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Fanáticas
por fashion
A moda
acima de tudo: japonesas
gastam mais de 20 bilhões de dólares
por ano em roupas e veneram grifes
Daniela
Pinheiro, de Tóquio

Veja também |
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Basta
andar algumas quadras pelas ruas de Tóquio para constatar: não
existe lugar no planeta em que a moda seja tão levada a sério
quanto na capital japonesa. Por outro lado, não existe cidade onde
a moda seja menos séria. As provas do frenesi fashion que assola
o país estão à vista de todos. Aonde quer que se
vá, a impressão é que cada pessoa passou pelo menos
duas horas se produzindo com mais ou menos (ou absolutamente nenhum)
apego ao convencional antes de sair de casa. Da patricinha ao jovem
clubber, todos são fascinados pelas grandes grifes estrangeiras,
que se tornaram uma verdadeira obsessão nacional, e por artigos
exclusivos, que podem ir desde uma camiseta branca usada a um colar de
diamantes azuis. Tudo, sempre, caríssimo. No Japão, até
o estilo alternativo, aquele que pretende dar a impressão de um
total desprezo pelas convenções da moda, custa uma fortuna.
Para se
ter uma idéia do tamanho do fascínio: da indústria
mundial de artigos de alto luxo, que movimenta um volume anual estimado
em 80 bilhões de dólares, cerca de 30% são fruto
da sede de consumo dos japoneses ou, principalmente, das japonesas.
Eles são responsáveis por 10% a 15% de todas as compras
de produtos de luxo fora do Japão (calcula-se que turistas do país
gastem 50 bilhões de dólares por ano em viagens ao exterior).
Loucos por uma loja de grife quando viajam, quando estão em casa
põem o cartão de crédito para funcionar em horário
integral. A mania nacional por grifes de luxo produz fenômenos como
o tamanho das lojas os maiores estabelecimentos do mundo de marcas
como Louis Vuitton (2.900 metros quadrados),
Gucci (1.700 metros quadrados) e Prada (1.000
metros quadrados), funcionam em Tóquio. Também fez nascer
uma portentosa indústria de publicações destinadas
ao público feminino, com mais de trinta títulos e tiragem
de quase 8 milhões de exemplares. O movimentadíssimo Shopping
109, um complexo de 200 lojas no bairro de Shibuya, é recordista
mundial de vendas por metro quadrado: 125 milhões de dólares
ao ano. Só a Louis Vuitton vende no Japão mais de 1 bilhão
de dólares ao ano; a joalheria Tiffany fatura cerca de 450 milhões
no país.
A impressionante
engrenagem da moda é sustentada basicamente por uma horda de jovens
solteiras na faixa dos 15 aos 30 anos que ainda moram com os pais. No
topo dessa massa existe gente capaz de gastar 30.000
dólares em uma hora em paraísos de consumo, como uma das
catorze (isso mesmo: catorze) butiques Chanel em Tóquio. "Os jovens
querem a qualquer custo ser os primeiros a ter as novidades lançadas
na Europa", diz Hisako Hishikawa, gerente da filial da Louis Vuitton no
sofisticado bairro de Ginza. A cidade conta com dezenas de mega-shoppings
com todas as grandes grifes badaladas do mundo. Neles, é difícil
não haver filas de até uma hora, mesmo aos domingos. "Muitos
se sentem diferentes, especiais, por ter no armário marcas associadas
ao luxo e à elegância", tenta explicar Sumie Staito, gerente
da Gucci no Shopping Matsuzakaya, um dos mais caros de Tóquio.
