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O furacão
Gisele

Anna
Paula Buchalla e Paula Neiva

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"Jamais
me levanto da cama por menos de 10.000 dólares." A frase, atribuída
à modelo canadense Linda Evangelista, no início dos anos
90, demarcou o início de uma era: a das supermodelos. Além
de Linda, Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Elle MacPherson, Kate Moss,
Christy Turlington e Naomi Campbell fulguravam nas passarelas da década
passada. Elas foram muito mais do que rostos belíssimos e corpos
perfeitos a servir de cabide para as criações de estilistas
famosos. Conquistaram o status de estrelas, ganharam mais notoriedade
do que as roupas que desfilavam e entraram para o rol das celebridades
milionárias. Na segunda geração de supermodelos,
ninguém é páreo para a brasileira Gisele Bündchen,
de 22 anos. Dizer que ela reina absoluta não é força
de expressão. Gisele foi incluída na lista das 100 maiores
celebridades do planeta, elaborada pela revista Forbes. Desde 1998,
quando foi alçada ao estrelato, a brasileira faturou cerca de 100
milhões de reais, o equivalente a 30 milhões de dólares.
Nunca houve uma modelo que ganhasse tanto. Para se ter uma idéia,
segundo a publicação inglesa Business Age, a americana
Cindy Crawford e a australiana Elle MacPherson foram as que conseguiram
amealhar as maiores fortunas. Cindy tem hoje 36,3 milhões de dólares
e Elle, 35,2 milhões. São valores maiores do que o de Gisele.
Ambas, no entanto, levaram dez anos para juntar esse dinheiro. Gisele
conseguiu faturar quase o mesmo na metade do tempo. E, do jeito que seus
negócios prosperam, deverá superar a marca dos 40 milhões
de dólares. Linda, rica (e absoluta, e necessária, e vitaminada),
ela não sai da cama por menos de 16.000 verdinhas.
Gisele, que é um colírio para os olhos de todo mundo, virou
uma pedra no sapato dos ecologistas. Isso porque ela aceitou ser garota-propaganda
de um fabricante de casacos de pele, a Blackglama. Nas fotos da campanha,
que começou a ser veiculada nos Estados Unidos há coisa
de vinte dias, Gisele, exuberante como sempre, aparece envolta em vistosos
casacos e estolas de mink. Foi o estopim para que se declarasse uma guerra
contra a modelo, que teve seu ápice há duas semanas. Durante
a gravação do desfile da grife de lingerie Victoria's Secret
para a rede de televisão americana CBS, no momento em que Gisele
vinha em direção às câmeras, de cinta-liga
preta e sapatos de salto alto vermelhos, quatro ativistas da organização
People for the Ethical Treatment of Animals (Pessoas pelo Tratamento Ético
dos Animais), a Peta, pularam na passarela. Elas carregavam cartazes com
a frase "Gisele, a escória da pele" e xingavam a modelo. Profissional
tarimbada, a beldade brasileira continuou a desfilar, enquanto seguranças
do evento se encarregavam de tirar as manifestantes dali. Pouco depois
da confusão, a entrada de Gisele foi regravada.
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De
anjo a vilã
AP
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AP
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Ao posar para a marca de casacos de pele Blackglama (primeira
foto no alto), Gisele atraiu a ira dos ativistas da ONG Peta,
que invadiram o desfile da Victoria's Secret com cartazes: "Gisele,
escória da pele" (no centro). Em outro protesto da
ONG, a cantora Sophie Bextor aparece num anúncio com uma
raposa morta: "Aqui está o resto de seu casaco de pele"
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Fosse
outra modelo, os ecologistas não teriam ficado tão irritados.
Mas Gisele é Gisele. Ao fazer a campanha da Blackglama, é
como se ela, "o mais belo animal sobre a Terra", para usar o elogio que
o diretor francês Jean Cocteau endereçou à atriz Ava
Gardner, desse a chancela para que as mulheres pudessem usar sem culpa
casacos que, para ser confeccionados, exigem a morte de dezenas de bichinhos.
Com isso, acreditam os ecologistas da Peta, foram por água abaixo
anos de luta pela conscientização contra essa indústria,
considerada uma das mais cruéis do mundo. Muitos especialistas
em marketing e consultores de moda se perguntam por que Gisele, dona de
uma carreira tão bem pavimentada, aceitou emprestar sua imagem
a algo tão malvisto e politicamente incorreto. A julgar pelo que
Gisele tem dito a respeito, inclusive
na entrevista que deu a VEJA, ela simplesmente
não fazia idéia de que estava se metendo numa enrascada.
"Fazemos força para acreditar que a participação
de Gisele no anúncio da Blackglama ocorreu mesmo por ignorância,
e não por falta de coração", diz Lisa Franzetta,
coordenadora da Peta. "Se ela soubesse que, para fazer um único
casaco, são necessários no mínimo cinqüenta
minks, e visse esses animais sendo mortos por inanição,
eletrocutados ou envenenados, não aceitaria anunciar casacos de
pele."
O contrato de Gisele com a Blackglama tem dois meses de duração.
Representantes da Peta procuraram a agência da modelo em Nova York,
a IMG, para tentar fazer com que o acordo com o fabricante de casacos
de pele seja rompido. É improvável que isso ocorra, mas
Gisele afirma estar pronta a colaborar de alguma forma com a organização,
que não lhe dá trégua. Uma das hipóteses cogitadas
para reparar o dano à sua imagem e amainar a fúria dos ecologistas
é uma doação financeira à Peta. Participar
da campanha da Blackglama foi um deslize que poderia ter conseqüências
mais funestas se Gisele tivesse uma concorrente para a qual pudesse perder
contratos. Como ela não tem, pelo menos até o presente,
é difícil que a trajetória da brasileira sofra turbulências.
