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Edição 1 779 - 27 de novembro de 2002
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Fanáticas por fashion

A moda acima de tudo: japonesas
gastam mais de 20 bilhões de dólares
por ano em roupas e veneram grifes

Daniela Pinheiro, de Tóquio

 
Reprodução
Kiodo News
Divulgação

Símbolos da paixão japonesa: a cantora Ayumi, loira de pele jambo, e a fila na abertura da megaloja Louis Vuitton (ao lado)



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Basta andar algumas quadras pelas ruas de Tóquio para constatar: não existe lugar no planeta em que a moda seja tão levada a sério quanto na capital japonesa. Por outro lado, não existe cidade onde a moda seja menos séria. As provas do frenesi fashion que assola o país estão à vista de todos. Aonde quer que se vá, a impressão é que cada pessoa passou pelo menos duas horas se produzindo – com mais ou menos (ou absolutamente nenhum) apego ao convencional – antes de sair de casa. Da patricinha ao jovem clubber, todos são fascinados pelas grandes grifes estrangeiras, que se tornaram uma verdadeira obsessão nacional, e por artigos exclusivos, que podem ir desde uma camiseta branca usada a um colar de diamantes azuis. Tudo, sempre, caríssimo. No Japão, até o estilo alternativo, aquele que pretende dar a impressão de um total desprezo pelas convenções da moda, custa uma fortuna.

Para se ter uma idéia do tamanho do fascínio: da indústria mundial de artigos de alto luxo, que movimenta um volume anual estimado em 80 bilhões de dólares, cerca de 30% são fruto da sede de consumo dos japoneses – ou, principalmente, das japonesas. Eles são responsáveis por 10% a 15% de todas as compras de produtos de luxo fora do Japão (calcula-se que turistas do país gastem 50 bilhões de dólares por ano em viagens ao exterior). Loucos por uma loja de grife quando viajam, quando estão em casa põem o cartão de crédito para funcionar em horário integral. A mania nacional por grifes de luxo produz fenômenos como o tamanho das lojas – os maiores estabelecimentos do mundo de marcas como Louis Vuitton (2.900 metros quadrados), Gucci (1.700 metros quadrados) e Prada (1.000 metros quadrados), funcionam em Tóquio. Também fez nascer uma portentosa indústria de publicações destinadas ao público feminino, com mais de trinta títulos e tiragem de quase 8 milhões de exemplares. O movimentadíssimo Shopping 109, um complexo de 200 lojas no bairro de Shibuya, é recordista mundial de vendas por metro quadrado: 125 milhões de dólares ao ano. Só a Louis Vuitton vende no Japão mais de 1 bilhão de dólares ao ano; a joalheria Tiffany fatura cerca de 450 milhões no país.

A impressionante engrenagem da moda é sustentada basicamente por uma horda de jovens solteiras na faixa dos 15 aos 30 anos que ainda moram com os pais. No topo dessa massa existe gente capaz de gastar 30.000 dólares em uma hora em paraísos de consumo, como uma das catorze (isso mesmo: catorze) butiques Chanel em Tóquio. "Os jovens querem a qualquer custo ser os primeiros a ter as novidades lançadas na Europa", diz Hisako Hishikawa, gerente da filial da Louis Vuitton no sofisticado bairro de Ginza. A cidade conta com dezenas de mega-shoppings com todas as grandes grifes badaladas do mundo. Neles, é difícil não haver filas de até uma hora, mesmo aos domingos. "Muitos se sentem diferentes, especiais, por ter no armário marcas associadas ao luxo e à elegância", tenta explicar Sumie Staito, gerente da Gucci no Shopping Matsuzakaya, um dos mais caros de Tóquio.

