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Edição 1 779 - 27 de novembro de 2002
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Eles levam um vidão

Jornalistas estrangeiros
no Brasil têm influência...
e a vida que pediram a Deus

Daniela Pinheiro

 
Selmy Yassuda
O italiano Rocco Cotroneo: 8 000 dólares de salário e cobertura em frente ao mar

Pode ter sido apenas coincidência, mas quando Raymond Colitt, correspondente no Brasil do jornal inglês Financial Times, escreveu que as instituições financeiras deveriam dar uma chance ao então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva houve certa calmaria no mercado. Recentemente, o americano Larry Rohter, correspondente do The New York Times, publicou um artigo sobre uma suposta parceria do narcotráfico com autoridades do Espírito Santo, cuja capital descreveu como "a Medellín do Brasil". Os políticos capixabas correram à televisão para se explicar como se houvesse milhões de leitores do jornal nova-iorquino no Brasil. Os correspondentes da imprensa estrangeira têm mais influência do que se imagina. Eles são, em grande medida, os criadores da imagem que o país projeta no exterior e que acaba refletindo de volta por aqui. Têm o poder de influenciar os mercados, atrair ou afastar alguns investimentos, criar mitos e cultos a personalidades locais. Além do prestígio e da influência que exercem com seu trabalho, muitos deles, quando não estão diante do computador, levam um vidão no Brasil.

Há cerca de 430 correspondentes internacionais em atividade no país. A maioria deles americanos, seguidos de ingleses e alemães. Se existe um aspecto insólito da influência do 11 de setembro no mundo, ele diz respeito à rotina dos correspondentes estrangeiros no Brasil. Com salário em dólar e pouco espaço nos jornais devido à prioridade dada aos assuntos ligados à luta antiterror, sobrou muito tempo livre para ser gasto em outras atividades. "De fato, temos muito tempo livre. O noticiário está todo voltado para o Oriente Médio e o que o presidente George W. Bush está fazendo. Para nós resta usar a imaginação e buscar assuntos pitorescos, como o esbanjamento dos ricos na Festa do Peão de Boiadeiro em Barretos", conta a francesa Annie Gasnier, correspondente da Radio France Internationale e da revista Le Point, que costuma passar suas horas de lazer no cinema ou fazendo trekking na Chapada dos Veadeiros. A rotina dos correspondentes é atraente no Brasil em boa parte porque as reportagens que eles perseguem os levam a lugares desafiadores. Rohter, do The New York Times, passa mais tempo enfurnado na selva amazônica ou no interior do Pará do que na orla de Ipanema, onde está seu escritório. Muitos desses profissionais também são responsáveis pela cobertura de outros países da América do Sul, o que os leva a viajar constantemente. Nas últimas semanas, devido às eleições, a agenda de trabalho ficou atoladíssima.


Oscar Cabral
Juan Arias, do El País: trinta matérias por mês e uma casa paradisíaca no litoral


A literatura, o esporte, os hobbies exóticos ou a doce vida à beira-mar disputam o tempo livre dos jornalistas estrangeiros. Juan Arias, 70 anos, correspondente do jornal espanhol El País, tem a aparência de um homem de 50. Ele construiu uma casa paradisíaca a 20 metros da praia em Saquarema, a menos de duas horas do Rio de Janeiro. É de lá que abastece o jornal com cerca de trinta reportagens por mês. Ele administra seu horário de trabalho. Às vezes, são apenas duas horas por dia. Arias fez uma pequena fortuna com seu Confissões de um Peregrino, uma longa entrevista com o escritor Paulo Coelho, traduzida em dezesseis idiomas. "Não saio daqui por nada. Tenho uma vida excelente sem ter perdido meu contato com o mundo", diz. O americano Kenneth Rapoza, 34 anos, correspondente do The Boston Globe, um dos mais relevantes jornais dos Estados Unidos, consegue levar uma vida pacata em Londrina, no interior do Paraná. É de lá que ele escreve apenas duas reportagens por mês. "Eu até acho que vão fechar o escritório aqui. O número de matérias não compensa. O que faço na maior parte do tempo é ler, viajar, brincar com a minha filha e praticar musculação", afirma.

No universo diplomático, a meta da maioria dos itamaratecas é a indicação para um posto em alguma das cidades mais cintilantes do mundo, de preferência no chamado "circuito Elizabeth Arden" – Paris, Roma, Londres e Nova York, como se lê nas embalagens dos cosméticos da grife. No mundo dos correspondentes estrangeiros, o circuito inclui ainda Washington e Berlim. O Brasil estaria posicionado em uma espécie de "Trilha Ho Chi Minh", uma referência à Guerra do Vietnã, que, a certa altura, chegou a ter mais correspondentes em ação do que histórias para contar. É por isso que a maioria dos correspondentes prova uma certa dificuldade de publicar matérias sobre o Brasil. "É difícil convencer um editor que está a milhas de distância de que há algo mais importante sobre o Brasil do que a Amazônia ou a violência, os estereótipos mais comuns", diz o jornalista Michel Labrecque, 46 anos, da Societé Radio-Canada. Ainda assim, a maior parte dos correspondentes pediu para ser transferida para o Brasil. A explicação, segundo dizem, é que dificilmente em outro país tamanha sinecura se soma a um clima ameno e um povo acolhedor. Igualzinho ao que dizem os turistas que desembarcam aqui.

