Edição 1 621 - 27/10/1999
 

De graça até eu

Britannica pára de cobrar pelo serviço via internet
e é afogada por mais de 5 milhões de consultas

Cristina Poles

Mais de 5 milhões de pessoas tentaram acessar um novo site na internet, na terça-feira passada: o www.britannica.com. O que atraiu essa multidão à página de uma veneranda enciclópedia foi a mais irresistível das ofertas, a de acesso irrestrito inteiramente grátis. Confirmou-se que de graça as pessoas estão dispostas às coisas mais incríveis, até ler verbetes de enciclopédia. O resultado de tanta gente tentando simultaneamente o acesso foi o total colapso do sistema. Nos dias seguintes à inauguração do novo endereço foi praticamente impossível consultar ali uma linha sequer das preciosas definições oferecidas. Quem tentava era recebido com uma mensagem em que a Britannica pedia desculpas pela incapacidade de atender tanta gente. "Não contávamos com esse incrível número de internautas de uma só vez", disse a VEJA Jorge Cauz, vice-presidente de marketing da empresa, que, apesar do nome, tem sua sede em Chicago, nos Estados Unidos, desde a década de 20. O que fez a Britannica, a maior e mais conceituada enciclopédia do mundo, publicada em nove línguas, oferecer de graça o conteúdo de seus 32 volumes foi o fracasso da tentativa de vendê-lo on-line.

Até a semana passada, quem quisesse consultar essa publicação na internet precisava fazer uma assinatura de 5 dólares mensais ou 50 dólares anuais. O serviço pago, abrigado no endereço eb.com, está no ar desde 1994 e vinha perdendo assinantes em ritmo cibernético. Está atualmente com parcos 40.000, quantidade insuficiente para fazer o negócio valer a pena. Não é um caso isolado. Contam-se às dezenas as tentativas fracassadas de vender informações via internet. No caso da Britannica, trata-se, em parte, de uma retirada estratégica. O serviço pago continua existindo (ainda que provavelmente só venha a ser acessado por quem não tiver paciência para esperar pelo congestionado serviço gratuito) e vai ser reformado e relançado dentro de seis meses. O plano é transformá-lo numa página especializada em educação. A enciclopédia será então oferecida como brinde. "Colocar um produto grátis na internet com o intuito de chamar a atenção para outro pelo qual se paga tem sido uma estratégia comum das empresas em todo o mundo", afirma Silvio Lemos Meira, professor do departamento de informática da Universidade Federal de Pernambuco.

O principal objetivo do site grátis da Britannica, dizem os executivos de Chicago, é tornar mais popular a marca. A Britannica é o transatlântico das enciclopédias, mas as vendas afundam como Titanic. A empresa foi vendida há três anos a Jacob Safra, um investidor suíço que adotou uma estratégia de marketing bem agressiva. A coleção em papel, que foi o carro-chefe da companhia durante dois séculos, perdeu espaço para a versão em CD-ROM. São vendidas 200.000 unidades por ano apenas nos Estados Unidos. A razão é o preço. Enquanto por lá os 32 volumes em papel custam 1.250 dólares, o CD-ROM é oferecido normalmente por 100 dólares -- e em algumas promoções pode ser encontrado até por 59 dólares. "O serviço grátis não deverá atrapalhar as vendas mundiais do CD-ROM, porque na internet não colocamos os mesmos recursos de multimídia", diz Cauz. "Além disso, o principal público dos CDs-ROM é infantil, pois muitos pais não gostam de ver os filhos navegando livremente na internet." No Brasil, a enciclopédia em papel sai por 3.050 reais e inclui o CD-ROM, que não pode ser adquirido separadamente. As vendas são modestas. Apenas 1.200 unidades por ano.

A próxima novidade da Britannica em papel está programada para 2001: uma nova edição da enciclopédia impressa, com quarenta volumes. Serão milhares de novos verbetes, principalmente nas áreas de tecnologia, ciência e cultura popular. Por que alguém iria pagar por quase 70 quilos de papel se o mesmo material pode ser obtido totalmente de graça pela internet? "O prazer proporcionado pelas páginas recheadas de belas ilustrações não será jamais substituído pela praticidade ou pelo baixo custo da obra na internet", responde Pedro Sérgio Martinez, diretor de marketing da Enciclopédia Britânica do Brasil Publicações, empresa responsável pela venda dessa obra no país. Acredite quem quiser. A Britannica foi, de certa forma, a internet do passado. Apesar de o termo enciclopédia ter surgido na Grécia antiga, uma obra nos moldes atuais só surgiu no século XVIII, com a Encyclopédie francesa de Denis Diderot e Jean D'Alembert. Nenhuma das obras similares, porém, conseguiu o prestígio da Encyclopaedia Britannica, editada pela primeira vez em 1768, em Edimburgo, na Escócia, por três tipógrafos. A primeira edição, que demorou três anos para se completar, tinha aproximadamente 2.700 páginas divididas em três volumes. A Britannica atualmente está em sua 15ª edição. Boa parte da reputação se deve à qualidade de seus colaboradores, recrutados entre os especialistas mais famosos de cada época (veja quadro). "Eis a grande diferença entre a Britannica e outras enciclopédias", avalia a professora de biblioteconomia da Universidade de São Paulo Regina Obata. "As pessoas renomadas que contribuíram para a história da Britannica ao longo dos séculos fizeram com que ela adquirisse uma qualidade inconfundível." Mas o bom mesmo é que agora é de graça.

 

 
 

 




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