante. Por trás do bilionário negócio, na ponta do organograma, aparece gente graúda. A polícia sabe que uma das maiores fábricas de cigarros falsos do Paraguai funciona em Assunção. O principal acionista da empresa é Osvaldo Domínguez Dibb, pré-candidato à Presidência da República pelo Partido Colorado, no poder há mais de cinqüenta anos. Na relação de sócios das tabacaleras, como são chamadas as fábricas, há ainda políticos de vários tamanhos e até um sobrinho do ministro da Justiça do Paraguai.

Osvaldo Dibb é a figura mais vistosa desse universo que mistura política e negócios escusos. Ele é dono das tabacaleras Boquerón, a maior do país, e Montecarlo, além do jornal La Nación e de várias emissoras de TV. Dibb também é presidente do Olimpia, o time campeão da Taça Libertadores da América. Suas fábricas não têm autorização para produzir marcas brasileiras, mas fabricam várias, entre elas Derby e Free. O Derby original é o cigarro mais vendido no Brasil, com 35% de participação no mercado. Só as empresas do presidenciável paraguaio esparramam no mercado nacional mais de 10 bilhões de cigarros, segundo estimativas das autoridades brasileiras. Três em cada dez cigarros acesos no Brasil são falsos. O Derby-Boquerón é o carro-chefe do contrabando. Mesmo com o sucesso de vendas, Dibb quer aprimorar ainda mais seus produtos. Ele está tentando registrar como marca de sua empresa até o selo da Receita Federal brasileira, aquele que identifica no maço de cigarros o pagamento do IPI. O selo é a principal ferramenta disponível para dificultar o contrabando. A falsificação, assim, ficaria quase perfeita. No mercado desde 1992, as empresas de Dibb são alvo de mais de oitenta processos criminais, mas ele nunca foi condenado. Compadre do ex-presidente Juan Carlos Wasmosy, seu principal objetivo, hoje, é ganhar a indicação do Partido Colorado nas próximas semanas.

Se for confirmado candidato, Osvaldo Dibb pode enfrentar um peso-pesado, que, mesmo foragido do Paraguai, pretende disputar as eleições. O general Lino Oviedo, o político mais popular do país, fugiu para o Brasil há dois anos, após ter sido condenado à prisão por uma tentativa de golpe de Estado, em 1996. Ele também é acusado de ser o mandante do assassinato do vice-presidente Luis Argaña, três anos depois. O Paraguai já pediu sua extradição, negada pela Justiça brasileira. Oviedo, que sempre foi colorado, decidiu fundar um novo partido, a União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace), para ganhar espaço e tentar desvincular sua imagem da política tradicional. Seus partidários tentam conseguir uma anistia para que ele possa voltar ao país e disputar a Presidência. Enquanto isso não acontece, Oviedo vai fazendo política do lado de cá. Para não perder terreno junto ao rival, ele também mantém contatos com cidadãos não muito éticos – os contrabandistas.

No início do mês, a Polícia Federal desmantelou uma rede de distribuição de cigarros paraguaios no Brasil. Prendeu catorze pessoas e apreendeu 800.000 cigarros só da marca Derby, ou melhor, Derby-Boquerón. Nos autos do processo sobre o caso, arquivado sob sigilo na Justiça Federal de Foz do Iguaçu, Oviedo aparece em transcrições de conversas telefônicas num clima de camaradagem com os contrabandistas. Num dos diálogos, comenta o fechamento da Ponte da Amizade com um deles e diz que vai tentar ajudá-los. É informado sobre a queda de um avião de uma tabacalera, que ele demonstra conhecer. E despede-se de seu interlocutor, o contrabandista João César Passos, com uma saudação que costuma reservar a seus partidários. Isso não quer dizer que o general seja contrabandista ou esteja sendo patrocinado por eles. Mas não é demais lembrar que Oviedo é um homem que gosta de dizer que não é rico, mas tem um patrimônio de fazer inveja a qualquer cidadão remediado. Quando estava no comando do Exército paraguaio, ele construiu em sua residência oficial seis quadras de tênis e gastou 1,5 milhão de dólares apenas num salão de festas. Perguntado sobre a origem do dinheiro, dizia que vinha de "contribuições empresariais".

"Antes, esses empresários eram apenas financiadores das campanhas. Agora, eles querem o poder", diz um diplomata brasileiro no Paraguai. Os contrabandistas brasileiros trabalham em sintonia fina com os colegas paraguaios. João César Passos – o contrabandista amigo do general Oviedo, preso na operação realizada pela PF no início do mês – é sócio de José Burró numa tabacalera da cidade de Hernandarias. Burró é sobrinho do ministro da Justiça paraguaio, Angel Burró. "Por mais que trabalhemos do lado de cá, como não podemos investigar do outro lado da fronteira, acabamos pegando até agora só os brasileiros", lamenta o delegado Joaquim Mesquita, da Polícia Federal de Foz do Iguaçu. Essas conexões todas podem parecer estranhas, esdrúxulas demais. Mas, em se tratando de Paraguai, não chegam a causar espanto. No início do ano passado, o então presidente Luis González Macchi foi pilhado usando um BMW roubado no Brasil. Na época, o ministro da Fazenda, Francisco Oviedo, responsável pela compra do carro, saiu-se com essa pergunta: "O que aconteceria se nós revisássemos tudo o que compramos?". Ele mesmo respondeu: "Não faríamos nenhuma operação comercial". Também não fariam política.


Com reportagem de Ronaldo França


   
 
   
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