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"A credibilidade de quem indica reside mais nos vinhos baratos do que nos caríssimos, já conhecidos como bons" |
O francês Eric Beaumard entrou no mundo dos vinhos por acaso. Em 1982 sofreu um acidente de moto que inutilizou sua mão direita e interrompeu uma promissora carreira de chef de cuisine. Acabou descobrindo um novo caminho profissional, além de uma grande paixão, que lhe rendeu o título de vice-campeão do mundo em sommellerie, em 1998. Hoje, aos 39 anos, acumula dois cargos de extrema responsabilidade no hotel George V, um dos mais tradicionais e luxuosos de Paris, instalado numa construção dos anos 20 recentemente reformada. É diretor e sommelier do restaurante Le Cinq, que tem como clientes Bill Clinton, Mick Jagger, Isabelle Adjani e Pelé, entre outros famosos. Comanda uma equipe de 45 pessoas e administra uma adega de 35.000 garrafas, o que o faz adiar para 2005 o plano de tornar-se campeão mundial. Beaumard falou a VEJA, dias antes de sua primeira viagem ao Brasil, onde promoverá, nesta semana, no Rio de Janeiro e em São Paulo, degustações de vinhos do Novo Mundo Califórnia, Austrália, Nova Zelândia, Chile e África do Sul.
Veja O que é um bom vinho?
Beaumard
A noção de "bom" é muito pessoal. Um bom vinho é
o que lhe dá prazer, principalmente quando em boa companhia. Mas
há, é claro, alguns critérios um pouco mais objetivos
para qualificar um vinho. O primeiro é o equilíbrio entre
todos os elementos, ou seja, que nenhum deles predomine os ácidos,
o tanino ou o álcool. Quando digo isso estou falando um pouco também
da digestibilidade, o que é importante para a saúde. A aparência
também conta. Um vinho deve ser brilhante e ter uma cor fantástica.
Veja Existe um limite de preço abaixo do qual é
impossível conseguir um vinho de boa qualidade? Que limite é
esse?
Beaumard
Sim, mas é um limite razoável. Na França, compra-se
um bom vinho no supermercado por 12 euros (o equivalente a 42 reais).
Por 30 euros (105 reais) é possível encontrar um
vinho muito bom. Nessa faixa, encontramos tintos Bordeaux não
os de primeiríssima linha, que andam muito caros , os tintos
e brancos de Bourgogne e os tintos da região do Rhône. Nos
restaurantes, tudo depende da margem de lucro do estabelecimento. É
impossível ter uma média. Assim como é impossível
fazer o mesmo mundialmente, porque os impostos variam muito de país
para país.
Veja Sem limite superior de preço, que vinho o senhor
escolheria se tivesse de tomá-lo exclusivamente, pelo resto da
vida?
Beaumard
Que hipótese mais triste! Eu detestaria ter de beber sempre o mesmo
vinho, qualquer que fosse. Mas, se não tivesse outra escolha, ficaria
com o Bourgogne tinto.
Veja Como se aprende a conhecer um bom vinho?
Beaumard
Um curso de degustação é um bom começo. Ensina
a sentir e a diferenciar o gosto de cada tipo de vinho, mostra as combinações
básicas entre a bebida e a comida e reúne pessoas que gostam
de vinho e de trocar impressões e informações, o
que é sempre interessante. Mas atenção: degustar
é algo voltado para quem quer conhecer, não para quem quer
beber. Não custa lembrar que a gente não bebe vinho em aulas
de degustação. Prova, cospe e depois relata o gosto que
sentiu. Existe também farta literatura sobre o assunto, que merece
ser consultada. É claro, entretanto, que nada disso o tornará
um conhecedor se você não incorporar o vinho a seus hábitos
de consumo, a sua vida. Os três elementos se completam.
Veja A proliferação de cursos de degustação
é mostra de que o hábito de tomar vinho está se disseminando
rapidamente, inclusive em países de relativamente pouca tradição
nesse tipo de consumo, como o Brasil. Quais os pontos positivos e negativos
que um especialista preocupado com a qualidade da bebida vê nessa
democratização?
Beaumard
Em linhas gerais, a democratização é positiva. Hoje
existem bons vinhos produzidos em várias partes do mundo, e isso
é muito bom. O lado ruim seria banalizar o consumo. Nós
temos uma cultura de bom gosto, de saber comer, na qual o vinho está
associado a uma idéia de arte de viver. O problema da grande disseminação
é a bebida tornar-se um produto demasiadamente vulgar, porque se
perderia a chance de conhecer e aproveitar a cultura do vinho.
