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Edição 1 621 - 27/10/1999
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A terceira fase da AIDSRemédios já permitem uma vida quase normal Marcos Gusmão
Até bem pouco tempo atrás, a pessoa infectada pelo vírus da Aids podia perder as esperanças. Como a doença estava totalmente além de qualquer possibilidade de controle, o que se podia esperar era uma lenta agonia até a morte inevitável. Já não é assim. Um coquetel de remédios está permitindo maior controle sobre a evolução da doença, levando ao surgimento de uma nova geração de pacientes – aqueles que podem levar uma vida praticamente normal. Os especialistas em epidemiologia chamam a isso de terceira fase da Aids. A primeira surpreendeu os médicos e foi marcada pela alta taxa de mortalidade. Foi quando a morte do cenógrafo Flávio Império chocou o Brasil, em 1985. Na segunda fase já era possível assegurar uma sobrevida sofrida, à custa de muito AZT, um remédio de efeitos colaterais devastadores. O exemplo desse período foi o drama vivido pelo cantor Cazuza, definhando até morrer. "A doença entrou numa nova fase. Quem toma as drogas corretamente não morre de Aids", diz Pedro Chequer, diretor da Coordenação Nacional de Aids do Ministério da Saúde. "O estágio agora é o da vida com qualidade." Não é natural esperar que um soropositivo – a pessoa infectada com o vírus mas que ainda não desenvolveu a doença – viva tranqüilo sabendo da bomba-relógio que leva dentro do corpo. Mas, como é impossível eliminar o vírus, a maioria está aprendendo a sobreviver com as armas que tem nas mãos. Há poucos anos, quem havia sido infectado nada podia fazer para combater o mal além de usar as drogas de primeira geração. As doenças oportunistas tinham um poder devastador, manchas e feridas enegrecidas espocavam pela pele, a pessoa emagrecia pavorosamente e mal conseguia se levantar da cama durante as crises da doença. Hoje, os portadores de HIV, que odeiam ser chamados de aidéticos pela conotação pejorativa que o termo carrega, conseguem a vitalidade necessária para continuar trabalhando, praticam exercícios físicos e até mesmo mantêm um relacionamento sexual. No Estado de São Paulo, que concentra o maior número de portadores da doença no país, sete em cada dez pacientes tomam corretamente o coquetel de remédios anti-Aids, distribuído gratuitamente pelo governo desde 1996. As drogas de última geração inibem a proliferação do vírus, desde que o paciente se mantenha fiel à terapia. É graças a eles que a vendedora Mary de Souza, de 34 anos, tem um ritmo agitado de vida. Às 6 horas da manhã, ela já está de pé para levar o filho de 6 anos para a escola. Ela vende planos de saúde e passa as manhãs visitando clientes. As tardes são dedicadas ao filho, que não é doente. Mary foi contaminada pelo marido, em 1996. Ele morreu seis meses após o diagnóstico da doença. Para ela, a pior fase foi logo depois de saber que estava com o vírus. Tinha pavor que o filho também tivesse contraído a doença. "Isso sim seria a morte para mim", diz.
Mesmo alguns pacientes que já manifestaram a doença, como Luciano da Rocha Ferreira, de 32 anos, estão conseguindo manter-se à custa dos medicamentos. Ferreira viu duas caras diferentes da mesma enfermidade. A primeira delas logo no começo de sua doença, em 1992, quando perdeu 10 quilos e foi hospitalizado com violenta pneumonia. "Pensei que jamais sairia daquele hospital, me senti esvaziado de qualquer sentimento ou motivação", relembra. "Para mim não existia mais nada, nem ninguém." Superou a crise inicial, mas voltou a ser internado há três anos. Aí, sim, passou a ser tratado com o coquetel de drogas. Atualmente, trabalha num bufê no Rio de Janeiro e sai todo fim de semana para dançar. A dona de casa Denise Cordeiro da Silva, de 38 anos, também foi internada por Aids, em 1996. Foi dentro do hospital que ela contou ao filho adolescente que estava contaminada pelo HIV. "Cheguei a dizer para meu filho que não tinha a menor idéia do que ia acontecer comigo, eu não sabia sequer se ia conseguir sair daquele quarto de hospital. Ele foi forte. Não chorou", lembra. Instrumentadora cirúrgica, foi obrigada a abandonar a profissão e aceitar a aposentadoria precoce.
Tomar o coquetel está longe de ser uma maravilha terapêutica. São comuns crises de náusea e diarréia causadas pela droga. Os comprimidos também levam o corpo a sofrer deformações, como o afinamento dos braços e pernas e o acúmulo de gordura no tronco e abdome. Mas não é nada que se compare ao drama de ver o próprio corpo reduzido a praticamente pele e osso. A funcionária pública Rosilda Martins Marinho, de 31 anos, chegou a pesar 46 quilos contra os 58 quilos que tinha antes da doença. "Eu tinha medo do espelho e hoje sou obcecada por manter minha forma física", afirma. Ela faz ginástica para aumentar a musculatura e com isso deter o afinamento de seus membros. Os comprimidos também não saem de sua bolsa. Uma preocupação constante dos soropositivos é não deixar de tomar corretamente o coquetel para evitar o surgimento de vírus resistentes aos remédios atuais. "Não se sabe ainda quantos pacientes brasileiros têm HIV resistente a alguma droga", explica o infectologista Edvaldo Souza, do Recife. "Os dados disponíveis mostram que pelo menos um quarto dos soropositivos dos Estados Unidos já têm vírus resistentes." Já são comuns os casos de falência terapêutica, em que a droga simplesmente pára de agir e a carga viral que estava baixa volta a crescer. Um sinal de que a terceira fase da epidemia está muito longe de ser a última. |
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