 
Claudio Rossi
A francesa Annie Gasnier: notícias amenas e tardes livres para cinema e esportes

Aliás, as queixas dos correspondentes sobre o país também são iguaizinhas às dos gringos em viagem: violência, sujeira, bagunça e, sobretudo, a excessiva desorganização da burocracia nacional. "Às vezes, acho que é mais fácil conseguir uma audiência com o primeiro-ministro da Inglaterra do que tirar xerox de um documento em uma repartição do Rio", comenta o inglês Alex Bellos, 32 anos, que largou a atribulada rotina na redação do The Guardian para representar o jornal na capital fluminense. Depois de quatro anos no Brasil, ele lançou um livro sobre a obsessão nacional pelo futebol. "É um aspecto da sociedade brasileira sem precedentes em outro lugar do mundo. Através do futebol, pode-se contar o que é o país sob os âmbitos positivo e negativo, principalmente quando se trata da condescendência com a corrupção, algo incompreensível para um estrangeiro", diz.

Os correspondentes produzem em média 18 000 reportagens sobre o Brasil a cada ano. Cerca de 60% delas de teor econômico. Número impensável nos anos 70, quando artigos sobre Carnaval, samba e Pelé eram os prediletos dos jornalistas estrangeiros. "O Brasil se tornou uma fonte de grande expectativa no mercado internacional. Assuntos financeiros são os que mais importam. Favela e Amazônia deixaram de ser temas palpitantes", diz a americana Paula Gobbi, 40 anos, correspondente do Los Angeles Times. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, as boas notícias superam o número de citações negativas na imprensa internacional. Segundo levantamento feito nos últimos doze meses, há uma tendência de as publicações européias estamparem mais notícias positivas sobre o Brasil, enquanto os Estados Unidos adotam um tom neutro. Na maioria dos casos, países da América Latina optam por publicar mais matérias negativas que positivas. "O país seduz demais e a gente perde um pouco a isenção. Acho que às vezes somos bons demais com o Brasil", diz o italiano Rocco Cotroneo, 39 anos, correspondente do Corriere della Sera. De fato, ele não tem do que reclamar. Com um salário na casa dos 8 000 dólares mensais, Cotroneo mora em uma sensacional cobertura em frente à Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Ali, ele próprio construiu uma antena parabólica para exercitar um de seus hobbies favoritos: acessar rádios estrangeiras. Para um ex-editor de economia, escrever 60% de suas reportagens sobre futebol e Ronaldinho pode parecer frustrante. "Mas não é. Há muito que escrever. Mas temos de fazer aquilo que interessa ao leitor", afirma.

Oscar Cabral
Bellos, do The Guardian: críticas aos brasileiros


Com um ordenado bem menos polpudo, cerca de 1 500 dólares por mês, o cubano Leonel Nodal, 57 anos, correspondente da agência de notícias Prensa Latina, tem entre seus assuntos mais freqüentes futebol, vôlei e novelas brasileiras. "É o que faz mais sucesso em Cuba", diz. Curiosamente, há correspondentes romenos – três, pasmem! –, quatro russos, um guatemalteco, dois egípcios e quatro chineses trabalhando no Brasil. É de se perguntar sobre o que esses profissionais costumam escrever a respeito do país a seus leitores. Há cinco meses no Brasil, o chinês Li Xiaouyu, 48 anos, da Rádio Internacional da China, acredita que são os aspectos prosaicos da vida cotidiana o que seduz seus patrícios. "A política brasileira é algo muito distante para os chineses. Por isso, as reportagens mais interessantes que fiz foram sobre uma jibóia que deu cria sem cruzar ou homens brasileiros lotando os salões de beleza", conta. O romeno Alejandro Franco publica em três jornais uma média de duas reportagens por mês. Uma das mais relevantes, segundo ele, pela qual recebeu 10 dólares (sim, 10 dólares), foi acerca da rebelião no presídio de Bangu 1 liderada pelo traficante Fernandinho Beira-Mar. "Na Romênia, isso é tido como uma coisa positiva. Eles pensam: menos um bandido à solta", explica. O inusitado é que Franco, aos 89 anos, simplesmente se recusa a usar a internet. Manda todos os seus artigos pelo correio para a capital, Bucareste. "Demora dez dias, mas eu prefiro. Não são notícias factuais. São sempre análises", afirma. Para sobreviver, ele engrossa seu ordenado com um cargo na diretoria do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro e aulas de francês. "Correspondente romeno morre de fome. Prefiro me virar a ter de me mudar do Brasil", confessa. Já para o correspondente da agência de notícias Novosti, o russo Vladimir Stepanov, que joga vôlei de praia durante duas horas por dia no Rio e ainda pratica hipismo por uma hora, as reportagens de sua lavra são sempre positivas. "Eu não escrevo coisa ruim sobre o Brasil. Não mesmo. Crime e bandidagem têm em todo lugar. Só escrevo notícia do bem", garante.

Houve um tempo em que acreditar que a capital do Brasil é Buenos Aires ou que era possível trombar com um índio vestido a caráter dentro do supermercado eram algumas das crenças que se podia desenvolver com base em informações pouco confiáveis produzidas sobre o Brasil. Apesar de a realidade ser outra, o jornalismo internacional não está livre de certas aberrações. Um caso famoso que circula entre os correspondentes estrangeiros é o do respeitável veículo alemão que publicou uma extensa reportagem afirmando que os brasileiros haviam ficado muito satisfeitos com o ataque terrorista às torres do World Trade Center. Mais tarde, depois que o correspondente tomou um carão do editor, soube-se que ele havia apurado a informação durante um jantar informal de amigos em sua casa. Tudo regado a muito vinho.

   
 
   
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