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A criança que perdeu
80 quilos

Adolescentes obesos começam
a recorrer à cirurgia de redução
do estômago

Gabriela Carelli

 
Álbum de família
Antonio Milena

Bernard aos 13 anos, com 170 quilos, e hoje, aos 18: "Posso até comer um Big Mac, se quiser"



Veja também
Dos arquivos de VEJA
Reportagem de 19/6/1999: "A obesidade se faz em casa"
Reportagem de 1/5/2002: obesidade infantil
Reportagem de 19/5/1999: "Elas comem tudo errado"
Reportagem de 3/2/1999: como evitar a obesidade infantil

Bernard Ottoboni de Andrade tem 18 anos, 1,60 metro e 90 quilos. Há cinco anos, não chegava a 1,60 metro e pesava 170 quilos. Os 80 quilos de excesso sumiram por obra do bisturi. Ele foi um dos primeiros adolescentes brasileiros submetidos à cirurgia de redução do estômago, recurso radical para solucionar casos de obesidade mórbida. É quando o gordo está 45 quilos ou mais acima do peso ideal e sofre de problemas de saúde decorrentes, como hipertensão, diabetes e apnéia do sono. Nos últimos dois anos disparou a quantidade de brasileiros com idade entre 12 e 17 anos que recorreram a esse tratamento para perder peso – foram mais de cinqüenta cirurgias. Isso ocorre devido ao aumento da obesidade infantil no mundo. Quando a primeira cirurgia em uma criança foi feita, no início dos anos 90 nos Estados Unidos, tratava-se de um caso raro de obesidade causada por problemas genéticos. Hoje, o excesso de peso deve-se à combinação de alimentação de má qualidade, sedentarismo e herança genética – a tríade que fez a porcentagem de crianças brasileiras acima do peso ideal saltar de 3% para 14%.

A cirurgia garante emagrecimento muito mais rápido e duradouro que qualquer dieta alimentar. Para os adultos que sofrem de obesidade mórbida, pode ser a única saída. Como a cirurgia divide o estômago em dois e forma uma câmara em que cabem de 20 a 40 mililitros de alimento (um estômago normal tem espaço para até 2 litros de comida), o emagrecimento é muito rápido. Em um ano, o peso cai 40% e, em conseqüência do emagrecimento, o risco de infarto ou derrame diminui. Nos jovens, a perda de peso e a redução do risco de doenças ocorrem da mesma forma. A diferença é que não há estudos sobre as conseqüências a longo prazo de um procedimento cirúrgico tão agressivo num organismo em fase de crescimento. Para se ter uma idéia do estrago, nesse tipo de cirurgia o estômago é cortado ou grampeado e são excluídos até 4 metros de intestino.

É consenso entre os médicos que cirurgias de redução de estômago em jovens só devem ser feitas em casos em que há risco para a vida e com o aval de uma junta médica. "Todos os métodos, inclusive o uso de remédios e temporadas em spas, devem ser tentados antes de se optar pela operação", diz o cirurgião Arthur Garrido, que já operou 36 adolescentes. A cautela explica-se também pelos aspectos psicológicos e comportamentais da obesidade juvenil. Principalmente se a criança, recém-saída da cirurgia com um estômago diminuto, não conseguir frear sua compulsão alimentar. Foi o que aconteceu com uma menina de São Paulo, operada aos 12 anos. Ela continuou a se empanturrar de comida além da nova capacidade de seu estômago e morreu em poucos meses, sufocada pelo próprio vômito. A maioria das cirurgias com adolescentes tem resultados bem mais animadores. A vida de Bernard Ottoboni de Andrade, que tinha problemas circulatórios e depressão causados pelo excesso de peso, é hoje muito melhor em todos os aspectos. Quando era gordão, ele almoçava três Big Mac com batatas fritas. Hoje, precisa de uma estratégia para digerir um único sanduíche. "Até consigo comer um Big Mac se quiser", diz. "Divido o sanduíche em quatro e como um pedaço a cada quinze minutos."

   
 
   
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