Veja O senhor acha que a globalização da produção
e do consumo traz o risco de uma pasteurização do sabor
do vinho?
Beaumard
Sim,
sim, existe o risco de que em algum momento todos os produtores decidam
atuar na direção de um hipotético gosto global. Se
isso acontecesse, perderíamos algumas das melhores qualidades de
cada vinho. É fundamental que cada fabricante seja o reflexo de
seu país.
Veja Qual sua opinião sobre os vinhos do Novo Mundo
Califórnia, Chile, Austrália, Nova Zelândia
e África do Sul?
Beaumard
Não posso generalizar. Em todos os lugares há bons e maus
vinhos. Mas esses são países que produzem vinhos de qualidade
cada vez melhor, enfrentando dificuldades que nós não temos
na França. O clima é mais quente, o risco de doenças
nas videiras é maior. Além disso, as cepas foram levadas
pelos imigrantes, e as que ficaram são as que resistiram melhor
a essas condições. Isso provoca certa uniformização.
Na Austrália, por exemplo, temos uma grande produção,
mas praticamente só de Cabernet Sauvignon e Chardonnay. É
diferente da França, onde todas as cepas são nativas e permitem
grande diversidade.
Veja Quais são os mais competentes entre esses novos
produtores?
Beaumard
Em termos de elaboração, de controle e de regularidade,
a campeã é a Califórnia. Na relação
entre qualidade e preço, o Chile é imbatível. Na
Austrália, o que posso destacar é a grande oferta, decorrente
do enorme investimento na indústria vinícola. A produção
argentina melhorou muito, e há pequenos países emergentes
com uma produção interessante, como o Uruguai.
Veja Algum desses países está presente na adega
do George V?
Beaumard
Sim. Nossa adega tem 70% de vinhos franceses e 30% de estrangeiros. Destes,
dois terços são de outros países da Europa e um terço
do Novo Mundo. Temos vinhos dos Estados Unidos, da Austrália, do
Chile, da África do Sul etc.
Veja Os vinhos novos provocaram alguma mudança na
indústria de produtores tradicionais, como a França ou a
Itália? Que mudanças foram essas?
Beaumard
Vou
falar da França. Aqui, sente-se cada vez mais a presença
dos vinhos do Novo Mundo. Não no mercado interno, mas na exportação.
E não nos grandes vinhos, que sempre terão mercado cativo,
mas nos vinhos médios. Na Inglaterra, nos Estados Unidos e na Alemanha
os vinhos médios franceses sofrem uma competição
duríssima do Novo Mundo, pela qualidade regular da produção
chilena, por exemplo. Eu mesmo, num restaurante na Inglaterra, entre um
francês médio e um chileno, escolho o chileno, porque sei
exatamente o que estarei bebendo. Apenas uma ressalva: a contrapartida
de uma qualidade regular é a ausência de extremos, e vice-versa.
A França não tem sempre a regularidade que seus compradores
internacionais desejam. E o Novo Mundo não tem vinhos extraordinários
como os franceses.
Veja O senhor conhece vinhos brasileiros? Qual sua avaliação?
Beaumard
Não posso dizer que conheço. Provei um Chardonnay e um Merlot
brasileiros dez anos atrás e não quero dar opinião.
Veja por quê: há cinco anos estive na Moët & Chandon,
em Mendoza, na Argentina, e provei um tinto muito, muito mediano. Um ano
atrás voltei lá e o achei bastante bom. Presumo que o mesmo
processo tenha acontecido no Brasil. O que tenho ouvido é que o
tempo, o desejo de produzir um bom vinho e as novas tecnologias melhoraram
muito a qualidade. Estou curioso para provar o vinho brasileiro nesta
viagem.
Veja Em seu trabalho, como o senhor distingue o conhecedor
de vinhos que escolhe um vinho caro daquele novo-rico que só quer
ostentar?
Beaumard
Freqüentemente, quem pede um vinho muito caro sabe apreciá-lo.
Mas existe também a noção de que um vinho caro agrada
a um cliente num almoço de negócios, por exemplo. E que
é uma arma muito usada na estratégia de uma conquista amorosa.
A questão é que muitos clientes acham que um vinho só
é bom se é caro, e isso não é verdade. Em
nossa carta temos alguns preços muito razoáveis, na faixa
de 50 euros (175 reais), e, na verdade, minha credibilidade reside
muito mais em indicar vinhos mais baratos do que os caríssimos,
que têm marcas famosas e já são conhecidos como bons.
