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A
válvula cardíaca suspeita
Autoridades italianas investigam
a
qualidade de prótese brasileira
ligada à morte de doze pessoas
Gabriela Carelli e Sandra Brasil
Nélio Rodrigues/Ag. 1° Plano
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| O
galpão onde funciona a fábrica da Tri, em Nova Lima, Minas Gerais |
Na
sexta-feira da semana passada, a Agência Nacional de Vigilância
Sanitária despachou uma equipe de fiscais para inspecionar uma
fábrica de produtos médicos chamada Tri Technologies. A
empresa funciona na cidade de Nova Lima, em Minas Gerais, e vende válvulas
cardíacas. O objetivo dos fiscais era colher informações
para esclarecer uma denúncia grave feita na Itália, para
onde a Tri Technologies vendeu suas válvulas nos últimos
dois anos. De acordo com a denúncia, publicada nos principais jornais
daquele país, 125 pacientes operados em dois hospitais italianos,
um localizado em Pádua e outro em Turim, apresentaram sintomas
que podem estar relacionados a um defeito na válvula. Desses pacientes,
três foram operados pela segunda vez para substituir a prótese,
mas doze não tiveram a mesma sorte e acabaram morrendo. Em uma
das mortes, já investigada, os médicos dizem ter estabelecido
uma relação de causa e efeito com a válvula mineira.
Nas demais, o que existe é uma forte suspeita.
O Ministério da Saúde italiano determinou a criação
de um grupo de trabalho para investigar as denúncias. "O que mais
nos preocupa é a hipótese de que todas as válvulas
brasileiras sejam defeituosas", disse a VEJA Luigi Chiarello, presidente
da Sociedade Italiana de Cirurgia Cardiovascular. De acordo com a empresa
italiana responsável pela importação das próteses
brasileiras, chamada Bio.Net, a Tri Techonologies vendeu 5.000 unidades
de suas válvulas à Itália nos últimos dois
anos. Os produtos foram parar nos hospitais com a ajuda de um italiano
de nome Giovani Albertin, que comercializa produtos farmacêuticos
e hospitalares. Foi ele quem ofereceu as próteses aos centros médicos
de Pádua e Turim. Na semana passada, Albertin foi preso para averiguação.
Os problemas da Tri na Itália geraram curiosidade no meio médico
brasileiro, principalmente entre os especialistas que usaram uma válvula
daquela marca em seus pacientes. No último dia 9, ao acessar o
site internacional Fórum de Cirurgia Cardíaca, o cardiologista
Theófilo Gauze, de Mato Grosso do Sul, relatou ter implantado três
dessas válvulas e que um dos pacientes morreu dois meses depois
da cirurgia. Gauze afirmou que não tem como provar que o produto
da Tri foi o responsável por essa morte. O presidente da Sociedade
Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, Jarbas Dinkhuysen, recorda-se de
uma experiência ruim com a Tri. Ele conta que três próteses
desse fabricante, implantadas em pacientes no Instituto Dante Pazzanese,
de São Paulo, apresentaram problema de mau funcionamento três
anos atrás. "Nós tivemos de fazer a troca imediata dos aparelhos",
diz Dinkhuysen. O Instituto do Coração (Incor), a principal
referência de cirurgia cardíaca no país, suspendeu
a utilização das próteses da Tri há dois anos.
"Paramos de usar porque tivemos a informação de que uma
dessas válvulas deu problema no Nordeste", diz o diretor da Unidade
Cirúrgica de Valvopatia, Pablo Pomerantzeff. Ele estima que trinta
a quarenta pacientes do Incor tenham recebido esse tipo de prótese.
"Em razão dos possíveis problemas, vamos procurar todos
os nossos pacientes que receberam as válvulas para avaliar a situação
de cada um", afirma o especialista.
As autoridades italianas querem agora descobrir que órgão
público referendou a qualidade das peças da Tri. Os registros
oficiais indicam que a companhia brasileira conseguiu um certificado chamado
CE Mark, que funciona como um selo de qualidade necessário para
quem deseja vender qualquer produto na comunidade européia. O presidente
da Sociedade Italiana de Cirurgia Cardiovascular, Luigi Chiarello, informa
ter requisitado a papelada do CE Mark que comprova a eficácia da
prótese, mas até agora não recebeu nada. "É
tudo muito estranho. Tudo o que encontrei sobre a empresa foram dez linhas
na internet ", diz Chiarello.
A troca de válvulas é um procedimento cirúrgico freqüente
no universo das operações cardíacas feitas no mundo.
Existem válvulas de vários tipos, mas elas se dividem em
dois grupos principais: a que é feita com material animal, bovino
ou suíno, e a sintética, confeccionada à base de
um composto de carbono. A Tri Technologies vende próteses sintéticas.
Segundo a Anvisa, a empresa tem registro de funcionamento desde 1999,
mas não poderia fabricar nenhum produto sem registrá-lo
previamente em Brasília. E os arquivos do governo não contêm
um só produto em nome da Tri. Nesse caso, de duas, uma: ou a empresa
vende produtos registrados em nome de terceiros, ou comercializa suas
válvulas sem autorização federal. Só a investigação
vai poder dizer. A empresa também poderia esclarecer as dúvidas,
mas na semana passada um dos sócios da companhia, o empresário
carioca Rubens Junqueira, não atendeu a reportagem. Vários
recados de VEJA foram deixados na empresa, na casa e na caixa eletrônica
do celular. A revista falou também com seu filho e uma secretária.
As ligações não foram retornadas. A informação
era de que ele estava incomunicável, numa fazenda localizada no
interior do Pará.
Com reportagem de José Edward
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