Edição 1 621 - 27/10/1999
 

Murro na cara

Violento, sufocante e original. Assim é
Clube da Luta
, o retrato de uma geração

Isabela Boscov

Twentieth Century Fox
Edward Norton, que interpreta o narrador do filme: hematomas no lugar do vazio existencial

A cena inicial já é um choque. Depois de uma viagem acelerada pelo que parece ser um cenário abstrato, mas é na verdade o interior de um corpo humano, a câmara desemboca no cano de uma arma. Que, por sua vez, está dentro da boca do narrador do filme. Como, afinal, ele foi parar nessa situação é o assunto de que se ocupa Clube da Luta (Fight Club, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. Dirigido por David Fincher, o mesmo cineasta do mórbido Seven, esse estranho híbrido de suspense e comédia vem causando polêmica desde antes de seu lançamento. Em linhas gerais, a fita de Fincher trata de homens que voltam a se sentir vivos e viris ao participar da organização clandestina do título, na qual trocam socos com uma vontade que beira a selvageria. É um assunto delicado na Hollywood de hoje, atemorizada por se encontrar no centro de um acalorado debate sobre o suposto poder da mídia de incitar à violência. Mas dizer que Clube da Luta estimula os baixos instintos, ou discorre unicamente sobre eles, seria uma simplificação grosseira.

Voltando seis meses no tempo a partir do instante em que está com a arma na boca, Jack, o narrador do filme (interpretado por Edward Norton), conta à platéia suas agruras. Seu emprego e sua vida são de uma esterilidade absoluta. É a razão de seu apego a catálogos de compras "Qual o aparelho de jantar capaz de me definir como pessoa?", ele se pergunta e de sua insônia crônica. Na tentativa de curá-la, Jack vicia-se num tipo bizarro de droga. Todas as noites, ele freqüenta grupos de auto-ajuda para doentes terminais, quando chora copiosamente. Depois de fazer essa espécie de catarse, consegue dormir. O "remédio" pára de funcionar no momento em que ele identifica outra turista nas reuniões: Marla (a atriz Helena Bonham Carter), uma deprimida que, nas palavras de Jack, o irrita "como uma ferida no céu da boca que sararia se eu conseguisse parar de cutucá-la". De volta à insônia, ele encontra outro tipo de salvação em Tyler Durden (Brad Pitt). Durden, um sujeito que às vezes trabalha como projecionista só para inserir fotogramas pornográficos em filmes infantis, é quem lança a idéia dos sopapos. Os dois se tornam inseparáveis e formam o clube da luta. A organização ganha adeptos rapidamente, até se transformar num fenômeno de dimensões assustadoras e feições neofascistas.

Baseada num romance escrito pelo mecânico Chuck Palahniuk, a história de Clube da Luta é intrigante por si só. Fincher, no entanto, trata de amplificá-la, filmando-a com extrema ousadia. O humor corrosivo, a ferocidade das imagens e as sugestões homoeróticas chegam até o espectador por meio da câmara esquizóide do diretor, tão incapaz de se concentrar como seus personagens. Não é fácil para a platéia acompanhar essa saturação. Mas é impossível também ficar indiferente a ela. Fascista ou antifascista? Pró-violência ou antiviolência? Cômica ou sinistra? Desde que foi exibida pela primeira vez, no Festival de Veneza deste ano, a fita vem dividindo opiniões. Mesmo entre seus defensores, não é difícil encontrar quem tema que ela estimule a platéia a copiar o que viu na tela. Acusação idêntica pesou sobre outros filmes que abordavam a violência de maneira crua, como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, e Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. Confrontado com essa possibilidade, o ator Edward Norton é contundente. "É absolutamente legítimo que a arte examine nossas disfunções. Sugerir o contrário é uma forma de negação. E tenho mais medo das conseqüências da negação do que das desse filme", declarou.

David Fincher certamente não é o primeiro cineasta americano a atacar o vazio espiritual engendrado pela era do consumismo ou a lamentar o vácuo em que caiu a masculinidade neste final de século. Mas está entre os primeiros a falar desses temas não como um observador, e sim como um dos que se contam entre os atingidos. Para a escritora Susan Faludi, autora do livro Stiffed: the Betrayal of the American Man (O Homem Americano, Traído e Abandonado), o filme é um marco. Ao diagnosticar o dilema de homens que chegaram à virada do milênio sem papéis sociais úteis a desempenhar, escreveu Susan na revista Newsweek, Clube da Luta pode ser classificado como uma espécie de Thelma & Louise masculino. A diferença, diz a escritora, é que no momento em que trocavam o secador de cabelo por uma arma as duas protagonistas do filme de 1991 sabiam muito bem contra quem apontá-la a sociedade patriarcal. Já os personagens representados em Clube da Luta têm pela frente uma batalha intramuros.

Esse diagnóstico acertado não é o único mérito da fita. Além da criatividade efervescente de Fincher, há que destacar as extraordinárias atuações, em especial a de Edward Norton. Ele é um desses atores que, sem apelar para o histrionismo, conseguem desvendar para a platéia a complexa jornada interior do personagem. Com seu estilo hiperbólico, seu ritmo impaciente e suas contradições morais, Clube da Luta é o primeiro retrato visceral de uma geração americana que, de tão enigmática e mal resolvida, foi apelidada justamente de geração X. Que um filme como esse tenha atravessado as malhas de um grande estúdio como a Fox, então, é um feito que merece ser comemorado.

 

A primeira vez. De novo

Cena de American Pie: baixarias como em Porky's. Mas sem graça nenhuma

O grosso da produção cinematográfica americana continua a não ter nenhum compromisso com a originalidade. Tome-se como exemplo a comédia, se é que se pode chamá-la assim, American Pie A Primeira Vez É Inesquecível...! (American Pie, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional. A fita, que custou 11 milhões de dólares e já rendeu mais de 100 milhões nos Estados Unidos, ressuscita um gênero que não havia deixado muita saudade entre quem ainda dispõe de massa cinzenta: aquele celebrizado pelo inane Porky's, de 1981. Como seu antecessor, American Pie é um fenômeno de bilheteria que gira em torno de um grupo de rapazes dispostos a tudo para perder a virgindade. Passados vinte anos, porém, eles não querem mais fazê-lo num prostíbulo, como no enredo do sucesso canadense, e sim com uma colega. Mas o elenco é igualmente sofrível, e as piadas chulas são as mesmas. Basta dizer que a explicação do título está no uso pouco convencional dado a uma torta de maçã. Com toda a baixaria, contudo, Porky's ainda arrancava algumas risadas, o que justificou suas duas continuações. Se houver um American Pie 2, o melhor a fazer é fundar um clube de luta e partir para o espancamento de seus eventuais espectadores.

 
 

 




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