Veja Tivemos recentemente no Brasil uma polêmica envolvendo
um Romanée-Conti de 2.000 dólares e o presidente
eleito, Luiz Inácio Lula da Silva. Muita gente criticou um político
de esquerda ganhar de presente e consumir um vinho tão caro. Os
políticos franceses costumam tomar Romanée-Conti?
Beaumard
O
Romanée-Conti é um dos melhores vinhos do mundo, com produção
limitada a 6.000 garrafas por ano. Não é um vinho que se
costume tomar normalmente, porque é feito para ocasiões
muito especiais. É a mais perfeita tradução do Pinot
Noir, um vinho de elite, admirado e consumido apenas por uma ínfima
parte da população francesa.
Veja Quais os principais mitos sobre o que é errado
no consumo de vinhos?
Beaumard
Um dos maiores é que o queijo só combina com vinho tinto.
Outra bobagem que se ouve freqüentemente é que o branco se
bebe muito gelado e o tinto, sempre na temperatura ambiente. Também
não é verdade que o vinho envelhecido é sempre melhor
que o jovem.
Veja E o que continua sendo verdade?
Beaumard
Para mim, a principal verdade é que é preciso respeitar
a degustação. A degustação é uma arte
de viver e o alcoolismo é um mal dos vivos.
Veja Existe alguma comida que não combina com vinho?
Beaumard
Não. Uma opção difícil é uma salada
verde ao molho vinagrete. Há algum tempo, só se cogitaria
água como acompanhamento. Acho que fica ótimo com um vinho
da Madeira. Nessa questão das combinações, o melhor
é que para cada prato existe mais de uma possibilidade de vinho.
Para só citar um exemplo, a maior parte dos peixes combina com
brancos, mas alguns ficam muito bem acompanhados de um tinto.
Veja O senhor conhece feijoada? Que vinho aconselharia para
acompanhá-la?
Beaumard
É o prato nacional do Brasil. E fica bem com um vinho de personalidade,
encorpado, suculento, de alto teor alcoólico entre 13 graus
e 14 graus e tanino acentuado. Um Cabernet chileno, por exemplo,
ou argentino.
Veja Num país de clima quente como o Brasil, existe
alguma mudança nas recomendações gerais sobre a temperatura
adequada da bebida?
Beaumard
Sim,
sem dúvida. Essa é uma questão importante para a
correta degustação. Nas épocas de mais calor, não
se devem consumir os vinhos encorpados muito quentes. É melhor
escolher os tintos mais leves, os rosés, os espumantes e os brancos.
Nesses casos, pode-se baixar a temperatura em 2 graus em relação
à recomendação tradicional e tomar o tinto entre
15 graus e 16 graus e o branco, em torno de 8 graus. Os vinhos mais encorpados,
com mais tanino, não podem ser resfriados, porque seu sabor fica
alterado.
Veja Qual a sua definição de um bom sommelier?
Beaumard
É alguém que sabe provar vinho, que conhece bem as regiões
produtoras, que conhece muito bem a cozinha de seu chef, que monta uma
boa carta e que respeita o bolso do cliente. Também é fundamental
que não beba muito.
Veja Como deve comportar-se um sommelier quando o cliente
faz uma escolha evidentemente equivocada?
Beaumard
O sommelier sugere outro vinho. Mas a palavra final é sempre do
cliente.
Veja Se um casal está brigando à mesa, como
deve ser a abordagem do sommelier?
Beaumard
Com um sorriso, tudo fica mais fácil. O vinho é um assunto
atraente e abre espaço para que a maior parte dos problemas se
resolva com sutileza e senso de humor.
Veja Ainda no terreno das situações delicadas,
qual a atitude a tomar diante de um cliente que prova e rejeita um vinho
caríssimo, em cuja qualidade o sommelier tem toda confiança?
Beaumard
Isso pode acontecer. Como regra, troca-se a garrafa e, se for o caso,
sugere-se outro vinho. Por isso é muito importante que, antes de
fazer uma indicação, o sommelier converse com o cliente,
para poder interpretar corretamente suas preferências.
Veja O senhor gosta de alguma outra bebida?
Beaumard
Gosto de cerveja, das aguardentes, dos licores, de tudo o que seja de
boa qualidade. Só evito refrigerantes, para restringir o consumo
de açúcar. Tudo depende do momento. No Rio de Janeiro, de
frente para o mar de Copacabana, posso perfeitamente pedir um coquetel
à base de cachaça.
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