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Eles levam um vidão
Jornalistas
estrangeiros
no Brasil têm influência...
e a vida que pediram a Deus
Daniela
Pinheiro
Selmy Yassuda
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| O
italiano Rocco Cotroneo: 8 000 dólares de salário e cobertura em frente
ao mar |
Pode
ter sido apenas coincidência, mas quando Raymond Colitt, correspondente
no Brasil do jornal inglês Financial Times, escreveu que
as instituições financeiras deveriam dar uma chance ao então
candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva
houve certa calmaria no mercado. Recentemente, o americano Larry Rohter,
correspondente do The New York Times, publicou um artigo sobre
uma suposta parceria do narcotráfico com autoridades do Espírito
Santo, cuja capital descreveu como "a Medellín do Brasil". Os políticos
capixabas correram à televisão para se explicar como se
houvesse milhões de leitores do jornal nova-iorquino no Brasil.
Os correspondentes da imprensa estrangeira têm mais influência
do que se imagina. Eles são, em grande medida, os criadores da
imagem que o país projeta no exterior e que acaba refletindo de
volta por aqui. Têm o poder de influenciar os mercados, atrair ou
afastar alguns investimentos, criar mitos e cultos a personalidades locais.
Além do prestígio e da influência que exercem com
seu trabalho, muitos deles, quando não estão diante do computador,
levam um vidão no Brasil.
Há cerca de 430 correspondentes internacionais em atividade no
país. A maioria deles americanos, seguidos de ingleses e alemães.
Se existe um aspecto insólito da influência do 11 de setembro
no mundo, ele diz respeito à rotina dos correspondentes estrangeiros
no Brasil. Com salário em dólar e pouco espaço nos
jornais devido à prioridade dada aos assuntos ligados à
luta antiterror, sobrou muito tempo livre para ser gasto em outras atividades.
"De fato, temos muito tempo livre. O noticiário está todo
voltado para o Oriente Médio e o que o presidente George W. Bush
está fazendo. Para nós resta usar a imaginação
e buscar assuntos pitorescos, como o esbanjamento dos ricos na Festa do
Peão de Boiadeiro em Barretos", conta a francesa Annie Gasnier,
correspondente da Radio France Internationale e da revista Le Point,
que costuma passar suas horas de lazer no cinema ou fazendo trekking na
Chapada dos Veadeiros. A rotina dos correspondentes é atraente
no Brasil em boa parte porque as reportagens que eles perseguem os levam
a lugares desafiadores. Rohter, do The New York Times, passa mais
tempo enfurnado na selva amazônica ou no interior do Pará
do que na orla de Ipanema, onde está seu escritório. Muitos
desses profissionais também são responsáveis pela
cobertura de outros países da América do Sul, o que os leva
a viajar constantemente. Nas últimas semanas, devido às
eleições, a agenda de trabalho ficou atoladíssima.
Oscar Cabral
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| Juan
Arias, do El País: trinta matérias por mês
e uma casa paradisíaca no litoral |
A literatura, o esporte, os hobbies exóticos ou a doce vida à
beira-mar disputam o tempo livre dos jornalistas estrangeiros. Juan Arias,
70 anos, correspondente do jornal espanhol El País, tem
a aparência de um homem de 50. Ele construiu uma casa paradisíaca
a 20 metros da praia em Saquarema, a menos de duas horas do Rio de Janeiro.
É de lá que abastece o jornal com cerca de trinta reportagens
por mês. Ele administra seu horário de trabalho. Às
vezes, são apenas duas horas por dia. Arias fez uma pequena fortuna
com seu Confissões de um Peregrino, uma longa entrevista
com o escritor Paulo Coelho, traduzida em dezesseis idiomas. "Não
saio daqui por nada. Tenho uma vida excelente sem ter perdido meu contato
com o mundo", diz. O americano Kenneth Rapoza, 34 anos, correspondente
do The Boston Globe, um dos mais relevantes jornais dos Estados
Unidos, consegue levar uma vida pacata em Londrina, no interior do Paraná.
É de lá que ele escreve apenas duas reportagens por mês.
"Eu até acho que vão fechar o escritório aqui. O
número de matérias não compensa. O que faço
na maior parte do tempo é ler, viajar, brincar com a minha filha
e praticar musculação", afirma.
No universo diplomático, a meta da maioria dos itamaratecas é
a indicação para um posto em alguma das cidades mais cintilantes
do mundo, de preferência no chamado "circuito Elizabeth Arden"
Paris, Roma, Londres e Nova York, como se lê nas embalagens dos
cosméticos da grife. No mundo dos correspondentes estrangeiros,
o circuito inclui ainda Washington e Berlim. O Brasil estaria posicionado
em uma espécie de "Trilha Ho Chi Minh", uma referência à
Guerra do Vietnã, que, a certa altura, chegou a ter mais correspondentes
em ação do que histórias para contar. É por
isso que a maioria dos correspondentes prova uma certa dificuldade de
publicar matérias sobre o Brasil. "É difícil convencer
um editor que está a milhas de distância de que há
algo mais importante sobre o Brasil do que a Amazônia ou a violência,
os estereótipos mais comuns", diz o jornalista Michel Labrecque,
46 anos, da Societé Radio-Canada. Ainda assim, a maior parte dos
correspondentes pediu para ser transferida para o Brasil. A explicação,
segundo dizem, é que dificilmente em outro país tamanha
sinecura se soma a um clima ameno e um povo acolhedor. Igualzinho ao que
dizem os turistas que desembarcam aqui.
