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Edição 1 779 - 27 de novembro de 2002
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O furacão
Gisele

Anna Paula Buchalla e Paula Neiva

 


Veja também
Galeria de fotos: A vida e a carreira da modelo
Papéis de parede
Nesta edição
A força das meninas do Brasil
Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 1/12/1999: Gisele, a número 1

"Jamais me levanto da cama por menos de 10.000 dólares." A frase, atribuída à modelo canadense Linda Evangelista, no início dos anos 90, demarcou o início de uma era: a das supermodelos. Além de Linda, Cindy Crawford, Claudia Schiffer, Elle MacPherson, Kate Moss, Christy Turlington e Naomi Campbell fulguravam nas passarelas da década passada. Elas foram muito mais do que rostos belíssimos e corpos perfeitos a servir de cabide para as criações de estilistas famosos. Conquistaram o status de estrelas, ganharam mais notoriedade do que as roupas que desfilavam e entraram para o rol das celebridades milionárias. Na segunda geração de supermodelos, ninguém é páreo para a brasileira Gisele Bündchen, de 22 anos. Dizer que ela reina absoluta não é força de expressão. Gisele foi incluída na lista das 100 maiores celebridades do planeta, elaborada pela revista Forbes. Desde 1998, quando foi alçada ao estrelato, a brasileira faturou cerca de 100 milhões de reais, o equivalente a 30 milhões de dólares. Nunca houve uma modelo que ganhasse tanto. Para se ter uma idéia, segundo a publicação inglesa Business Age, a americana Cindy Crawford e a australiana Elle MacPherson foram as que conseguiram amealhar as maiores fortunas. Cindy tem hoje 36,3 milhões de dólares e Elle, 35,2 milhões. São valores maiores do que o de Gisele. Ambas, no entanto, levaram dez anos para juntar esse dinheiro. Gisele conseguiu faturar quase o mesmo na metade do tempo. E, do jeito que seus negócios prosperam, deverá superar a marca dos 40 milhões de dólares. Linda, rica (e absoluta, e necessária, e vitaminada), ela não sai da cama por menos de 16.000 verdinhas.

Gisele, que é um colírio para os olhos de todo mundo, virou uma pedra no sapato dos ecologistas. Isso porque ela aceitou ser garota-propaganda de um fabricante de casacos de pele, a Blackglama. Nas fotos da campanha, que começou a ser veiculada nos Estados Unidos há coisa de vinte dias, Gisele, exuberante como sempre, aparece envolta em vistosos casacos e estolas de mink. Foi o estopim para que se declarasse uma guerra contra a modelo, que teve seu ápice há duas semanas. Durante a gravação do desfile da grife de lingerie Victoria's Secret para a rede de televisão americana CBS, no momento em que Gisele vinha em direção às câmeras, de cinta-liga preta e sapatos de salto alto vermelhos, quatro ativistas da organização People for the Ethical Treatment of Animals (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais), a Peta, pularam na passarela. Elas carregavam cartazes com a frase "Gisele, a escória da pele" e xingavam a modelo. Profissional tarimbada, a beldade brasileira continuou a desfilar, enquanto seguranças do evento se encarregavam de tirar as manifestantes dali. Pouco depois da confusão, a entrada de Gisele foi regravada.

 

De anjo a vilã

 
AP


AP


Ao posar para a marca de casacos de pele Blackglama
(primeira foto no alto), Gisele atraiu a ira dos ativistas da ONG Peta, que invadiram o desfile da Victoria's Secret com cartazes: "Gisele, escória da pele" (no centro). Em outro protesto da ONG, a cantora Sophie Bextor aparece num anúncio com uma raposa morta: "Aqui está o resto de seu casaco de pele"

Fosse outra modelo, os ecologistas não teriam ficado tão irritados. Mas Gisele é Gisele. Ao fazer a campanha da Blackglama, é como se ela, "o mais belo animal sobre a Terra", para usar o elogio que o diretor francês Jean Cocteau endereçou à atriz Ava Gardner, desse a chancela para que as mulheres pudessem usar sem culpa casacos que, para ser confeccionados, exigem a morte de dezenas de bichinhos. Com isso, acreditam os ecologistas da Peta, foram por água abaixo anos de luta pela conscientização contra essa indústria, considerada uma das mais cruéis do mundo. Muitos especialistas em marketing e consultores de moda se perguntam por que Gisele, dona de uma carreira tão bem pavimentada, aceitou emprestar sua imagem a algo tão malvisto e politicamente incorreto. A julgar pelo que Gisele tem dito a respeito, inclusive na entrevista que deu a VEJA, ela simplesmente não fazia idéia de que estava se metendo numa enrascada. "Fazemos força para acreditar que a participação de Gisele no anúncio da Blackglama ocorreu mesmo por ignorância, e não por falta de coração", diz Lisa Franzetta, coordenadora da Peta. "Se ela soubesse que, para fazer um único casaco, são necessários no mínimo cinqüenta minks, e visse esses animais sendo mortos por inanição, eletrocutados ou envenenados, não aceitaria anunciar casacos de pele."