 
Fotos reprodução
Pele na bota e no chapéu da fã de grifes de luxo e na jaqueta da metaleira de butique: cada uma no seu estilo e tudo muito caro

O clube do consumo se divide em dois grupos distintos. Um, formado por mulheres solteiras e bem empregadas, concentra-se em torrar o que tem e o que não tem em grifes de alto luxo (veja quadro). Outro, mais jovem, empenha-se em gastar todos os seus ienes para ficar diferente de todo mundo, menos da própria tribo. Desta tropa emergem as figuras fabulosamente exóticas que circulam nos bairros de Shibuya, Harajuku e Omotesando: uma indescritível mistura de referências pop, personagens de cartoons, tendências da moda européia e toques orientais, desfilada pelos joshikosei (algo como adolescentes fashionistas). "Andar pelas ruas da cidade dá a impressão de que se está no fim de um baile de Halloween e você foi o único a não ser convidado", contou a escritora americana Rebecca Mead em um artigo recente na revista The New Yorker. Em cada esquina, cruza-se com meninas vestidas como bonecas, com sapatinhos brancos, meinhas de renda e vestidos rodados cheios de babados (produção que na loja Atelier Pierrot, no badalado Shopping Laforet, pode custar até 450 dólares); lolitas, com uniformes escolares e marias-chiquinhas; "cowgirls" de botas, chapéus, cintos com fivelas enormes; Barbies e patricinhas de cabelos tingidos de loiro. No afã de se parecerem diferentes, elas acabam ficando todas iguais, divididas em bandos que passam horas em frente aos shoppings da cidade só batendo papo e esperando o fotógrafo. Sim, porque a grande ambição dos jovens superproduzidos não é se rebelar contra as convenções nem muito menos contestar a ordem na comportadíssima sociedade japonesa: é ter uma foto estampada em exemplares da Cutie, Fruits ou Mille, fenômenos editoriais que vivem de retratar anônimos.

A exuberância da moda nas ruas de Tóquio é reflexo de uma sociedade extremamente disciplinada que, na última década, tem procurado espaços para firmar um conceito de individualidade antes inexistente. "Em geral, os japoneses têm uma postura meio conformista. A roupa é a maneira que as pessoas acharam de se expressar como indivíduos", arrisca Naoko Fujita, subgerente da Louis Vuitton em Ginza, que tem parentes morando no bairro do Morumbi, em São Paulo. Do salário equivalente a 4.000 dólares por mês, Naoko gasta mais da metade com o visual "cabide de grifes". "Não há muita lógica na hora de gastar. Quanto mais desejado, mais caro. E, quanto mais caro, melhor você é", simplifica. Paradoxalmente, a prolongada crise econômica do Japão, há uma década em ambiente recessivo, também estimulou o consumo desenfreado. Num país com renda per capita de 32.000 dólares, muitos pais, decepcionados com a estagnação econômica, encorajam os filhos a gastar fortunas em coisas que eles mesmos não teriam coragem de comprar. A estudante Kaori Nomura, 28 anos, duas marias-chiquinhas amarelas, calça jeans rasgada uns oito números maior, touquinha e blusão MaxMara, define-se como "ligada ao estilo rapper", mas não tem um único CD do gênero. "Eu já fui rorikon (lolita). Agora tenho mais personalidade", diz.


Bonequinhas cacheadas: na revista

A obsessão pela exclusividade gerou espaços inusitados, como a loja Brand Select Recycle, no bairro de Harajuku. Ali, uma surrada camiseta vermelha com a palavra "Fame" escrita em dourado custa 350 dólares. Por que tão cara? "Porque só fizeram três desse modelo", diz o estudante Hideto Naito, 24 anos, jaleco de médico, calça rasgada, boina de marinheiro e enormes botinas Prada. Trabalhar em uma loja da moda é tão cobiçado pelos jovens japoneses quanto virar modelo no Brasil. As vendedoras da Egoïste, no bairro de Shinjuku, são cultuadas como celebridades. Dão entrevistas em revistas de moda e têm site próprio com dicas de como se vestir. A maioria faz a linha ganguro, com um visual que lembra o black americano: rosto coberto de base tom de tijolo, trancinhas ou dreadlocks e muita, muita maquiagem. A ganguro mais celebrada do momento é a cantora Ayumi Hamasaki, 24 anos, 1,54 metro e 40 quilos, que acrescentou ao visual lentes de contato coloridas e gigantescas unhas postiças. Ela se tornou um ideal de beleza e estilo para as multidões representadas pelas jovens espremidas na loja Material Girl, no Shopping 109, que vende réplicas exatas de suas roupas. Tudo, naturalmente, a preços estratosféricos. Senão, qual a graça?