Fotos reprodução
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| Pele
na bota e no chapéu da fã de grifes de luxo e na jaqueta da metaleira
de butique: cada uma no seu estilo e tudo muito caro |
O clube do
consumo se divide em dois grupos distintos. Um, formado por mulheres solteiras
e bem empregadas, concentra-se em torrar o que tem e o que não
tem em grifes de alto luxo (veja
quadro). Outro, mais jovem, empenha-se em gastar todos
os seus ienes para ficar diferente de todo mundo, menos da própria
tribo. Desta tropa emergem as figuras fabulosamente exóticas que
circulam nos bairros de Shibuya, Harajuku e Omotesando: uma indescritível
mistura de referências pop, personagens de cartoons, tendências
da moda européia e toques orientais, desfilada pelos joshikosei
(algo como adolescentes fashionistas). "Andar pelas ruas da cidade dá
a impressão de que se está no fim de um baile de Halloween
e você foi o único a não ser convidado", contou a
escritora americana Rebecca Mead em um artigo recente na revista The
New Yorker. Em cada esquina, cruza-se com meninas vestidas como bonecas,
com sapatinhos brancos, meinhas de renda e vestidos rodados cheios de
babados (produção que na loja Atelier Pierrot, no badalado
Shopping Laforet, pode custar até 450 dólares); lolitas,
com uniformes escolares e marias-chiquinhas; "cowgirls" de botas, chapéus,
cintos com fivelas enormes; Barbies e patricinhas de cabelos tingidos
de loiro. No afã de se parecerem diferentes, elas acabam ficando
todas iguais, divididas em bandos que passam horas em frente aos shoppings
da cidade só batendo papo e esperando o fotógrafo. Sim,
porque a grande ambição dos jovens superproduzidos não
é se rebelar contra as convenções nem muito menos
contestar a ordem na comportadíssima sociedade japonesa: é
ter uma foto estampada em exemplares da Cutie, Fruits ou
Mille, fenômenos editoriais que vivem de retratar anônimos.
A exuberância
da moda nas ruas de Tóquio é reflexo de uma sociedade extremamente
disciplinada que, na última década, tem procurado espaços
para firmar um conceito de individualidade antes inexistente. "Em geral,
os japoneses têm uma postura meio conformista. A roupa é
a maneira que as pessoas acharam de se expressar como indivíduos",
arrisca Naoko Fujita, subgerente da Louis Vuitton em Ginza, que tem parentes
morando no bairro do Morumbi, em São Paulo. Do salário equivalente
a 4.000 dólares por mês, Naoko
gasta mais da metade com o visual "cabide de grifes". "Não há
muita lógica na hora de gastar. Quanto mais desejado, mais caro.
E, quanto mais caro, melhor você é", simplifica. Paradoxalmente,
a prolongada crise econômica do Japão, há uma década
em ambiente recessivo, também estimulou o consumo desenfreado.
Num país com renda per capita de 32.000
dólares, muitos pais, decepcionados com a estagnação
econômica, encorajam os filhos a gastar fortunas em coisas que eles
mesmos não teriam coragem de comprar. A estudante Kaori Nomura,
28 anos, duas marias-chiquinhas amarelas, calça jeans rasgada uns
oito números maior, touquinha e blusão MaxMara, define-se
como "ligada ao estilo rapper", mas não tem um único CD
do gênero. "Eu já fui rorikon (lolita). Agora tenho
mais personalidade", diz.
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| Bonequinhas
cacheadas: na revista |
A obsessão
pela exclusividade gerou espaços inusitados, como a loja Brand
Select Recycle, no bairro de Harajuku. Ali, uma surrada camiseta vermelha
com a palavra "Fame" escrita em dourado custa 350 dólares.
Por que tão cara? "Porque só fizeram três desse modelo",
diz o estudante Hideto Naito, 24 anos, jaleco de médico, calça
rasgada, boina de marinheiro e enormes botinas Prada. Trabalhar em uma
loja da moda é tão cobiçado pelos jovens japoneses
quanto virar modelo no Brasil. As vendedoras da Egoïste, no bairro
de Shinjuku, são cultuadas como celebridades. Dão entrevistas
em revistas de moda e têm site próprio com dicas de como
se vestir. A maioria faz a linha ganguro, com um visual que lembra
o black americano: rosto coberto de base tom de tijolo, trancinhas ou
dreadlocks e muita, muita maquiagem. A ganguro mais celebrada do
momento é a cantora Ayumi Hamasaki, 24 anos, 1,54 metro e 40 quilos,
que acrescentou ao visual lentes de contato coloridas e gigantescas unhas
postiças. Ela se tornou um ideal de beleza e estilo para as multidões
representadas pelas jovens espremidas na loja Material Girl, no Shopping
109, que vende réplicas exatas de suas roupas. Tudo, naturalmente,
a preços estratosféricos. Senão, qual a graça?
