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Sérgio Abranches

Outono em Praga

"Nesta Praga que festeja a globalização,
o comunismo sobrevive no museu
e em lojas de suvenires"



Ilustração Ale Setti


Na primeira vez em que visitei Praga, no início dos anos 70, ela pareceu-me uma bela viúva, por trás de um véu de tristeza. Velava a primavera desfeita pelos tanques soviéticos. Praga era bela e cinza, triste e humilhada. Trazia ainda na alma coletiva as marcas da invasão e a frustração daquela primavera transformada em uma longa noite de inverno.

Hoje Praga está transfigurada, vibrante, alegre, colorida. Ainda se cobre com um véu cinza, quando avança a tarde, mas ele nada tem de luto, é apenas o desfecho natural de mais um dia de normalidade. Caminhando-se pela Karluv Most, a ponte Carlos IV, no finzinho do dia, é possível deslumbrar-se com a neblina acinzentando a cidade.

O país, atualmente, tem como presidente um de seus mais celebrados intelectuais. Vaclav Havel tem a cara de sua gente, um povo que vive em mangas de camisa e só se engalana para ir à ópera ou ao teatro. Não por acaso Mozart estreou aqui seu Don Giovanni. Havel fez parte do grupo do Manifesto de 77, nova rebelião pacífica contra a opressão, o que o pôs na prisão, e liderou a "Revolução de Veludo", que atacou o regime com suavidade terminal e o pôs na Presidência.

Jantei em um restaurante que fica embaixo da Karluv Most, chamado U Tri Pstrosu, cuja história se perde nas brumas do tempo. Já servia refeições aos visitantes da cidade quando a ponte estava sendo construída, no século XIV. No comunismo, foi expropriado da família Dundr e estatizado. Com a volta da sensatez, retornou aos antigos proprietários, para felicidade deles e de seus clientes. É um pequeno exemplo dos desmazelos possíveis pela ausência de controles democráticos e de noção dos limites do governo.

Nesta Praga que festeja a globalização – três provedoras de telefonia celular GSM competem por consumidores ativíssimos que cruzam suas ruas medievais falando ao celular –, o comunismo sobrevive no museu e em lojas de suvenires. O Museu do Comunismo está ironicamente localizado ao lado de uma loja do McDonald's. O mapa, na capa traseira do prospecto decorado por fotos de um Stalin carismático e sonhador, indica sua localização na praça Václaské com a estrela vermelha, posta ao lado do "M" da mesma cor da cadeia de fast food. A estrela vermelha enfeita ainda os quepes soviéticos vendidos nas lojas de curiosidades turísticas, ao lado de antigas máscaras contra gases.

Um fim patético para um regime que se imaginou capaz de anular dois elementos do avanço societário dos últimos séculos: a liberdade e o mercado. Em nome de uma igualdade impossível, abandonou a eqüidade possível e eliminou a liberdade indispensável. Trocou a desigualdade econômica, baseada na concentração dos recursos materiais, pela desigualdade dos privilégios politicamente distribuídos. Nenhuma das duas é legítima. A primeira gera sociedades iníquas, a segunda, tiranias. Jean-Jacques Rousseau já havia feito a distinção crucial entre a diferença decorrente do contraste de aptidões e talentos e a desigualdade imposta artificialmente pela mão humana. A diferença é necessária e legítima. A desigualdade, desnecessária e injustificável. Desigualdade material se combate sobretudo com educação. A política, com democracia e civismo. No Brasil, vale lembrar, temos pouca educação e mais democracia que civismo.

O regime comunista terminou, em Praga, como começou: sem derramamento de sangue. Nasceu com um golpe sem tiros: os comunistas, que estiveram à frente da resistência ao nazismo, ganharam a maioria nas primeiras eleições do pós-guerra e, em seguida, baniram os outros partidos e se perpetuaram no poder. O regime desmoronou em dez horas, exposto ao ridículo nos grafites que cobriram a cidade, expressando a revolta contra a repressão policial a uma manifestação de estudantes na Praça Venceslau (Václaské).

O escritor Ivan Klíma diz que o fato de ter terminado suavemente não significa que fosse estrangeiro ao espírito ou ao comportamento humanos. É um alerta importante. Mas a revolução antimercado e antiliberdade perdeu a viabilidade histórica e estrutural com a nova revolução tecnológica e o novo estágio de globalização. Nenhuma das soluções pensadas ao longo do século XIX é mais possível. O liberalismo já encontrou no neoliberalismo sua nova fórmula, com a qual dominou a primeira fase desse novo ciclo. A esquerda ainda não conseguiu se repensar. Vive entre o niilismo, o puro antineoliberalismo e a expectativa de que o passado impossível se torne possível.

A propósito, Pstrosu quer dizer avestruz e o nome do restaurante é Aos Três Avestruzes.

 

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br), de Praga


 
 
   
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