 

Oh, que delícia de grife

 
AFP
Compradora deixa a loja Hermès: "Fofo!"

Uma tarde no bairro de Omotesando – a nova meca do alto consumo de Tóquio, onde estão as grandes lojas da Chanel, Gucci, Hermès e Louis Vuitton – é uma lição de resistência consumista. As ruas ficam apinhadas de mulheres na faixa dos 30 aos 40 anos, carregadas de sacolas, empenhadas em um périplo interminável: compras, uma fatia de torta em um café, mais compras, uma tacinha de vinho em outro café. Assim se passam seis, sete horas de bate-pernas. Quando entram nas lojas, sozinhas ou em dupla, admiram vestidos, desdobram camisas e dão seu inconfundível gritinho de guerra: "Kawaii!" (algo como "que fofo!"). São em geral mulheres que ganham bem, ainda não se casaram e moram com os pais. Antipaticamente batizada de "parasita solteira" pelo sociólogo Masahiro Yamada, que pesquisou seus hábitos na década de 90, essa nova japonesa, além das compras em Omotesando, faz aulas de inglês ou de francês, visita galerias, viaja de férias com as amigas para Paris (onde faz mais compras ainda) e freqüenta casas de chá e restaurantes chiques. A propagação desses novos hábitos entre as japonesas vem sendo objeto de diversos estudos. O diretor executivo do Instituto Hakuhodo, Hidehiko Sekizawa, atribui a elas, mais do que a qualquer outro grupo, a base de sustentação da tsunami de consumo que assola o Japão. "Como não têm outras despesas, elas torram tudo o que ganham em roupas", diz. Mais do que ganham, aliás. O salário médio das executivas japonesas é equivalente a 2 000 dólares; cada vez que saem às compras, segundo pesquisa do instituto, têm uma média de gastos de 1 000 dólares. Seu maior estímulo, analisa Sekizawa, está na associação de artigos de luxo com poder e ascensão social. "Numa cultura sem divisão explícita de classes sociais, a bolsa ou o relógio caríssimo são o diferencial", diz.

Outro estudo, do Consumer Watchers no Japão, constatou que 80% das mulheres japonesas possuem pelo menos uma peça de grife cara em seu guarda-roupa. Um dos motivos é que não têm muito mais onde aplacar a sede de gastar, visto que as casas, minúsculas, não comportam grandes vôos decorativos nem carrões na garagem. "Elas consomem o que podem mostrar: moda", observa o francês Loic Bizel, presidente do site Fashion in Japan, que reúne dados sobre o assunto. Endividar-se virou coisa normal e esperada. A comerciante Kaori Morikawa, 27 anos, sapatos Miu Miu, relógio Bulgari e bolsa Louis Vuitton, ganha 1 800 dólares por mês. Quando falou a VEJA, preparava-se para comprar uma sandália Manolo Blahnik de 900 dólares na loja Restir, no bairro de Ginza. "Como vou pagar é uma coisa que não me preocupa muito", comentou. "Estou de olho nessa sandália há duas semanas." Sem espaço em casa para guardar tudo o que compram, muitas japonesas costumam alugar armários de aço em estações de metrô. Também são grandes freqüentadoras das casas de penhor de luxo: lá, põem no prego um relógio Cartier e saem direto para comprar um tailleur da Chanel. Com tanto fôlego, mesmo numa economia com crescimento próximo do zero, as lojas de grife não param de faturar. Neste ano, as vendas da Gucci em Tóquio cresceram 30%; as da Cartier, 50%; as da Louis Vuitton, 40%; e as da Tiffany, cerca de 15%.



   
 
   
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