O que, afinal de contas, faz de Gisele Bündchen uma modelo única?
O 1,79 metro, os 51 quilos, os 89 centímetros de busto, 57 de cintura
e 89 de quadris certamente são medidas embasbacantes. Os olhos
azuis e a farta cabeleira dourada também são de outro mundo.
Mas mulheres com aparência deslumbrante não são exatamente
raridade no mundo da moda. Já que não existem instrumentos
de aferição de graus de beleza, toda e qualquer resposta
só é possível no terreno das aproximações.
Pode-se dizer, então, que Gisele, parafraseando Shakespeare, "ensina
as tochas a brilhar". De fato, o seu colorido de pele, cabelo e olhos,
combinado às formas perfeitas, irradia luz e ofusca quem está
do seu lado. Além disso, ela é dona de um estilo todo próprio,
que foge às caras e bocas típicas das modelos. Gisele desfila
de um jeito inteiramente singular, que ninguém consegue imitar.
Quando chega à extremidade da passarela, toda modelo dá
aquela paradinha de praxe, para que os fotógrafos façam
a festa. Essa paradinha dura um segundo, no máximo, depois da qual
a modelo dá uma volta e inicia o retorno aos bastidores. Pois bem,
é nessa fração ínfima de tempo que Gisele
é mais Gisele do que nunca. Com as mãos na cintura e um
olhar oblíquo capaz de aquecer as almas mais gélidas, ela
arqueia o corpo, lançando o tronco para a frente e empinando o
derrière e é nesse vácuo posterior,
onde deveria estar a sua coluna lombar, agora arqueada, que moram todas
as fantasias masculinas, bem como a inveja feminina.
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CHINELAS
PODEROSAS
Tudo o que ela anuncia vira sucesso. A sandália Ipanema Gisele Bündchen,
o primeiro produto licenciado com a marca da modelo, superou as expectativas
de venda do fabricante. Desde julho, foram vendidos cerca de 5 milhões
de pares |
Outra
característica especial de Gisele, atestam os fotógrafos
e maquiadores, é a sua capacidade de transmutação.
Seu rosto, que não tem nada daqueles traços de bonequinha
de luxo e apresenta como marca principal o nariz proeminente, permite
que ela assuma os ares de diversos tipos de mulher nos ensaios fotográficos
e desfiles que protagoniza seja o da vamp, o da jovem senhora ou
o da profissional independente e liberada (veja
quadro). Por último, mas não menos importante,
Gisele chegou aonde chegou porque é de um profissionalismo ímpar.
Um exemplo que encanta os estilistas: os códigos impregnados de
narcisismo que permeiam informalmente o universo dos desfiles estabelecem
que a primeira modelo a entrar na passarela ou a última a aparecer
é a mais importante do evento. Nada afeita a estrelismos, Gisele
não reclama quando deixa de ser escolhida para abrir ou fechar
um desfile. Pontual, compenetrada, paciente e zelosa, Gisele cuida da
carreira e das finanças pessoalmente. Conta com a assessoria de
advogados e contadores nos Estados Unidos, Europa e Brasil e de duas empresárias
uma americana e outra brasileira , mas a última palavra
é sempre dela. Ao contrário do que costuma fazer a maioria
dos famosos brasileiros, Gisele mantém a família afastada
de seus negócios. "Quero somente profissionais trabalhando para
mim. O motivo é simples: se um deles não estiver fazendo
um bom trabalho, é só dispensá-lo", explica ela.
É assim, com pulso firme e um incrível tino para os negócios,
que Gisele toca a sua carreira.
Os números de Gisele são todos faiscantes. O contrato para
estrelar as campanhas da grife de lingerie americana Victoria's Secret
lhe renderá, até 2005, 20 milhões de dólares.
Em março do ano passado, Gisele foi contratada para fazer os comerciais
da C&A. Recebeu em torno de 10 milhões de reais por um ano
e meio de trabalho. Os executivos da loja de departamentos comemoram cada
centavo investido em Gisele. No primeiro ano de campanha publicitária
com a modelo, as vendas cresceram 20%. Com a marca de biquínis
Cia. Marítima, ela selou um acordo estimado em 1 milhão
de reais pela campanha e um desfile. Com a administradora de cartões
de crédito Credicard, fechou outro contrato de 3,5 milhões
de reais, aproximadamente. Em julho, em parceria com a fabricante de calçados
Grendene, Gisele lançou as sandálias de dedo GB Ipanema
G, de Gisele, e B, de Bündchen, claro. Foi um dos melhores
negócios que a modelo fez. Até agora foram vendidos 5 milhões
de pares, o que totaliza cerca de 70 milhões de reais. Embora os
diretores da Grendene não falem no assunto, sabe-se que o acordo
com Gisele estabelece que ela receberá no mínimo 5 milhões
de reais de royalties. "Ela não dá ponto sem nó",
comenta um alto executivo da indústria da moda. Não mesmo.
As "chinelas", como Gisele se refere às sandálias, são
o primeiro produto com a marca da modelo e servem de balão-de-ensaio.
Em 2005, aos 25 anos, ela quer se aposentar das passarelas e se tornar
empresária.
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