Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Tales Alvarenga
Chapeuzinho e o lobo

"Marta é melhor do que isso. Vamos esperar
que essa fase malufista
passe logo"

O presidente Lula agiu na semana passada com autoridade e bom senso ao desautorizar declarações estapafúrdias da candidata do PT à reeleição para a prefeitura de São Paulo. Marta Suplicy, de cima dos saltos altos que costuma usar até para visitar favelas, fez afirmações que agridem não apenas o senso comum dos brasileiros como o próprio caráter ético e político do governo Lula. Depois de desmentida pelo Palácio do Planalto, Marta Suplicy voltou a sugerir que o governo petista dará menos verbas a São Paulo se o vencedor do segundo turno da eleição municipal for seu adversário, o tucano José Serra.

Guerra é guerra, mas há certas coisas que não se fazem nem mesmo nas mais disputadas batalhas pelo voto popular. Marta passou dos limites ao envolver pessoalmente o presidente da República num projeto de punição financeira a São Paulo em caso de vitória tucana. Certamente, Lula não imaginaria tomar uma atitude tão disparatada. E o Planalto já o declarou com todas as letras. "Já disse que o governo não discriminou, não discrimina nem vai discriminar nenhuma administração", reafirmou o ministro Aldo Rebelo, da Coordenação Política.

Deve-se ter um pouco de tolerância com candidatos que podem estar desesperados ante o veredicto das urnas. Em aliança esdrúxula com Paulo Maluf, aquele que ela chamou no passado de "nefasto", a prefeita Marta Suplicy talvez imagine que o eleitor não perceba esse tipo de incoerência. Mas o acerto assusta até as criancinhas. Nem elas conseguem imaginar Chapeuzinho Vermelho passeando no bosque de mãos dadas com o lobo. Isso depois de flagrar a fera com as pernas da vovó balançando para fora da boca.

As pessoas se deixam conhecer principalmente quando estão sob pressão. Nesta campanha eleitoral em que perdeu o primeiro turno para José Serra e está bem atrás nas pesquisas de intenção de voto para o segundo, Marta Suplicy guardou suas melhores características no closet, junto com os vestidos caros e exibidos. Optou pelas piores. No desembaraço com que tenta manipular a simpatia dos eleitores a qualquer custo, ela está cada vez mais parecida com seu atual paraninfo, Paulo Salim Maluf.

Maluf sempre procurou se apresentar como um político fazedor. Nas suas campanhas, os atributos de que se orgulhava eram o de colocar a polícia na rua e construir avenidas, viadutos, pontes e túneis. Para fazer um sucessor na prefeitura de São Paulo, o pupilo Celso Pitta, Maluf transformou os derradeiros meses de sua gestão num festival jamais visto de inaugurações. Marta está fazendo a mesma coisa para se reeleger. Guardou tantas inaugurações para os últimos meses antes da eleição que deixou os paulistanos tontos – e muito mal-humorados. A prefeita transformou regiões inteiras em canteiros de obras. O trânsito se tornou caótico. E lá ia ela, com seus tailleurs chamativos, fazer vistoria na poeira com capacete de operário.

Na reta final, acelerou o cerco ao eleitor com uma sem-cerimônia impressionante. Prometeu livrar os motoboys de taxas e conseguir isenção de impostos para donos de microônibus. Também se comprometeu com a regulamentação do trabalho aos domingos para os comerciários e o congelamento das tarifas de ônibus até o fim do ano que vem. São truques eleitorais muito óbvios. Marta é melhor do que isso. Vamos esperar que essa fase malufista passe logo.

 
 
 
 
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