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Oh,
que delícia de grife
AFP
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| Compradora
deixa a loja Hermès: "Fofo!" |
Uma
tarde no bairro de Omotesando a nova meca do alto consumo
de Tóquio, onde estão as grandes lojas da Chanel,
Gucci, Hermès e Louis Vuitton é uma lição
de resistência consumista. As ruas ficam apinhadas de mulheres
na faixa dos 30 aos 40 anos, carregadas de sacolas, empenhadas em
um périplo interminável: compras, uma fatia de torta
em um café, mais compras, uma tacinha de vinho em outro café.
Assim se passam seis, sete horas de bate-pernas. Quando entram nas
lojas, sozinhas ou em dupla, admiram vestidos, desdobram camisas
e dão seu inconfundível gritinho de guerra: "Kawaii!"
(algo como "que fofo!"). São em geral mulheres que ganham
bem, ainda não se casaram e moram com os pais. Antipaticamente
batizada de "parasita solteira" pelo sociólogo Masahiro Yamada,
que pesquisou seus hábitos na década de 90, essa nova
japonesa, além das compras em Omotesando, faz aulas de inglês
ou de francês, visita galerias, viaja de férias com
as amigas para Paris (onde faz mais compras ainda) e freqüenta
casas de chá e restaurantes chiques. A propagação
desses novos hábitos entre as japonesas vem sendo objeto
de diversos estudos. O diretor executivo do Instituto Hakuhodo,
Hidehiko Sekizawa, atribui a elas, mais do que a qualquer outro
grupo, a base de sustentação da tsunami de
consumo que assola o Japão. "Como não têm outras
despesas, elas torram tudo o que ganham em roupas", diz. Mais do
que ganham, aliás. O salário médio das executivas
japonesas é equivalente a 2 000 dólares; cada vez
que saem às compras, segundo pesquisa do instituto, têm
uma média de gastos de 1 000 dólares. Seu maior estímulo,
analisa Sekizawa, está na associação de artigos
de luxo com poder e ascensão social. "Numa cultura sem divisão
explícita de classes sociais, a bolsa ou o relógio
caríssimo são o diferencial", diz.
Outro
estudo, do Consumer Watchers no Japão, constatou que 80%
das mulheres japonesas possuem pelo menos uma peça de grife
cara em seu guarda-roupa. Um dos motivos é que não
têm muito mais onde aplacar a sede de gastar, visto que as
casas, minúsculas, não comportam grandes vôos
decorativos nem carrões na garagem. "Elas consomem o que
podem mostrar: moda", observa o francês Loic Bizel, presidente
do site Fashion in Japan, que reúne dados sobre o assunto.
Endividar-se virou coisa normal e esperada. A comerciante Kaori
Morikawa, 27 anos, sapatos Miu Miu, relógio Bulgari e bolsa
Louis Vuitton, ganha 1 800 dólares por mês. Quando
falou a VEJA, preparava-se para comprar uma sandália Manolo
Blahnik de 900 dólares na loja Restir, no bairro de Ginza.
"Como vou pagar é uma coisa que não me preocupa muito",
comentou. "Estou de olho nessa sandália há duas semanas."
Sem espaço em casa para guardar tudo o que compram, muitas
japonesas costumam alugar armários de aço em estações
de metrô. Também são grandes freqüentadoras
das casas de penhor de luxo: lá, põem no prego um
relógio Cartier e saem direto para comprar um tailleur da
Chanel. Com tanto fôlego, mesmo numa economia com crescimento
próximo do zero, as lojas de grife não param de faturar.
Neste ano, as vendas da Gucci em Tóquio cresceram 30%; as
da Cartier, 50%; as da Louis Vuitton, 40%; e as da Tiffany, cerca
de 15%.
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