Edição 1 621 - 27/10/1999
 

Onde tudo começou

Descobertas arqueológicas revelam a
importância da civilização egípcia para
o Ocidente e a egiptomania volta à moda

Eliana Simonetti

Fotos: Pedro Martinelli/Ary Diesendruck
As pirâmides, a esfinge de Gizé (à dir.) e a máscara mortuária encontrada no tesouro de Tutancâmon (à esq.): calcula-se que apenas 30% da história do Egito tenha sido descoberta até hoje

As listas dos livros mais vendidos no mundo, os movimentos de Hollywood e as exposições de arte que vêm sendo promovidas nos maiores museus do planeta apontam para o Egito. Existe uma onda de egiptomania no ar. O filme A Múmia, uma espécie de chanchada de terror, já faturou 402 milhões de dólares a trigésima maior bilheteria da história do cinema. O Príncipe do Egito, desenho animado do estúdio de Steven Spielberg em sociedade com a Disney, já rendeu 218 milhões de dólares. Os três primeiros volumes da série Ramsés, romances escritos pelo egiptólogo francês Christian Jacq, estão entre os mais vendidos em todos os países que os lançaram. Foram comprados cerca de 6 milhões de exemplares no mundo mais de 60.000 no Brasil. Aproveitando a onda, o escritor Erich Von Däniken, um garçom que ficou riquíssimo com Eram os Deuses Astronautas?, de 1968, acaba de tirar do forno outra fantasia. O delírio de Von Däniken tem como pano de fundo o Egito: Chariots of the Gods: Unsolved Mysteries of the Past (o livro ainda não tem tradução em português, mas o título seria "Carruagens dos Deuses: Mistérios Não Resolvidos do Passado").

O Egito voltou à moda. O mais interessante é que nem todos os livros, filmes e exposições são suficientes para louvar a história egípcia e sua influência no mundo atual. A primeira festa de aniversário de que se tem notícia aconteceu há 5.000 anos, no Egito. A primeira forma de reprodução musical foi obtida com o vento que passava através de uma estátua gigante do deus Memnon, repetindo sempre a mesma música, 1.500 anos antes de Cristo. A primeira medida quase precisa da circunferência da Terra foi feita por um bibliotecário grego, Eratóstenes, há 2.200 anos, na cidade portuária egípcia de Alexandria. A gata borralheira que encontra seu príncipe e vira Cinderela, o jogo da amarelinha e as bolinhas de gude nasceram no Egito. Também surgiram na antiga civilização do norte da África o pão feito com fermento e a cerveja. Modelos ainda toscos de planos de saúde e os primeiros médicos a praticar regularmente a cura. Os tribunais, os cosméticos, os perfumes e as perucas. "O Egito é o verdadeiro berço da civilização. Tem mais de 3.000 anos de história que só vem sendo estudada há 150 anos. Ainda não sabemos quase nada", diz Antonio Brancaglione Júnior, egiptólogo brasileiro que dá aulas na Universidade de São Paulo e cuida do acervo egípcio do Museu de Arte de São Paulo, o Masp.

O que veio do Egito

jogo de bolinhas de gude
cadeira de quatro pernas
papel
carimbo
jogo da amarelinha
contos como Cinderela e Simbad, o Marujo
cerveja
calendário
definição das estações do ano
conceitos de verdade, equilíbrio e justiça
estrutura do Estado, clero e Exército
astronomia
festa de aniversário
dança do ventre

Há duas faces nessa febre egípcia. Uma delas é mais etérea. É o fascínio pelo esotérico, pelo misterioso. O poder das pirâmides, as revelações das cartas de baralho dos jogos de tarô, a curiosidade pelas maldições dos faraós são fenômenos comuns em finais de século. Este não é exceção. Tem muita gente que acredita ser reencarnação de faraó, que psicografa mensagens em hieróglifos, que faz reuniões festivas com trajes egípcios. A outra face é mais interessante do ponto de vista do conhecimento. A tecnologia evoluiu muito nos últimos anos. Hoje, com radares, sonares e satélites, já se descobriu muita coisa nova (ou melhor, antiqüíssima). Muito mais deverá surgir nos próximos anos. Segundo cálculos do governo egípcio, 70% da história do país continua encoberta por areia, pântanos, avenidas e casas. Algumas tumbas de reis, como a de Ramsés VIII, nunca foram encontradas. O delta do Rio Nilo, onde vivia 40% da população do Egito antigo, ainda não foi escavado como se deve. Nos últimos tempos foram registradas grandes descobertas, como o que sobrou do farol de Alexandria, o palácio de Cleópatra, um navio de Napoleão, o moderno conquistador do Egito, que afundou carregado de tesouros numa batalha contra os ingleses, e um cemitério com mais de 10.000 múmias de gente comum. Foram achadas até placas com escrita mais antiga que os hieróglifos, que foram gravadas 5.400 anos atrás. Um site na internet dá acesso a um mundo de informações sobre o país e sua história (veja nota na seção Hipertexto).