Claudio Rossi
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| A
francesa Annie Gasnier: notícias amenas e tardes livres para
cinema e esportes |
Aliás,
as queixas dos correspondentes sobre o país também são
iguaizinhas às dos gringos em viagem: violência, sujeira,
bagunça e, sobretudo, a excessiva desorganização
da burocracia nacional. "Às vezes, acho que é mais fácil
conseguir uma audiência com o primeiro-ministro da Inglaterra do
que tirar xerox de um documento em uma repartição do Rio",
comenta o inglês Alex Bellos, 32 anos, que largou a atribulada rotina
na redação do The Guardian para representar o jornal
na capital fluminense. Depois de quatro anos no Brasil, ele lançou
um livro sobre a obsessão nacional pelo futebol. "É um aspecto
da sociedade brasileira sem precedentes em outro lugar do mundo. Através
do futebol, pode-se contar o que é o país sob os âmbitos
positivo e negativo, principalmente quando se trata da condescendência
com a corrupção, algo incompreensível para um estrangeiro",
diz.
Os correspondentes produzem em média 18 000 reportagens sobre o
Brasil a cada ano. Cerca de 60% delas de teor econômico. Número
impensável nos anos 70, quando artigos sobre Carnaval, samba e
Pelé eram os prediletos dos jornalistas estrangeiros. "O Brasil
se tornou uma fonte de grande expectativa no mercado internacional. Assuntos
financeiros são os que mais importam. Favela e Amazônia deixaram
de ser temas palpitantes", diz a americana Paula Gobbi, 40 anos, correspondente
do Los Angeles Times. De acordo com o Ministério das Relações
Exteriores, as boas notícias superam o número de citações
negativas na imprensa internacional. Segundo levantamento feito nos últimos
doze meses, há uma tendência de as publicações
européias estamparem mais notícias positivas sobre o Brasil,
enquanto os Estados Unidos adotam um tom neutro. Na maioria dos casos,
países da América Latina optam por publicar mais matérias
negativas que positivas. "O país seduz demais e a gente perde um
pouco a isenção. Acho que às vezes somos bons demais
com o Brasil", diz o italiano Rocco Cotroneo, 39 anos, correspondente
do Corriere della Sera. De fato, ele não tem do que reclamar.
Com um salário na casa dos 8 000 dólares mensais, Cotroneo
mora em uma sensacional cobertura em frente à Praia de Copacabana,
no Rio de Janeiro. Ali, ele próprio construiu uma antena parabólica
para exercitar um de seus hobbies favoritos: acessar rádios estrangeiras.
Para um ex-editor de economia, escrever 60% de suas reportagens sobre
futebol e Ronaldinho pode parecer frustrante. "Mas não é.
Há muito que escrever. Mas temos de fazer aquilo que interessa
ao leitor", afirma.
Oscar Cabral
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| Bellos,
do The Guardian: críticas aos brasileiros |
Com um ordenado bem menos polpudo, cerca de 1 500 dólares por mês,
o cubano Leonel Nodal, 57 anos, correspondente da agência de notícias
Prensa Latina, tem entre seus assuntos mais freqüentes futebol, vôlei
e novelas brasileiras. "É o que faz mais sucesso em Cuba", diz.
Curiosamente, há correspondentes romenos três, pasmem!
, quatro russos, um guatemalteco, dois egípcios e quatro
chineses trabalhando no Brasil. É de se perguntar sobre o que esses
profissionais costumam escrever a respeito do país a seus leitores.
Há cinco meses no Brasil, o chinês Li Xiaouyu, 48 anos, da
Rádio Internacional da China, acredita que são os aspectos
prosaicos da vida cotidiana o que seduz seus patrícios. "A política
brasileira é algo muito distante para os chineses. Por isso, as
reportagens mais interessantes que fiz foram sobre uma jibóia que
deu cria sem cruzar ou homens brasileiros lotando os salões de
beleza", conta. O romeno Alejandro Franco publica em três jornais
uma média de duas reportagens por mês. Uma das mais relevantes,
segundo ele, pela qual recebeu 10 dólares (sim, 10 dólares),
foi acerca da rebelião no presídio de Bangu 1 liderada pelo
traficante Fernandinho Beira-Mar. "Na Romênia, isso é tido
como uma coisa positiva. Eles pensam: menos um bandido à solta",
explica. O inusitado é que Franco, aos 89 anos, simplesmente se
recusa a usar a internet. Manda todos os seus artigos pelo correio para
a capital, Bucareste. "Demora dez dias, mas eu prefiro. Não são
notícias factuais. São sempre análises", afirma.
Para sobreviver, ele engrossa seu ordenado com um cargo na diretoria do
Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro e
aulas de francês. "Correspondente romeno morre de fome. Prefiro
me virar a ter de me mudar do Brasil", confessa. Já para o correspondente
da agência de notícias Novosti, o russo Vladimir Stepanov,
que joga vôlei de praia durante duas horas por dia no Rio e ainda
pratica hipismo por uma hora, as reportagens de sua lavra são sempre
positivas. "Eu não escrevo coisa ruim sobre o Brasil. Não
mesmo. Crime e bandidagem têm em todo lugar. Só escrevo notícia
do bem", garante.
Houve um tempo em que acreditar que a capital do Brasil é Buenos
Aires ou que era possível trombar com um índio vestido a
caráter dentro do supermercado eram algumas das crenças
que se podia desenvolver com base em informações pouco confiáveis
produzidas sobre o Brasil. Apesar de a realidade ser outra, o jornalismo
internacional não está livre de certas aberrações.
Um caso famoso que circula entre os correspondentes estrangeiros é
o do respeitável veículo alemão que publicou uma
extensa reportagem afirmando que os brasileiros haviam ficado muito satisfeitos
com o ataque terrorista às torres do World Trade Center. Mais tarde,
depois que o correspondente tomou um carão do editor, soube-se
que ele havia apurado a informação durante um jantar informal
de amigos em sua casa. Tudo regado a muito vinho.
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