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Movidos
a tabaco
A
Polícia Federal descobre que
presidenciáveis paraguaios estão
por trás do contrabando de cigarros
Malu Gaspar
Ricardo Stuckert
 |
| O
general Oviedo: conversas com contrabandistas |
A
Polícia Federal montou o organograma de uma superestrutura de falsificação
e contrabando de cigarros que funciona na fronteira do Brasil com o Paraguai.
Foram identificadas 36 fábricas que mandaram para o Brasil perto
de 50 bilhões de cigarros falsificados por ano. São marcas
conhecidas, como Derby, Free e Marlboro, que contam com toda uma rede
de distribuição clandestina em onze Estados brasileiros.
A maior parte dessas fábricas empacota os cigarros em embalagens
de marcas nacionais, com texto em português e até o aviso
do Ministério da Saúde, com aquelas fotos de moribundos,
igualzinho ao original. Calcula-se que a fraude movimente algo em torno
de 2 bilhões de reais por ano. Que o Paraguai é um centro
de excelência em matéria de produtos falsificados, inclusive
cigarros, qualquer camelô da esquina sabe. Mas há um dado
adicional que torna o caso dos cigarros mais interessante. Por trás
do bilionário negócio, na ponta do organograma, aparece
gente graúda. A polícia sabe que uma das maiores fábricas
de cigarros falsos do Paraguai funciona em Assunção. O principal
acionista da empresa é Osvaldo Domínguez Dibb, pré-candidato
à Presidência da República pelo Partido Colorado,
no poder há mais de cinqüenta anos. Na relação
de sócios das tabacaleras, como são chamadas as fábricas,
há ainda políticos de vários tamanhos e até
um sobrinho do ministro da Justiça do Paraguai.
Osvaldo Dibb é a figura mais vistosa desse universo que mistura
política e negócios escusos. Ele é dono das tabacaleras
Boquerón, a maior do país, e Montecarlo, além
do jornal La Nación e de várias emissoras de TV.
Dibb também é presidente do Olimpia, o time campeão
da Taça Libertadores da América. Suas fábricas não
têm autorização para produzir marcas brasileiras,
mas fabricam várias, entre elas Derby e Free. O Derby original
é o cigarro mais vendido no Brasil, com 35% de participação
no mercado. Só as empresas do presidenciável paraguaio esparramam
no mercado nacional mais de 10 bilhões de cigarros, segundo estimativas
das autoridades brasileiras. Três em cada dez cigarros acesos no
Brasil são falsos. O Derby-Boquerón é o carro-chefe
do contrabando. Mesmo com o sucesso de vendas, Dibb quer aprimorar ainda
mais seus produtos. Ele está tentando registrar como marca de sua
empresa até o selo da Receita Federal brasileira, aquele que identifica
no maço de cigarros o pagamento do IPI. O selo é a principal
ferramenta disponível para dificultar o contrabando. A falsificação,
assim, ficaria quase perfeita. No mercado desde 1992, as empresas de Dibb
são alvo de mais de oitenta processos criminais, mas ele nunca
foi condenado. Compadre do ex-presidente Juan Carlos Wasmosy, seu principal
objetivo, hoje, é ganhar a indicação do Partido Colorado
nas próximas semanas.
Se
for confirmado candidato, Osvaldo Dibb pode enfrentar um peso-pesado,
que, mesmo foragido do Paraguai, pretende disputar as eleições.
O general Lino Oviedo, o político mais popular do país,
fugiu para o Brasil há dois anos, após ter sido condenado
à prisão por uma tentativa de golpe de Estado, em 1996.
Ele também é acusado de ser o mandante do assassinato do
vice-presidente Luis Argaña, três anos depois. O Paraguai
já pediu sua extradição, negada pela Justiça
brasileira. Oviedo, que sempre foi colorado, decidiu fundar um novo partido,
a União Nacional dos Cidadãos Éticos (Unace), para
ganhar espaço e tentar desvincular sua imagem da política
tradicional. Seus partidários tentam conseguir uma anistia para
que ele possa voltar ao país e disputar a Presidência. Enquanto
isso não acontece, Oviedo vai fazendo política do lado de
cá. Para não perder terreno junto ao rival, ele também
mantém contatos com cidadãos não muito éticos
os contrabandistas.
No início do mês, a Polícia Federal desmantelou uma
rede de distribuição de cigarros paraguaios no Brasil. Prendeu
catorze pessoas e apreendeu 800.000 cigarros só da marca Derby,
ou melhor, Derby-Boquerón. Nos autos do processo sobre o caso,
arquivado sob sigilo na Justiça Federal de Foz do Iguaçu,
Oviedo aparece em transcrições de conversas telefônicas
num clima de camaradagem com os contrabandistas. Num dos diálogos,
comenta o fechamento da Ponte da Amizade com um deles e diz que vai tentar
ajudá-los. É informado sobre a queda de um avião
de uma tabacalera, que ele demonstra conhecer. E despede-se de
seu interlocutor, o contrabandista João César Passos, com
uma saudação que costuma reservar a seus partidários.
Isso não quer dizer que o general seja contrabandista ou esteja
sendo patrocinado por eles. Mas não é demais lembrar que
Oviedo é um homem que gosta de dizer que não é rico,
mas tem um patrimônio de fazer inveja a qualquer cidadão
remediado. Quando estava no comando do Exército paraguaio, ele
construiu em sua residência oficial seis quadras de tênis
e gastou 1,5 milhão de dólares apenas num salão de
festas. Perguntado sobre a origem do dinheiro, dizia que vinha de "contribuições
empresariais".
"Antes,
esses empresários eram apenas financiadores das campanhas. Agora,
eles querem o poder", diz um diplomata brasileiro no Paraguai. Os contrabandistas
brasileiros trabalham em sintonia fina com os colegas paraguaios. João
César Passos o contrabandista amigo do general Oviedo, preso
na operação realizada pela PF no início do mês
é sócio de José Burró numa tabacalera
da cidade de Hernandarias. Burró é sobrinho do ministro
da Justiça paraguaio, Angel Burró. "Por mais que trabalhemos
do lado de cá, como não podemos investigar do outro lado
da fronteira, acabamos pegando até agora só os brasileiros",
lamenta o delegado Joaquim Mesquita, da Polícia Federal de Foz
do Iguaçu. Essas conexões todas podem parecer estranhas,
esdrúxulas demais. Mas, em se tratando de Paraguai, não
chegam a causar espanto. No início do ano passado, o então
presidente Luis González Macchi foi pilhado usando um BMW roubado
no Brasil. Na época, o ministro da Fazenda, Francisco Oviedo, responsável
pela compra do carro, saiu-se com essa pergunta: "O que aconteceria se
nós revisássemos tudo o que compramos?". Ele mesmo respondeu:
"Não faríamos nenhuma operação comercial".
Também não fariam política.
Com reportagem de Ronaldo França
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