Tudo isso acrescenta um pouco ao conhecimento que se tem da história egípcia e da humanidade e derruba alguns mitos. Quem ouviu na escola, por exemplo, que as imensas pedras que formam as pirâmides foram carregadas por escravos negros e hebreus aprendeu errado. Os estudiosos já sabem que as pirâmides foram construídas por camponeses que, na época da cheia do Nilo, impedidos de se dedicar à agricultura, eram recrutados para o trabalho pesado da construção. Os camponeses iam carregar pedra por livre e espontânea vontade. Eles topavam. Afinal, tinham direito a alimentação e a uma espécie de seguro-saúde: se adoecessem, eram atendidos por médicos que ficavam de plantão na área da empreitada.

A paixão pelo Egito atinge o Ocidente em ondas. A primeira ocorreu na época de Napoleão Bonaparte. Durante toda a Idade Média e o Renascimento, o Egito, sob o domínio árabe, esteve fechado para o mundo. Napoleão ficou fascinado com o que encontrou, entre o final do século XVIII e o início do XIX. Carregou consigo peças que originaram as coleções dos museus do Louvre, na França, Britânico, em Londres, e de Turim, na Itália. Dava múmias de presente para os amigos decorarem suas casas. Naquele tempo, ter uma múmia na sala era coisa chique. No final, a banalização era tanta que as múmias começaram a ser moídas e seu pó usado como poção medicinal uma forma de canibalismo praticada em plena Europa.

A segunda onda veio em 1922, entre as duas guerras mundiais, quando já havia jornais, telégrafo e cinema. Foi nesse tempo que as novidades científicas começaram a ganhar as manchetes dos jornais. A descoberta do túmulo de Tutancâmon, o rei Tut do desenho animado de Spielberg, provocou furor. Aí, não se sabe bem como, inventou-se a história da maldição dos faraós, baseada no fato de que os arqueólogos que primeiro entraram na tumba foram infectados por um fungo (uma colônia de fungos, na verdade, que crescera durante milhares de anos no ambiente fechado) e morreram. Bram Stoker, o escritor que ficou conhecido pela sua história do Drácula, escreveu na época A Jóia das Sete Estrelas, um livro que serviu de base para todos os filmes de terror sobre múmias que foram feitos até hoje. Boris Karloff e Edgar Allan Poe aproveitaram a maré. Quando o Titanic afundou, difundiu-se a versão de que o capitão havia sido desorientado por uma múmia que estava sendo carregada num depósito próximo a sua cabine.

Nas décadas de 60 e 70, os museus desconfiaram de que ainda havia um público interessado em coisas do Egito e promoveram grandes exposições. Uma delas, no Metropolitan Museum, em Nova York, faturou, nos anos 70, 11 milhões de dólares só com a venda de suvenires. Nos anos 80, o tema foi esquecido mas voltou com tudo nesta década. Hoje, a indústria francesa de cosméticos L'Oreal está promovendo um extenso trabalho de pesquisa para reproduzir produtos de beleza utilizados pelos egípcios da antiguidade. Perfumes como os usados pelos faraós e suas mulheres são vendidos em frascos de cristal minúsculos, com tampa de ouro, por milhares de dólares. E o governo egípcio já resolveu aproveitar o momento. No último pôr-do-sol de 1999 começará, entre as pirâmides, rodeado pelo deserto, um espetáculo de ópera com doze horas de duração. O papa já está convidado para um outro evento, que deverá comemorar os 2.000 anos da cristandade, lembrando que durante uma temporada Jesus viveu no Egito. Para os brasileiros que se interessam pelo assunto, há uma coleção importante acessível. Foi formada pelos dois imperadores, dom Pedro I e dom Pedro II, e está exposta no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Ali se pode ver uma múmia feminina raríssima, já que faz parte de uma série de oito mulheres mumificadas, provavelmente pertencentes à mesma família. No Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, Minas Gerais, há uma outra coleção, comprada por um nobre em 1884, que deverá ser exposta pela primeira vez em breve. Uma espiadinha no Egito pode ser útil para pôr em perspectiva o milênio que se encerra.

 
 

 




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