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Lentes que brilham
Os retratos de Cartier-Bresson são daqueles
poucos momentos em que fotografia foi arte
Carlos Graieb
Clique nas fotografias para vê-las ampliadas
Fotos: Divulgação
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O pintor espanhol Pablo
Picasso: Cartier-Bresson
foi amigo de vários dos
maiores artistas do século |
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O escritor irlandês Samuel
Beckett: cuidados com
a composição e a geometria
das fotografias |
Quando nasceu, em 1908, Henri Cartier-Bresson já tinha um destino traçado.
Deveria suceder ao pai no controle das indústrias familiares, um vasto e
riquíssimo império têxtil francês. Ele, no entanto, se sentia muito mais
atraído por outra herança: a de seu tio pintor, a quem chamaria mais tarde
de pai espiritual. Durante toda a adolescência, Cartier-Bresson quis pintar.
Cercado de amigos artistas, ele passava os dias nos cafés e bordéis de Paris,
discutindo o surrealismo, do qual logo se tornou um fervoroso adepto. Aos
20 anos, ingressou no ateliê de André Lothe, um dos grandes mestres do momento.
Estudou, praticou e começou a construir uma obra, até que a sensação de
que estava no caminho errado começou a incomodá-lo. Em 1930, Cartier-Bresson
destruiu quase todas as suas telas. Partiu para a Costa do Marfim e arranjou
um emprego de caçador noturno. Com uma lâmpada de acetileno ele localizava
e imobilizava suas presas, então puxava o gatilho. A aventura durou um ano
e, quando Cartier-Bresson voltou para a Europa, estava a um passo de encontrar
sua vocação. Na África, ele chegara a empunhar despreocupadamente uma máquina
fotográfica. De volta para casa, aderiu definitivamente à câmara. "Eu
andava pelas ruas o dia todo, sentia-me muito alerta e pronto para agir,
determinado a capturar a vida e preservá-la no ato de ser vivida",
diria mais tarde, a respeito desse período. A paixão de Cartier-Bresson
pela fotografia começou em 1931. Seus primeiros trabalhos já combinavam
o rigor plástico do amante da pintura e o instinto, a paciência e a precisão
do caçador.
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| Volta ao desenho: auto-retrato de 1987 |
Em toda a extensa obra de Cartier-Bresson, 91 anos, talvez o maior fotógrafo
do século, esse encontro entre o "esteta" e o "caçador"
pode ser observado. Para comprová-lo, basta folhear o livro Tête
à Tête, agora lançado no Brasil (tradução de Heloisa Jahn; Companhia
das Letras; 66 reais), com o bônus de introdução assinado pelo historiador
da arte Ernst Gombrich. Reunindo 134 imagens, o livro cobre os quase setenta
anos de produção do artista. Em sua maior parte, as fotos mostram rostos
conhecidos. São escritores, músicos, atores, atrizes e políticos. Muitos
foram seus amigos em Paris, como o pintor espanhol Pablo Picasso, o escultor
suíço Alberto Giacometti, os escritores franceses Louis Aragon e Julien
Gracq. Outros personagens ele encontrou ocasionalmente, ou em razão do
trabalho. Foi assim com o escritor e jornalista americano Truman Capote,
em 1947, enquanto ambos preparavam um artigo para a revista Harper's
Bazaar; ou com a atriz Marilyn Monroe, em 1960, retratada
sem nenhum glamour num set de filmagens. Por fim, há também desconhecidos,
figuras tão fascinantes quanto fugidias, flagradas durante viagens ou
reportagens: um homem que parece saído de um quadro de Chagall, em 1931,
no gueto judaico de Varsóvia. Prostitutas no México, em 1934. Um eunuco
da última dinastia imperial chinesa, em 1948. Em todos os casos, o mesmo
cuidado é dispensado à composição da imagem, ao jogo entre volumes, linhas
e superfícies. Como todo observador atento poderá notar –
e como o próprio Cartier-Bresson não cansava de insistir –,
nenhuma de suas fotos pode ser cortada, sob pena de sua elaborada composição
ser mutilada.
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| O escritor Arthur Miller e a atriz Marilyn
Monroe, que foram casados: imagens feitas durante viagem aos Estados
Unidos |
Embora represente uma porção interessantíssima da obra de Cartier-Bresson,
o retrato nunca ocupou uma posição privilegiada nela. Não há um período
em que ele predomine. Não é possível, ainda, distingui-lo claramente da
reportagem, que preencheu porção tão substancial da trajetória do artista.
Aliás, a lente utilizada para as duas atividades sempre foi a mesma, uma
50 milímetros acoplada à indefectível câmara Leica. Em uma de suas principais
reflexões sobre a arte da fotografia, O Instante Decisivo, de 1952,
Cartier-Bresson se diverte ao pensar nas relações entre o retrato pintado
e o fotográfico. Enquanto para os pintores as rápidas mudanças na moda,
nas roupas e nos penteados fizeram do retrato um gênero anacrônico e arriscado,
para o fotógrafo é o contrário que ocorre: "Talvez porque busquemos
algo de menor durabilidade, porque aceitamos a vida em toda a sua realidade,
isso não é tão irritante quanto divertido". Os retratos de Cartier-Bresson
nunca são uma tentativa de bajular ou engrandecer o modelo. Se muitas
pessoas neste século tomaram de algumas dessas fotos, sobretudo aquelas
que apresentam gurus como o filósofo Sartre, o revolucionário Che Guevara
ou o líder negro Martin Luther King, e as colocaram em altares junto a
outros objetos de adoração, o problema é delas. O próprio Cartier-Bresson
jamais comunga em seus trabalhos do culto moderno da personalidade e muito
menos do culto da celebridade – algo que
fotógrafos renomados da atualidade, que construíram sua carreira na propaganda
ou na moda, não conseguem evitar, por mais que tentem.
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O poeta americano
Ezra Pound: técnica
e emoção |
Uma história resume o trabalho de Cartier-Bresson em seus retratos. Em
1971, ele se encontrou com o poeta americano Ezra Pound para uma sessão.
Os dois ficaram frente a frente por mais de uma hora e meia. Pound sentado,
Cartier-Bresson ajoelhado. Ao final desse tempo, nenhuma sucessão frenética
de flashes e poses havia sido produzida. O poeta esfregara as mãos, movera
um pouco a cabeça, piscara os olhos. O fotógrafo captara somente umas
dez imagens. "É fundamental que o retrato seja como um meio de levantar
uma questão", disse certa vez Cartier-Bresson. "A resposta vem
no momento em que o botão é apertado." No caso de Pound, está tudo
ali: a estatura de um escritor que seus próprios colegas chegaram a chamar
de "o melhor artífice", assim como o cansaço de um homem atormentado,
entusiasta do fascismo, que chegou a ser preso numa jaula ao término da
II Guerra e se mostrava relutante em sair de seu mundo interior. Mas não
é só isso. Com suas regiões de luz e sombra e sua intensidade, a foto
torna patente o talento de Cartier-Bresson, um desses raros artistas nos
quais a técnica impecável vai de mãos dadas com a profundidade de emoção
e pensamento.
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| Eunuco chinês e morador do gueto de Varsóvia: retratos
feitos durante trabalhos de reportagem |
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| O filósofo francês JeanPaul Sartre, guru do movimento existencialista:
fotos não fazem culto da personalidade |
A escritora Simone de Beauvoir, autora de O Segundo Sexo
e mulher de Sartre: personagens de Paris |
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