Edição 1 621 - 27/10/1999
 

Lentes que brilham

Os retratos de Cartier-Bresson são daqueles
poucos momentos em que fotografia foi arte

Carlos Graieb

Clique nas fotografias para vê-las ampliadas

 
Fotos: Divulgação
O pintor espanhol Pablo
Picasso: Cartier-Bresson
foi amigo de vários dos
maiores artistas do século
O escritor irlandês Samuel
Beckett: cuidados com
a composição e a geometria
das fotografias


Quando nasceu, em 1908, Henri Cartier-Bresson já tinha um destino traçado. Deveria suceder ao pai no controle das indústrias familiares, um vasto e riquíssimo império têxtil francês. Ele, no entanto, se sentia muito mais atraído por outra herança: a de seu tio pintor, a quem chamaria mais tarde de pai espiritual. Durante toda a adolescência, Cartier-Bresson quis pintar. Cercado de amigos artistas, ele passava os dias nos cafés e bordéis de Paris, discutindo o surrealismo, do qual logo se tornou um fervoroso adepto. Aos 20 anos, ingressou no ateliê de André Lothe, um dos grandes mestres do momento. Estudou, praticou e começou a construir uma obra, até que a sensação de que estava no caminho errado começou a incomodá-lo. Em 1930, Cartier-Bresson destruiu quase todas as suas telas. Partiu para a Costa do Marfim e arranjou um emprego de caçador noturno. Com uma lâmpada de acetileno ele localizava e imobilizava suas presas, então puxava o gatilho. A aventura durou um ano e, quando Cartier-Bresson voltou para a Europa, estava a um passo de encontrar sua vocação. Na África, ele chegara a empunhar despreocupadamente uma máquina fotográfica. De volta para casa, aderiu definitivamente à câmara. "Eu andava pelas ruas o dia todo, sentia-me muito alerta e pronto para agir, determinado a capturar a vida e preservá-la no ato de ser vivida", diria mais tarde, a respeito desse período. A paixão de Cartier-Bresson pela fotografia começou em 1931. Seus primeiros trabalhos já combinavam o rigor plástico do amante da pintura e o instinto, a paciência e a precisão do caçador.

Volta ao desenho: auto-retrato de 1987

Em toda a extensa obra de Cartier-Bresson, 91 anos, talvez o maior fotógrafo do século, esse encontro entre o "esteta" e o "caçador" pode ser observado. Para comprová-lo, basta folhear o livro Tête à Tête, agora lançado no Brasil (tradução de Heloisa Jahn; Companhia das Letras; 66 reais), com o bônus de introdução assinado pelo historiador da arte Ernst Gombrich. Reunindo 134 imagens, o livro cobre os quase setenta anos de produção do artista. Em sua maior parte, as fotos mostram rostos conhecidos. São escritores, músicos, atores, atrizes e políticos. Muitos foram seus amigos em Paris, como o pintor espanhol Pablo Picasso, o escultor suíço Alberto Giacometti, os escritores franceses Louis Aragon e Julien Gracq. Outros personagens ele encontrou ocasionalmente, ou em razão do trabalho. Foi assim com o escritor e jornalista americano Truman Capote, em 1947, enquanto ambos preparavam um artigo para a revista Harper's Bazaar; ou com a atriz Marilyn Monroe, em 1960, retratada sem nenhum glamour num set de filmagens. Por fim, há também desconhecidos, figuras tão fascinantes quanto fugidias, flagradas durante viagens ou reportagens: um homem que parece saído de um quadro de Chagall, em 1931, no gueto judaico de Varsóvia. Prostitutas no México, em 1934. Um eunuco da última dinastia imperial chinesa, em 1948. Em todos os casos, o mesmo cuidado é dispensado à composição da imagem, ao jogo entre volumes, linhas e superfícies. Como todo observador atento poderá notar e como o próprio Cartier-Bresson não cansava de insistir , nenhuma de suas fotos pode ser cortada, sob pena de sua elaborada composição ser mutilada.

O escritor Arthur Miller e a atriz Marilyn Monroe, que foram casados: imagens feitas durante viagem aos Estados Unidos

Embora represente uma porção interessantíssima da obra de Cartier-Bresson, o retrato nunca ocupou uma posição privilegiada nela. Não há um período em que ele predomine. Não é possível, ainda, distingui-lo claramente da reportagem, que preencheu porção tão substancial da trajetória do artista. Aliás, a lente utilizada para as duas atividades sempre foi a mesma, uma 50 milímetros acoplada à indefectível câmara Leica. Em uma de suas principais reflexões sobre a arte da fotografia, O Instante Decisivo, de 1952, Cartier-Bresson se diverte ao pensar nas relações entre o retrato pintado e o fotográfico. Enquanto para os pintores as rápidas mudanças na moda, nas roupas e nos penteados fizeram do retrato um gênero anacrônico e arriscado, para o fotógrafo é o contrário que ocorre: "Talvez porque busquemos algo de menor durabilidade, porque aceitamos a vida em toda a sua realidade, isso não é tão irritante quanto divertido". Os retratos de Cartier-Bresson nunca são uma tentativa de bajular ou engrandecer o modelo. Se muitas pessoas neste século tomaram de algumas dessas fotos, sobretudo aquelas que apresentam gurus como o filósofo Sartre, o revolucionário Che Guevara ou o líder negro Martin Luther King, e as colocaram em altares junto a outros objetos de adoração, o problema é delas. O próprio Cartier-Bresson jamais comunga em seus trabalhos do culto moderno da personalidade e muito menos do culto da celebridade algo que fotógrafos renomados da atualidade, que construíram sua carreira na propaganda ou na moda, não conseguem evitar, por mais que tentem.

O poeta americano
Ezra Pound: técnica
e emoção

Uma história resume o trabalho de Cartier-Bresson em seus retratos. Em 1971, ele se encontrou com o poeta americano Ezra Pound para uma sessão. Os dois ficaram frente a frente por mais de uma hora e meia. Pound sentado, Cartier-Bresson ajoelhado. Ao final desse tempo, nenhuma sucessão frenética de flashes e poses havia sido produzida. O poeta esfregara as mãos, movera um pouco a cabeça, piscara os olhos. O fotógrafo captara somente umas dez imagens. "É fundamental que o retrato seja como um meio de levantar uma questão", disse certa vez Cartier-Bresson. "A resposta vem no momento em que o botão é apertado." No caso de Pound, está tudo ali: a estatura de um escritor que seus próprios colegas chegaram a chamar de "o melhor artífice", assim como o cansaço de um homem atormentado, entusiasta do fascismo, que chegou a ser preso numa jaula ao término da II Guerra e se mostrava relutante em sair de seu mundo interior. Mas não é só isso. Com suas regiões de luz e sombra e sua intensidade, a foto torna patente o talento de Cartier-Bresson, um desses raros artistas nos quais a técnica impecável vai de mãos dadas com a profundidade de emoção e pensamento.

 
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