O contrato de Gisele com a Blackglama tem dois meses de duração. Representantes da Peta procuraram a agência da modelo em Nova York, a IMG, para tentar fazer com que o acordo com o fabricante de casacos de pele seja rompido. É improvável que isso ocorra, mas Gisele afirma estar pronta a colaborar de alguma forma com a organização, que não lhe dá trégua. Uma das hipóteses cogitadas para reparar o dano à sua imagem e amainar a fúria dos ecologistas é uma doação financeira à Peta. Participar da campanha da Blackglama foi um deslize que poderia ter conseqüências mais funestas se Gisele tivesse uma concorrente para a qual pudesse perder contratos. Como ela não tem, pelo menos até o presente, é difícil que a trajetória da brasileira sofra turbulências.

O que, afinal de contas, faz de Gisele Bündchen uma modelo única? O 1,79 metro, os 51 quilos, os 89 centímetros de busto, 57 de cintura e 89 de quadris certamente são medidas embasbacantes. Os olhos azuis e a farta cabeleira dourada também são de outro mundo. Mas mulheres com aparência deslumbrante não são exatamente raridade no mundo da moda. Já que não existem instrumentos de aferição de graus de beleza, toda e qualquer resposta só é possível no terreno das aproximações. Pode-se dizer, então, que Gisele, parafraseando Shakespeare, "ensina as tochas a brilhar". De fato, o seu colorido de pele, cabelo e olhos, combinado às formas perfeitas, irradia luz e ofusca quem está do seu lado. Além disso, ela é dona de um estilo todo próprio, que foge às caras e bocas típicas das modelos. Gisele desfila de um jeito inteiramente singular, que ninguém consegue imitar. Quando chega à extremidade da passarela, toda modelo dá aquela paradinha de praxe, para que os fotógrafos façam a festa. Essa paradinha dura um segundo, no máximo, depois da qual a modelo dá uma volta e inicia o retorno aos bastidores. Pois bem, é nessa fração ínfima de tempo que Gisele é mais Gisele do que nunca. Com as mãos na cintura e um olhar oblíquo capaz de aquecer as almas mais gélidas, ela arqueia o corpo, lançando o tronco para a frente e empinando o derrière – e é nesse vácuo posterior, onde deveria estar a sua coluna lombar, agora arqueada, que moram todas as fantasias masculinas, bem como a inveja feminina.

 
CHINELAS PODEROSAS
Tudo o que ela anuncia vira sucesso. A sandália Ipanema Gisele Bündchen, o primeiro produto licenciado com a marca da modelo, superou as expectativas de venda do fabricante. Desde julho, foram vendidos cerca de 5 milhões de pares

Outra característica especial de Gisele, atestam os fotógrafos e maquiadores, é a sua capacidade de transmutação. Seu rosto, que não tem nada daqueles traços de bonequinha de luxo e apresenta como marca principal o nariz proeminente, permite que ela assuma os ares de diversos tipos de mulher nos ensaios fotográficos e desfiles que protagoniza – seja o da vamp, o da jovem senhora ou o da profissional independente e liberada (veja quadro). Por último, mas não menos importante, Gisele chegou aonde chegou porque é de um profissionalismo ímpar. Um exemplo que encanta os estilistas: os códigos impregnados de narcisismo que permeiam informalmente o universo dos desfiles estabelecem que a primeira modelo a entrar na passarela ou a última a aparecer é a mais importante do evento. Nada afeita a estrelismos, Gisele não reclama quando deixa de ser escolhida para abrir ou fechar um desfile. Pontual, compenetrada, paciente e zelosa, Gisele cuida da carreira e das finanças pessoalmente. Conta com a assessoria de advogados e contadores nos Estados Unidos, Europa e Brasil e de duas empresárias – uma americana e outra brasileira –, mas a última palavra é sempre dela. Ao contrário do que costuma fazer a maioria dos famosos brasileiros, Gisele mantém a família afastada de seus negócios. "Quero somente profissionais trabalhando para mim. O motivo é simples: se um deles não estiver fazendo um bom trabalho, é só dispensá-lo", explica ela. É assim, com pulso firme e um incrível tino para os negócios, que Gisele toca a sua carreira.

Os números de Gisele são todos faiscantes. O contrato para estrelar as campanhas da grife de lingerie americana Victoria's Secret lhe renderá, até 2005, 20 milhões de dólares. Em março do ano passado, Gisele foi contratada para fazer os comerciais da C&A. Recebeu em torno de 10 milhões de reais por um ano e meio de trabalho. Os executivos da loja de departamentos comemoram cada centavo investido em Gisele. No primeiro ano de campanha publicitária com a modelo, as vendas cresceram 20%. Com a marca de biquínis Cia. Marítima, ela selou um acordo estimado em 1 milhão de reais pela campanha e um desfile. Com a administradora de cartões de crédito Credicard, fechou outro contrato de 3,5 milhões de reais, aproximadamente. Em julho, em parceria com a fabricante de calçados Grendene, Gisele lançou as sandálias de dedo GB Ipanema – G, de Gisele, e B, de Bündchen, claro. Foi um dos melhores negócios que a modelo fez. Até agora foram vendidos 5 milhões de pares, o que totaliza cerca de 70 milhões de reais. Embora os diretores da Grendene não falem no assunto, sabe-se que o acordo com Gisele estabelece que ela receberá no mínimo 5 milhões de reais de royalties. "Ela não dá ponto sem nó", comenta um alto executivo da indústria da moda. Não mesmo. As "chinelas", como Gisele se refere às sandálias, são o primeiro produto com a marca da modelo e servem de balão-de-ensaio. Em 2005, aos 25 anos, ela quer se aposentar das passarelas e se tornar empresária.

 



   
 
   
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